Massagem Biodinâmica: um processo de metamorfose 

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A Massagem Biodinâmica como recurso auxiliar de integração emocional à Psicoterapia

Beatriz Franceschi Bernardi
Email: [email protected]

Especialista em Psicologia Biodinâmica pelo Instituto Biomater em parceria com o IBPB

“Não haverá borboletas, se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses.”
(Rubem Alves)

“É uma alegria estar escondido, mas um desastre não ser encontrado.”
(Donald Woods Winnicott)

“Quem olha pra fora sonha, quem olha pra dentro desperta.”
(Carl Gustav Jung)

1 – INTRODUÇÂO

Este trabalho teve como objetivo apresentar uma das formas de se atuar no campo do atendimento clínico da Psicologia. Uma forma do não-verbal, do simbólico, tendo o corpo como recurso para as dinâmicas psíquicas e integração emocional em psicoterapia. Para o desenvolvimento deste trabalho, foi utilizada a metodologia da pesquisa bibliográfica. O embasamento teórico e construção de ideias se basearam em pesquisas e coleta de informações na internet, através de livros digitais ou em sites de profissionais da área e do próprio Instituto Brasileiro de Psicologia Biodinâmica. Também em livros e textos pertinentes à área, inclusive da fundadora da linha teórica. Os resultados serão apresentados de maneira qualitativa, falando um pouco sobre o desenvolvimento e criação da linha teórica que embasa o trabalho com a massagem, indicações e contra-indicações, benefícios e eficácia, trazidos tanto para o desenvolvimento do processo terapêutico em si, quanto para a possibilidade de um maior desenvolvimento e amadurecimento emocional do paciente.

1.1. Psicologia Biodinâmica
A Psicologia Biodinâmica é uma linha teórica corporal neorreichiana. É sistêmica em sua prática e lança mão de recursos como a intervenção verbal e a abordagem corporal para trabalhar as emoções e sensações. Entende que corpo e mente se integram como componentes de um mesmo organismo, em consequência de que o ser humano vive em função de dois movimentos: a homeostase, que é a busca da harmonia e da auto-regulação; e a evolução pela mudança e pelo movimento.
Gerda Boyesen, fisioterapeuta e psicóloga norueguesa, foi quem criou a teoria e desenvolveu um método próprio para o tratamento de distúrbios mentais e psicossomáticos. Neste trabalho, conseguiu integrar as experiências psicoterapêuticas dos conceitos Reichianos vivenciados por ela em sua terapia à técnicas de massagens inspiradas na fisioterapeuta Aadel Bülow-Hansen, com quem aprendeu conceitos e técnicas de massagem que a influenciaram profundamente. Através de pesquisas de distúrbios psicossomáticos, ela descobriu noções complementares à ciência orgonômica de Reich (a teoria de que a neurose é um distúrbio do metabolismo bioenergético). Estas duas vertentes até então estavam como elementos isolados, mas aos poucos Boyesen foi percebendo relações entre elas e começou a desenvolver ideias sobre a importância do sistema nervoso autônomo (a descarga vegetativa), o papel da hipertonia e hipotonia da musculatura estriada nos processos psíquicos, a teoria da circulação do sangue na neurose, entre outras. Também sofreu influências de Freud, como traz em um trecho de seu livro:
Nesta época a teoria freudiana do desenvolvimento psicossexual da criança tornou-se muito importante para mim. Aquilo a que Freud se referia não era somente real e verdadeiro no que se refere à psique, era real e verdadeiro nos próprios tecidos. (BOYESEN, 1986, p.74).
O Instituto Brasileiro de Psicologia Biodinâmica, no texto “O que é Psicologia Biodinâmica”, encontrado no site do Instituto, traz diversas considerações que nos ampliam o olhar sobre a Psicologia Biodinâmica, a ideia em que acredita e a maneira como atua sobre a aplicação da massagem, como sendo um meio poderoso para o desenvolvimento do processo terapêutico.
A Biodinâmica parte do princípio de que cada ser humano é único, pulsante, possui a capacidade para a contração e a expansão, atua visando

[…] incentivar sua criatividade, potência e espontaneidade de maneira afetiva, tolerante e não-invasiva. Enfatiza o amor, o prazer, a sexualidade, o trabalho, o conhecimento e a espiritualidade como fundamentos de uma existência plena.
Encontra aplicação prática na Análise Biodinâmica, tendo como elemento fundamental para o processo: a relação terapêutica. Cuida para que esta seja desenvolvida de acordo com as necessidades de cada paciente, realizando intervenções adaptadas e trazendo a possibilidade de emergir para a consciência o que é inconsciente, em um processo gradativo e profundo, de entrega, aceitação e respeito.
Salienta a proposta de fazer amizade com a resistência e dissolver couraças sem quebrá-las, constituindo-se numa abordagem sistêmica que busca o domínio das diversas formas de intervenção verbal e o trabalho com sonhos e a imaginação, integrando esse trabalho simbólico a duas formas de abordagem somática:
– a Massagem Biodinâmica, que abrange a concepção do contato físico como forma de comunicação não-verbal, a valorização da intenção no toque, o uso de técnicas específicas de massagem adequadas às diversas necessidades de cada fase do processo analítico, dentre elas a massagem psicoperistáltica, que utiliza um estetoscópio colocado sobre o ventre como guia do processo.
– a Vegetoterapia Biodinâmica, que engloba diversas formas de intervenção corporal com repercussão sobre a dimensão do psíquico, que podem ser aplicadas sem necessariamente haver contato físico com o paciente, incluindo-se aí a associação livre de movimentos, o trabalho com a respiração e exercícios mobilizadores e integradores.
Boyesen embasou sua teoria em diversos autores da psicologia, e insere conceitos e visão de mundo da psicanálise, considerando indispensáveis:
– a noção da existência de processos mentais inconscientes que são ativos, dinâmicos e estruturam distúrbios psíquicos e inúmeros outras manifestações percebidas na consciência, bem como a psicodinâmica resultante do conflito entre pulsão e defesa como fundamento da compreensão do psiquismo;
– a metapsicologia de Freud como norte para a compreensão dos processos psíquicos;
– o conceito de desenvolvimento psicossexual e a importância decisiva da sexualidade na existência humana;
– os conceitos de fixação e regressão;
– o estudo dos mecanismos de defesa;
– a clínica baseada nos conceitos de resistência, transferência e contratransferência;
– a formulação de um processo analítico em que são importantes tanto a revelação (conscientizar o que é inconsciente) quanto a criação (no sentido de novas experiências reparadoras que se dão no âmbito da relação analítica);
– uma técnica que valoriza a atenção flutuante e a associação livre.
Também se baseia nos conceitos e pensamentos desenvolvidos por Wilhelm Reich, quando:
– valoriza o trabalho corporal na análise como resultado do entendimento do ser humano em sua realidade somática e admitindo a relevância da respiração e do aparelho locomotor na dinâmica emocional;
– usa o conceito de uma bioenergia em seu raciocínio clínico;
– dá importância crucial, na teoria e na prática, à capacidade humana de autorregulação somática e psíquica;
– entende como é significativo analisar o caráter e agir sobre a couraça muscular;
– considerar a vitalidade e o prazer como aspectos indispensáveis da existência humana e defender com paixão a vida em seus múltiplos aspectos;
– demonstrar afinidade pelo que é espontâneo.
Agrega ainda elementos do pensamento de D. W. Winnicott, quando se refere:
– à sua teoria do amadurecimento pessoal, valoroso recurso que propicia maior segurança diagnóstica ao terapeuta e adaptação da abordagem em cada fase do tratamento dos pacientes;
– ao estudo da contribuição deste autor, ao relacionar psique e soma, especialmente quanto à influência dos anos iniciais da vida nos problemas físicos e emocionais do adulto;
– ao estudo das suas ideias sobre o desenvolvimento emocional primitivo e por suas inferências ao observar a relação mãe/bebê, a partir das quais cunhou o termo “mãe suficientemente boa”, conceito que amplia a compreensão e a capacidade de manejo nos casos em que ocorre regressão, seja nos trabalhos com massagem, seja nos tratamentos analíticos;
– às concepções que desenvolveu em relação aos fenômenos transicionais que são o elo de ligação entre o mundo subjetivo e a realidade compartilhada, criando a base do mundo simbólico e permitindo o desenvolvimento da capacidade de fantasiar e brincar que são os fundamentos da vida cultural e artística;
– aos conceitos de saúde e doença, entendidos sob a ótica da teoria do amadurecimento. A doença deixa de ser vista como patologia e passa a ser compreendida como uma interrupção do amadurecimento, resultante de falhas repetidas no ambiente;
– aos conceitos de verdadeiro self, falso self, de holding e handling;
– à teoria da agressividade.
Outros autores que também foram importantes e contribuíram com a Psicologia Biodinâmica, através de olhares e conceitos foram:
– a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, ao abordar os conceitos de inconsciente coletivo, self, interpretação prospectiva dos sonhos, individuação, sincronicidade, trabalho com imaginação ativa, arquétipos;
– a Psicologia Humanista de Carl Rogers, quanto à importância da disponibilidade empática e da congruência do psicoterapeuta, da sintonia com a capacidade de cura do paciente e da “aceitação positiva incondicional”;
– a fisioterapia de Aadel Bülow-Hansen, quanto ao aprendizado de técnicas, ao trabalho de cura das neuroses, a atuação corporal e a possibilidade de Boyesen viver na prática muitos ensinamentos, poder fazer observações, coletar dados, absorver conteúdo para sintetizar e desenvolver a teoria Biodinâmica mais tarde.
Atualmente, a neurociência e suas pesquisas recentes têm propiciado um diálogo com a Biodinâmica e estimulam um aprofundamento de seus conceitos. O neurocientista Antonio Damásio é o principal teórico de relevância para este diálogo. Em seu trabalho destaca-se uma abordagem inovadora no que diz respeito ao entendimento da psicofisiologia das emoções e do papel do corpo e da sensorialidade no fenômeno da consciência. O diálogo com este autor vem permitindo uma reflexão que leva a um aprofundamento e a uma atualização das bases teóricas e técnicas que norteiam a Psicologia Biodinâmica nos dias de hoje. (IBPB, s.d.).

Boyesen em 1986, já trazia ideias que relacionavam o aspecto neurológico com os aspectos emocionais, conforme o trecho a seguir:
Há dois hemisférios cerebrais: o esquerdo e o direito. O hemisfério direito está ligado à parte esquerda do corpo, que é também a do coração, em contato direto com a energia cósmica. O hemisfério esquerdo é a parte mais racional, mais mecânica, intolerante, eficiente. (BOYESEN, 1986, p.153).

Um conceito que já foi trazido no trabalho, mas ainda não foi explicado, é o de energia. É um conceito que foi introduzido por Freud e que ainda gera muitas discussões e tem muitas divergências entre as ideias Reichianas e Neorreichianas em relação ao próprio nome em si, ao tipo de energia, origem corporal desta, o que a bloqueia, direção dela e enfoque terapêutico. Ainda é um conceito pouco valorizado pela cultura ocidental e de difícil aceitação na comunidade científica, pela sua dificuldade de mensuração e então comprovação científica, apesar de muitas vezes poder até ser visível a atuação desta energia no corpo. Mesmo havendo as divergências, concorda-se que há uma bioenergia que influencia na fisiologia e na fisiopatologia do organismo humano. Que existe um campo energético (aura) que vai além dos limites da pele e que esta energia pode ser bloqueada através da hipertonia muscular.
Diz-se que o conceito de bioenergia originou-se na psicanálise:
Freud já em seus primeiros escritos afirmava que nas funções mentais, deve-se distinguir algo – uma carga de afeto ou soma de excitação – que possui todas as características de uma quantidade (embora não tenhamos meios de medi-la) passível de aumento, diminuição, deslocamento e descarga, e que se espalha sobre os traços mnêmicos das representações como uma carga elétrica espalhada pela superfície de um corpo. (REGO, 1990, p.2).
Boyesen concorda com Reich no sentido de haver uma energia cósmica que dá o “[…] suprimento de vida a todas as criaturas, dá pulsação a todas as células vivas e está presente nas vísceras e em outros tecidos vivos”. (REGO, 1990, p.3). Essa energia vital é capaz de trazer ao indivíduo, uma sensação de paz, bem-estar, conexão consigo mesmo e com o cosmos, e confiança em si mesmo e na vida.
Se tratando de força vital, no trecho abaixo são exemplificadas as diferentes formas com que esta força vital se expressa no nosso organismo:
As emoções são movimentos da força vital no corpo, assim como em nossa mente. Distinguimos três níveis através dos quais a força vital flui em nós: o psicológico, o muscular e o vegetativo. Com o nível “psicológico”, queremos dizer nossa experiência cognitiva e emocional – como memórias, escolhas, sentimentos, percepções – que envolvem funções cerebrais; “muscular” significa o nível de ação motora no sistema muscular voluntário; o nível “vegetativo”, as funções vitais básicas, como os processos metabólico, digestivo, respiratório e a circulação de líquidos no corpo. Separamos esses três níveis (que se relacionam com as três camadas celulares do embrião), simplesmente como um modelo de trabalho; na realidade, eles se fundem entre si e na pessoa bem integrada, os acontecimentos nos diferentes níveis são congruentes entre si. (SOUTHWELL, 1986, p.8-9).

Boyesen no livro “Entre Psique e Soma”, mostra através de exemplos de suas vivências, a efetividade do tratamento das massagens, com as quais trabalhava, para a cura das neuroses, antes de consolidar a teoria que desenvolveu:
No Instituto Büllow-Hansen eu me dei conta de que era possível curar a neurose, intervindo simples e unicamente sobre o corpo. Inúmeros pacientes foram curados sem Psicoterapia. Estes pacientes sofriam todos de perturbações neurofisiológicas, de um desarranjo grave do sistema neurovegetativo. A maioria deles havia seguido psicoterapia ou até tratamento psicanalítico, sem resultado. […] elaborei a seguinte teoria: se é possível influenciar o sistema vegetativo, então é possível dissolver a neurose. Constatei que os pacientes que tinham reações vegetativas curavam-se muito depressa. […] o sistema vegetativo era influenciado, a descarga vegetativa (dores de estômago, náuseas, diarreias, etc.) ocorria e o equilíbrio era reencontrado. (BOYESEN, 1986, p.50).

Ainda sobre esta relação entre as emoções e o corpo, Boyesen complementa que:
Durante as massagens, constatei que se produziam dois fenômenos simultâneos: um estado emocional estava maduro (isto é, pronto a descarregar), e o fluído que aparecia em certa zona do corpo, em relação com o conteúdo da emoção. (BOYESEN, 1986, p.55).

Boyesen fala sobre os benefícios da massagem para auxiliar na cura da neurose e psicose em seus pacientes. Afirma que os grandes traumas vividos por uma pessoa são marcantes, mas que é a constância de ‘não-encontros’ com a personalidade primária que faz com que a neurose se desenvolva e dê lugar à personalidade secundária. Com a educação, a personalidade primária, vai se adequando ao que é socialmente aceito e também ao funcionamento das relações que estabelece nos ambientes em que transita. Muitas vezes os fluxos do que a sociedade considera ‘aceitável’ vão num sentido oposto do que pulsaria dentro do indivíduo ou até mesmo, vão o ‘enclausurando’ aos poucos dentro de si mesmo, a partir do que vai aprendendo a ser para sobreviver. Desenvolve-se assim, a personalidade secundária, com aspectos de caráter e fisiológicos encouraçados. Impedindo o fluxo vital daquela pessoa, que aconteça com fluidez.
A personalidade primária é curiosa; não tem medo do novo. É também flexível, e pode lidar com o inesperado; não fica na defensiva, é capaz de se proteger. Existe nela segurança básica, estabilidade e integridade. Esta pessoa pode dar e receber abertamente […] é uma pessoa cheia de admiração pela vida e íntima do seu lado infantil, apesar de não sentir nenhuma dificuldade em ser adulta. Há também uma integração entre as partes masculina e feminina da personalidade: animus e anima – em certo sentido, a inspiração e a ação. Não existe dificuldade em dizer “Sim” ou “Não”, “Eu quero” ou “Eu não quero”. Sem a rigidez do desejo, na busca de seu próprio caminho, ela pode ser forte e flexível, determinada e suave, energética e cooperativa. Todos temos esses atributos dentro de nós, mas algumas vezes estão distorcidos devido à nossa educação e obrigações. O que mais precisamos é a capacidade para atingir um equilíbrio, para a autorregulação (BOYESEN, 1983, p.9).

Já sobre o desenvolvimento das neuroses e consequente personalidade secundária, Boyesen afirma no trecho abaixo que:

Tenho certeza de que os traumatismos importantes têm efeitos consideráveis, mas estou sempre muito espantada pela influência, no desenvolvimento da neurose, das “pequenas coisas”. Estas engendram a resignação na personalidade e a retração da libido nas profundezas do corpo. […] A retração da libido tem consequências nefastas: a criança abandona a personalidade primária por uma secundária, e já dissemos anteriormente, que a criança que perdeu assim a circulação libidinal se torna dependente dos outros, de sua aprovação ou desaprovação.Surge então um sentimento de catástrofe na criança. Ela pensa que se fizer o que o pai ou a mãe a proibiu de fazer, isto será o fim de tudo. Este sentimento de “catástrofe” muitas vezes se torna tão importante, que acaba dirigindo completamente sua vida.” (BOYESEN, 1986, p.154).
A Personalidade Secundária equivale ao processo de encouraçamento descrito por Reich, como solução do conflito psicodinâmico do Complexo de Édipo. A importância do cotidiano da criança se deve ao movimento de “retração da libido” e ao abandono da personalidade primária, dando lugar ao processo de encouraçamento; quando “[…] a criança se resigna, encapsula sua energia e se instala em sua personalidade secundária.” (BOYESEN, 1986, p.155). Não se pode perder de vista no processo de educar uma criança, sua integridade e identidade. Se a criança é tolhida em sua essência e cede ao meio ambiente, infringindo assim sua natureza, institui-se uma personalidade secundária mais neurótica no caráter.
A personalidade secundária não está em contato com suas “correntes energéticas”. Apesar de a energia estar ali, não flui livremente pelos tecidos, pois tende a estar congestionada de matéria desgastada e aprisionada pelas tensões do corpo, que são as manifestações orgânicas da neurose.
De maneira resumida, “A neurose é a simples interrupção do fluxo da circulação de energia. A criança se resigna, encapsula sua energia e se instala em sua personalidade secundária.” (BOYESEN, 1986, p.155).

A fonte profunda da neurose reside na permanência do sentimento de culpabilidade, do sentimento de insegurança, do sentimento de não ser amado. Se a expressão emocional não é autorizada no meio familiar e a criança não tem nenhum momento para si, para circulação libidinal, ela se torna neurotizada. A criança se acostuma a recalcar seus traumatismos, seus conflitos, e todos os obstáculos que encontra. No inverso, se o ambiente da criança lhe traz amor e segurança, o psicoperistaltismo se abre e se instala. (BOYESEN, 1986, p.155).

Boyesen traz um trecho em que fala sobre a influência que o recalcamento das emoções e a incompletude do ciclo de descarga, têm sobre o corpo, gerando tensões e consequentemente ‘enrijecimento emocional’ e a forma como este recalcamento acontece:

O “recalcamento” quer dizer que a pessoa queria evitar o desprazer nascido do conflito. Então a pessoa pára o movimento vegetativo do qual tem medo, e o faz através da ativação das defesas psicológicas. […] O que compreendo pouco a pouco foi que a não-compleição do ciclo vegetativo, que é análogo ao ciclo desprazer-prazer freudiano era mantida por uma contração mínima dos músculos. No início da situação conflitual, a pessoa tem uma tensão muscular muito grande. Então, terminada a situação, tudo foi recalcado, não é mais possível ver-se a tensão. E a pessoa não sente mais a tensão. Contudo, uma contração mínima, invisível, persiste nos músculos, e bloqueia o processo de descarga vegetativa. O ciclo não se completa por causa desta função residual. O que mantém o recalcamento do excesso, o que bloqueia a descarga vegetativa, é esta contração residual mínima nos músculos. Estas tensões são invisíveis, só o toque do massagista pode detectá-las. […] É esta tensão residual que é fundamental para se compreender como o recalcamento consolida a energia emocional nos músculos. (BOYESEN, 1986, p.47-48).

Apesar de existir este mecanismo de recalcamento, Boyesen (1986, p.86) afirma ter descoberto que “o corpo tem seu próprio mecanismo natural de eliminação e de regulação. O psicoperistaltismo tem como função dissolver e eliminar a tensão nervosa”. Mais ideias sobre o psicoperistaltismo são trazidas nos trechos abaixo:

Não é necessário ao organismo passar pela diarréia para eliminar suas tensões nervosas, pois ele tem seu próprio mecanismo de regulação e eliminação da tensão nervosa: o psicoperistaltismo. O canal instintual, emocional, o canal do “isto” é também a via de dissolução, do “derretimento” da energia emocional. (BOYESEN, 1986, p.80).

Pareceu-me evidente que o psicoperistaltismo acompanhava o movimento interior de prazer, de contentamento consigo, de gratificação e de realização de si. Descobri que havia dois tipos de tensão que podiam impedir o bom funcionamento do psicoperistaltismo: o primeiro tipo era concernente aos múltiplos conflitos antigos recalcados, e o segundo, aos efeitos do stress cotidiano sobre o organismo. Na terapia, nós praticávamos principalmente a massagem e desencadeávamos o psicoperistaltismo de modo a eliminar os antigos conflitos. A auto-regulação consiste na prática diária da abertura do psicoperistaltismo que permite dissolver as tensões do dia. (BOYESEN, 1986, p.87).

Mona Lisa e Gerda Boyesen, complementam ainda que:
A hipótese formulada por Reich da existência de uma atividade celular pulsatória pode ser aplicada ao funcionamento da psicoperistalse, que é basicamente semelhante ao fenômeno orgonótico, subordinado à gratificação orgástica da carga plasmática. As ondas peristálticas lentas que ocorrem nos intestinos quando se está relaxado e à vontade, apresentam um ritmo pulsatório, uma interação harmoniosa de tensão e carga, com assimilação de água seguida de sua dispersão. Esta atividade é sinônima aos processos decorrentes da energia libidinal, que é um critério de circulação e metabolismo naturais desta energia no organismo. (BOYESEN e BOYESEN, s.d., p.2).

Na Biodinâmica, não se trabalha com o conceito de anéis musculares, fala-se do bloqueio destas energias se dá através da hipertonia ou hipotonia muscular e das couraças tissular e visceral. A ênfase terapêutica se dá em conseguir fazer fluir a energia ascendente e transformá-la em descendente harmonizante.
Sobre o desenvolvimento da hipertonia ou da hipotonia, no trecho abaixo se afirma que:
Em resposta a um stress emocional, físico ou psíquico, o corpo reage através do reflexo do sobressalto, depois deste, o corpo deve reencontrar o equilíbrio normal entre músculos e respiração, o que só ocorre se houver uma reação emocional, caso contrário, haverá interrupção no ritmo biológico. O organismo se manterá como se estivesse na situação de stress original. Como um reflexo de sobressalto prolongado não pode ser suportado, criar-se-á um estado de estabilidade pelo repouso progressivo. Mas a falta de jogo recíproco entre os músculos e o sistema respiratório causará um mínimo de perturbação do tônus. O conjunto destas perturbações constitui o “compromisso somático”, que em geral toma duas formas quando se torna crônico: os flexores podem perder a elasticidade e tornarem-se rígidos (tipo hipertônico) ou os extensores se tornam muito elásticos e moles (tipo hipotônico). Num organismo neurotizado, encontram-se com frequência na musculatura uma mistura destas duas reações. (BOYESEN, 1986, p. 49).

Já sobre o desenvolvimento das couraças tissular e visceral, fica claro que:

Na ausência dessa atividade de autorregulação espontânea de absorção e eliminação de água através dos intestinos, a retenção de líquidos provocaria algumas alterações no corpo: disfunções e congestão de órgãos; atrofia de tecidos, arteriosclerose, acúmulo de gorduras, infiltrações nos tecidos conjuntivos sob a forma de edemas e celulite, que são formas do encouraçamento visceral e tissular. A couraça tissular aparentemente invisível, fica evidenciada quando na intervenção corporal, seja através da massagem ou na vegetoterapia, o processo de desbloqueio se depara com uma barreira que impede a circulação energética e atrai fluidos. No lugar da expressão emocional, da livre circulação energética, quantidades de fluidos são acumuladas, denunciando a estase. (TEIXEIRA, 2017, cap.4).

Boyesen também introduz a ideia de ciclos emocionais, compostos por níveis do tipo carga, expressão, descarga e integração. Afirma que para cada ciclo incompleto e neurótico, existe a correspondente fisiológica resultante desta não complementação. Os resíduos vindos do produto destes ciclos inacabados ficam retidos nos tecidos, correndo pelo corpo de maneira desconexa:

Quando a energia está tão desbalanceada reina a confusão, tanto psicológica como corporal. Torna-se difícil concentrar a atenção, portanto o trabalho verbal pode girar em círculos. Trabalhar com a expressão emocional pode resultar no aparecimento de energia adicional e no aumento do desbalanceamento. […] existe muita energia “perdida” no sistema, ainda não integrada, e que não encontrou nem a expressão externa eficaz nem a circulação interna em direção à descarga vegetativa. É com essa energia perdida que temos que trabalhar, harmonizando e integrando, “abrindo” a psicoperistalse para permitir a descarga vegetativa da sobrecarga. A massagem biodinâmica é o meio mais rápido e direto para alcançar esse objetivo. Desde que nossa meta primeira é estimular a descarga vegetativa, nosso trabalho será guiado, durante toda a sessão, pela resposta intestinal que podemos ouvir no estetoscópio colocado no abdômen do cliente. (BOYESEN, 1983, p.54).

Boyesen descobriu que havia quatro vias diferentes que o corpo lançava mão para a descarga da energia emocional:

A energia emocional é a energia primitiva, ela é proveniente do endoderma. Compreendi que não há nada mais primitivo que o canal emocional. […] Há quatro vias de descarga no canal alimentar, que é também o canal primitivo de circulação da energia instintual. Duas vias ascendentes, que são a reação emocional pelo grito (via forte) e a palavra (via suave); e duas vias de descarga descendentes, uma sendo a diarréia (via forte) e a outra… (BOYESEN, 1986, p.78).

No trecho citado acima, Boyesen ainda não havia descoberto a via suave de descarga através do canal alimentar. Depois constatou que era a Psicoperistalse que representava esta via. Conforme vemos no trecho abaixo:

Não é necessário ao organismo passar pela diarreia para eliminar suas tensões nervosas, pois ele tem seu próprio mecanismo de regulação e eliminação da tensão nervosa: o psicoperistaltismo. O canal instintual, emocional, o canal do “isto” é também a via de dissolução, do “derretimento” da energia emocional. (BOYESEN, 1986, p.80).

Complementa ainda que:
O tratamento biodinâmico opera nos sonhos, mesmo muito depois da terapia. Graças ao princípio psicoperistáltico, que é o princípio de autocura natural do organismo, toda a terapia se faz de maneira suave e gradual; o corpo aprende a se tornar consciente de si mesmo e descobre sempre que o terapeuta o apoia e o encoraja a funcionar com sua própria auto-regulação. A terapia é só uma maneira de ajudar o organismo a se ajudar. (BOYESEN, 1986, p.170).

A autorregulação é a capacidade inerente e natural que o organismo tem para se manter e buscar a homeostase. A neurose constitui-se justamente num bloqueio em algum ponto deste ciclo, que através das tensões cotidianas, o percurso deste ciclo vai se tornando cada vez mais limitado.

Segundo Reich, a autorregulação é, na sua essência, a capacidade do ser humano de ouvir sua própria natureza, estar em contato com suas próprias necessidades, permitindo que o organismo cumpra seu fluxo de carga e descarga das emoções, tensões, traumas. Esta capacidade inata é comum aos animais. Mas, no caso do Homem que vive inserido em uma cultura, sofre a interferência dos centros cerebrais superiores responsáveis pela linguagem, pelo pensamento etc. (BUENO, 2015).

Há dois tipos de tensão que podem impedir o bom funcionamento do peristaltismo: o primeiro diz respeito aos múltiplos conflitos antigos recalcados, e o segundo, aos efeitos do estresse cotidiano sobre o organismo. A autorregulação consiste na prática diária da abertura do peristaltismo que permite dissolver as tensões do dia-a-dia, possibilitando assim a homeostase e melhor funcionamento do organismo e um fluxo energético e evitando a formação de novas neuroses. A meta terapêutica da Biodinâmica é resgatar a autorregulação no paciente. O processo deve acontecer aos poucos, como se fosse lentamente ‘derretendo’ as couraças, para que a energia possa voltar a reestabelecer seu fluxo natural. Limpando o organismo de resíduos, energia e fluídos estagnados, que consequentemente produzem de alguma forma um ‘mau funcionamento’, de maneira geral o adoecimento daquela parte, órgão em específico.
Boyesen conforme vai estudando e desenvolvendo a teoria reconhece que o tratamento se mostrava eficaz quando era acompanhado pelos ruídos abdominais. Tem a ideia então de usar um estetoscópio colocado sobre o ventre para que usar como um guia na intervenção terapêutica e os resultados deste recurso se mostraram fundamentais. Todos os conceitos desenvolvidos na teoria foram vivenciados por ela. Por se tratar de uma abordagem corporal, que trabalha muito com elementos no nível do sentir, simbólicos, ter a possibilidade de vivenciar as experiências faz toda a diferença para se poder ter uma compreensão e empatia maior em relação às sensações e emoções que estão sendo trabalhadas com o paciente, reações emocionais e potência com que possam emergir e manejo terapêutico. “Eu me tornara livre em minhas relações estando livre em meu corpo. A massagem tinha efeitos psicológicos fantásticos. Foi necessário ter passado por ela, pois assim eu podia compreender melhor meu pacientes.” (BOYESEN, 1986, p.38).
Boyesen percebeu que quanto mais o paciente estivesse relaxado, entregue e confiando no ambiente, mais as tensões cediam, o que possibilitava que os conteúdos emocionais emergissem para a consciência. Os materiais inconscientes estão em camadas, como em uma cebola, o que está mais próximo da casca, maduro, tem possibilidade de vir à tona para a expressão, trazendo assim, ‘material’ para a terapia. Dependendo, é claro de um complexo de questões como: vínculo com terapeuta, confiança, estrutura egóica e momento de vida do paciente.
Boyesen pedia para que a pessoa deitasse e deixasse o corpo e a mente falar por si, deixar vir os conteúdos que estivessem maduros para vir, como uma fonte que brota. Autênticos e espontâneos. Sem pensar, racionalizar, ‘apenas’ sendo, existindo. Boyesen traz uma explicação sobre esta forma de trabalhar, no trecho abaixo:

Eu utilizava também um método que havia chamado […] de relaxamento biodinâmico. O que acontece quando relaxamos? Em primeiro lugar, um bem-estar: as tensões são menos sentidas e afrouxam um pouco. Mas, quando se vai um pouco mais longe no relaxamento profundo, as contrações musculares começam a se dissolver e o processo dinâmico supera as resistências. Aí está realmente o segredo da terapia biodinâmica: deixar o processo biodinâmico emergir das profundezas do corpo; as emoções surgem por si e se descarregam, com as ab-reações vegetativas apropriadas. A transformação então é autêntica. O relaxamento dinâmico pode ser induzido pelas massagens, pela psicoterapia, ou simplesmente pelo permanecer estendido. O princípio do relaxamento biodinâmico é este: o paciente se sente em tal segurança que ele não tem mais necessidade de suas defesas. Estas se dissolvem então e as emoções recalcadas retornam à consciência e podem ser ab-reagidas. (BOYESEN, 1986, p.105).

Alguns métodos são necessários para influenciar num estado de relaxamento e ‘abrir’ a peristalse. Com este objetivo, podemos usar exercícios de respiração, o toque básico, massagem nas extremidades ou ainda se muita energia estiver centralizada na garganta, o assunto deverá ser resolvido verbalmente.
Com ou sem o uso dos recursos corporal, inclusive o da massagem, o processo psicoterapêutico propicia e permite que o paciente ‘se encontre’, compreenda seus limites, potencialidades, ações e atitudes. Além de oferecer uma oportunidade de modificar crenças e padrões de comportamento inapropriados que dificultam o processo de desenvolvimento e amadurecimento. O benefício do olhar que a Psicologia Biodinâmica traz é o de ver o ser humano de maneira integral, como um grande sistema em funcionamento, integrando corpo e mente.

1.2. Massagem Terapêutica
O site Terapias Alternativas traz que a massagem terapêutica é uma massagem oferecida com o objetivo de obter um benefício terapêutico, de realizar algum tipo de tratamento. Apesar de a massagem terapêutica servir muitas vezes para relaxar, o objetivo final da sessão ou série de sessões não é somente este, e sim de colaborar com o processo de cura. Os objetivos terapêuticos podem variar consideravelmente entre massoterapeutas e clientes. Em alguns casos, a massagem é recomendada por um profissional de saúde e pode ser realizado como parte de um plano de tratamento maior. Por exemplo, alguém em fisioterapia para uma lesão pode ter uma massagem terapêutica normal para soltar os músculos, melhorar o tônus muscular e aumentar a flexibilidade. Neste trabalho, trago a visão da massagem atuando no sentido de uma terapêutica psíquica, emocional. Se valendo da Massagem Biodinâmica como instrumento para tal.

1.3. Massagem Biodinâmica

Boyesen traz a Massagem Biodinâmica como uma forma de viabilizar o tratamento das neuroses e psicoses, em especial lidando com mais cuidado e atenção com este último. Descobriu em meio às suas vivências e observações, que muitas emoções e conflitos ficavam recalcados no corpo, gerando tensões e desequilíbrios, e que atuar neste corpo através do toque para ajudar a liberar a carga aprisionada poderia ser de muita serventia. Sintetiza que “As tensões musculares “acumulam” energia. A energia deixa de ser dinâmica e se torna estática.” (BOYESEN, 1986, p.57). Funciona como uma ‘Psicanálise do corpo’, em que aspectos emocionais inconscientes entalhados no corpo, encontram possibilidade de expressão, fluxo e integração. Abaixo, alguns trechos trazidos por Boyesen em seu livro “Entre Psique e Soma”, que exemplificam melhor estes processos:
Compreendi que a neurose está associada a um grande número de tensões enquanto que, na psicose, a maior parte das tensões musculares crônicas desapareceu. Fiz a ligação com as teorias de Freud. Este fazia remontar a origem das manifestações neuróticas ou psicológicas ao momento em que desmoronam as defesas psicológicas: Freud falava, é claro, das defesas psicológicas. Aqui, encontrei as defesas corporais, fisiológicas. (BOYESEN, 1986, p.52).
Que seja possível influenciar pela massagem o inconsciente e as emoções recalcadas me foi uma grande revelação. Que o organismo seja capaz de recalcar as emoções e conflitos por tensões musculares e por uma contração crônica do diafragma foi uma outra revelação, essencial. Compreendi também que o corpo operava seu processo de repressão de cima para baixo, da superfície para a profundidade do corpo, para a pélvis e para as pernas. Assim, quando eu massageava as pernas, muitas vezes desencadeava reações no rosto do paciente, e as emoções reapareciam na garganta. O corpo encapsula as emoções, deixando o corpo tão rígido que a contração subsiste de maneira crônica. A energia se torna estática, encapsulada pelos músculos que chamamos de “repressores” […] A energia emocional é escondida nas profundezas. […] a capsulação de conflitos e emoções pode cessar e as lembranças, os afetos e os movimentos reprimidos podem emergir das profundezas do corpo. No processo de capsulação e da rigidificação, os músculos mudam de consistência: eles perdem sua elasticidade e tornam-se análogos ao cimento. Assim que a contração muscular relaxa e que cessa a capsulação da energia emocional, então o processo é análogo ao descrito por Freud: assim que diminui o recalque e que tombam as defesas, a neurose ou a psicose aparecem. (BOYESEN, 1986, p.35).
Observei que o indivíduo capsulava suas emoções por mudanças de postura. […] A massagem operava ao mesmo tempo sobre a postura e sobre a personalidade. […] O stress e a impossibilidade de reagir e de ab-reagir ocasionam contrações musculares para deter os movimentos da energia emocional, e depois os músculos tornados mais curtos ocasionam a deformação da postura. […] Isto não era uma simples mudança de postura mecânica: o reflexo neurótico de contração estava dissolvido e era substituído pela capacidade de extensão completa. Por esta transformação, a tendência neurótica de tudo reter, a nível psicológico, se metamorfoseava com espontaneidade. (BOYESEN, 1986, p.36-37).

Na massagem há alguns elementos que são fundamentais para nortear o trabalho a ser desenvolvido de acordo com a demanda e que influenciam diretamente no resultado: a presença terapêutica, a intenção, o tipo e ritmo do toque, a camada que está sendo tocada, a intenção que se coloca no toque e o local que será tocado (alguns locais são menos ou mais ameaçadores e invasivos do que outros), o momento de vida do paciente e do processo psicoterapêutico, o ser humano é diverso e único, portanto as mesmas técnicas podem suscitar efeitos diferentes dependendo do caso. Rego et al. (2014, p.31), complementa que “um tratamento biodinâmico sempre é mais parecido com a roupa feita sob medida pelo alfaiate”.
Sobre a presença terapêutica, aplicar a Massagem Biodinâmica é vivenciar um momento de encontros e transformações, é mais que aplicar uma técnica. Boyesen acrescenta que:
A massagem permite restabelecer o contato, este contato que a criança está sempre procurando. A maioria dos pais dá sua apreciação verbal, mas não é disto que a criança precisa. Ela tem, acima de tudo, necessidade do contato corporal. Este contato corporal deve ser realizado de maneira muito sensível e a massagem pode ser o mediador. É impossível fazer uma massagem sem haver uma aproximação muito grande com uma pessoa e é esta proximidade que permite a eclosão do amor. Por outro lado, […] a melhor terapia é a massagem, tanto para a pessoa que é massageada quanto para a que massageia. A massagem permite aos pais e às crianças se “encontraram” especialmente quando eles não o conseguem de outra maneira. (BOYESEN, 1986, p.157).

A intenção é um dos aspectos do trabalho da Biodinâmica, fundamentais e que a diferencia das outras massagens. Observa-se que o resultado do tratamento sofre bastante influência da intenção que o massagista mentaliza no momento da massagem. São infinitas as possibilidades com que se pode trabalhar com a intenção. Rego pontua que:
O paciente percebe e reage consciente ou inconscientemente e isso pode determinar o rumo que o caso vai tomar. É muito diferente uma intenção de cuidado materno, ou de tentativa de acordar alguém que “dorme” ao longo da vida, ou de encorajar a expressão de algo guardado…. (REGO et al, 2014, p.135).
O toque pode ser feitos em diferentes ritmos, tanto em uma velocidade mais acelerada, quando se quer trazer vitalidade, ativação, alerta, bem-estar, e que atua mais no campo das sensações. Quanto em uma velocidade mais lenta, chamado de toque dinâmico ou oceânico, tendo como resultado o relaxamento e proporcionando com que o paciente entre em um estado mais profundo. Atua no campo das emoções e conteúdos inconscientes, pode evocar lembranças e/ou imagens ou evocar sentimentos recalcados.
Já sobre os tipos de toques, temos manobras como: o deslizamento, para fazer a energia fluir, desbloquear; a amassadura; a fricção, utilizando a ponta dos dedos; a movimentação passiva, em que o terapeuta movimenta um membro do paciente (braços, pernas, pulsos, dedos, etc.) com a intenção de dar fluxo à energia das articulações; vibração; polarização, mãos posicionadas em pontos opostos (ex: nuca e sacro); alongamento; balanço, que deve ser feito devagar e com cuidado; tapotagem, mãos em concha e vai dando ‘tapinhas’, usa-se quando se quer trazer um efeito vitalizante para a pessoa.
Também é importante saber com qual camada se vai trabalhar e aquela que deve ser evitada naquele momento.
As camadas básicas do corpo, do mais profundo para a superfície, são: osso, periósteo (bainha conjuntiva que envolve os ossos), musculatura, fáscia muscular (bainha conjuntiva que envolve os músculos), tecido subcutâneo, pele e aura (campo energético). (REGO, [20–], p.2).

A atuação em diferentes camadas traz diferentes efeitos e implicações. Por exemplo: se forem trabalhadas questões muito primitivas, profundas, relacionadas à primeira infância, será trabalhado o osso, envolvendo questões mais relacionadas à depressão, vitalidade. Se o intuito for trabalhar o bem-estar do paciente, confiança em relação à vida, conexão com o cosmos, a atuação poderá ser na aura do paciente. Se a finalidade for trabalhar a dificuldade relacional do paciente, de contato, de demonstrar afeto ou questões relacionadas à propriocepção, será trabalhada a camada da pele.
A abordagem terapêutica da Massagem Biodinâmica é a de dissolver essas camadas vegetativamente, uma por uma, começando com a mais superficial e trabalhando gradativamente cada vez mais fundo, conforme a neurose vai sendo progressivamente dissolvida. O trabalho pode envolver o redespertar de emoções, memórias, o re-experenciar de vivências do passado e muitos insights psicológicos.
Como já visto, as couraças podem se manifestar de várias formas: couraça muscular hipertônica, couraça visceral e couraça tissular. Abaixo será explicado:
Couraça Muscular – No reflexo de sobressalto, o corpo se enrijesse com contrações, os músculos flexores ficam mais ativos e a respiração trava na inspiração. Essa reação acontece tanto em situações como as de pressão do dia-a-dia, quanto às experiências mais traumáticas da infância, acidentes, etc. Quando não há a descarga devida da carga de emoção ou o não esgotamento desta, os flexores ficam ativos como se reagissem ao fenômeno original que gerou a tensão. No momento em que este fato se torna um padrão, podemos chamá-lo de couraça muscular. É um mecanismo de defesa em que o corpo vai formando como se fosse uma ‘armadura’, assim ele está protegido, não entra em contato com suas emoções e sensações. Atua como uma forma de defesa para não sentir, congela, encapsula as emoções que vão se alojando no corpo.
Em psicoterapia pode-se trabalhar através da massagem hipertônica. Reich descobriu que o ato de dissolver os espasmos musculares, liberava a energia vegetativa e reproduzia a lembrança da situação da infância onde ocorreu a inibição do impulso, ou seja, havia uma liberação da emoção reprimida buscando resgatar os movimentos expressivos.
Couraça Visceral – Se refere à pressão dos fluidos no interior do tubo gastrointestinal, em que são digeridas as emoções e suas respectivas substâncias residuais. Em situações de stress ou em outros estados emocionais, de hiperatividade, nossos intestinos se comprimem, bloqueando o fluxo da energia vital. Apesar disto, certa contenção é válida, pois o controle emocional é necessário ao ser humano.
Em psicoterapia, métodos terapêuticos são necessários, é importante realizar manobras que busquem um estado calmo e relaxado, técnicas que estimulem à psicoperistalse como a massagem peristáltica, colônica ou de extremidades. Caso a energia esteja concentrada na garganta, o assunto precisará ser resolvido através da fala. Para atingir e curar a neurose devemos mobilizar o nível vegetativo e nem sempre precisa ser um processo consciente.
Couraça Tissular – Assim como a musculatura e as vísceras, os tecidos também atuam como barreiras, quando encouraçados, evitando a espontaneidade, desajustando a circulação natural e o equilíbrio físico, mental e espiritual. A couraça tissular é produto de fluídos hormonais não descarregados. Boyesen começou a ver a neurose, mais como uma impureza nos tecidos, resíduos tóxicos que impediam a circulação natural e o metabolismo.
A dedução de que o “mais próximo do Eu” estaria relacionado com a circulação emocional ao nível do sangue […] e movimento de retorno pelas veias, é fruto de um longo percurso que culminou com o conceito de couraça tissular. (IACONELLI, 1997, p. 31).
Destampando a couraça nos tecidos, o tecido recupera sua elasticidade natural e originária, possibilitando a auto-realização e expansão, entrando em contato com sua sensibilidade autêntica. A energia vital (bioenergia) existe em todos os organismos vivos dando a eles vida e vitalidade. Quando em boa circulação, esta energia gera um sentimento interno de confiança e otimismo.
Neste tipo de couraça, se trabalha com os toques no nível do tecido subcutâneo, pele e campo energético. Com a intenção de trazer contorno, contato consigo mesmo, propriocepção, trazer para o ‘aqui e agora’, harmonização. Em psicoterapia pode-se trabalhar através da massagem de contorno e limite, massagem de distribuição e/ou do biocampo sutil.
O campo energético, o biocampo sutil, ou aura, é uma camada de energia existente no nível extracorpóreo. A massagem no campo energético ajuda o organismo harmonizar, a se autorregular, auxilia na limpeza da parte energética dos traumas que a pessoa tenha. Muitas vezes deve ser usado depois de outra massagem, como por exemplo, a de toque básico, ajuda a trazer o “happy ending” para o encerramento daquele processo. Boyesen afirma que a partir das fotografias de Kirlian, é possível falar sobre a energia que circunda todo o corpo, denominado de “aura”.
Nossa massagem é efetuada ao nível do campo bioelétrico e reestabelecemos sua corrente harmoniosa. Segundo a teoria biodinâmica, se a energia na aura está bloqueada, esta densidade energética em redor do organismo impede a circulação libidinal. (BOYESEN, 1986, p. 159).

Sobre o local em que se toca, todo cuidado é pouco, alguns podem ser mais invasivos que outros e cada parte do corpo têm um significado simbólico diferente, que também influencia. Por exemplo, normalmente é menos ameaçador e invasivo começar-se pelas extremidades, também é menos ameaçador deitar na maca na posição de decúbito ventral. Sobre o significado simbólico, o coração, por exemplo, pode estar relacionado a questões amorosas e relacionais, perdão, angústia, aceitação, enquanto que os joelhos podem estar relacionados à questões como medo e humildade e os braços podem estar relacionados à expressão, colocar limites, ‘agarrar o que é seu’, entre outros.
Sobre questões que atrapalham o desenvolvimento do processo, Boyesen desenvolveu e traz o conceito de ‘Couraça Secundária’ como forma de tentar explicar os efeitos colaterais advindos de trabalhos psicoterapêuticos aplicados de maneira invasiva. Ela se aproxima de Freud ao dizer que o trabalho corporal que mobiliza conteúdos inconscientes deve ser feito próximo ao ego, num caráter de “amizade” com a resistência. Afirma também, que só um ego maduro pode tornar desnecessária a defesa do material defendido. O contato com o material inconsciente gera uma ansiedade onde o ego irá procurar sustentação no sistema de defesa para se proteger. Quando é retirado este sistema de defesa e o conteúdo inconsciente tem intensidade maior do que a suportada pelo ego, na maioria dos casos, haverá a formação da chamada couraça secundária, que vem como pra proteger contra a terapia, que se torna a mais recente ameaça à estabilidade do ego. Caso o paciente não tenha estrutura suficiente para a formação desta defesa secundária, corre o risco de um surto psicótico.
Faz-se necessário então:
A necessidade de uma postura mais prudente por parte do analista, em que tanto a ativação da pulsão quanto a eliminação das resistências deveriam ser feitas gradualmente, sem afobações, dentro do que é assimilável pelo paciente. Nesses casos, como diz Gerda Boyesen, o pouco é muito. (ALBERTINI et al., 2006, p.69).

“O pouco é muito”. Este é um dos princípios básicos e de maior importância na teoria de Boyesen. É uma maneira de não buscar as expectativas do terapeuta. As pessoas têm percepções e vivências diferentes em relação ao toque, todo o afeto que este representa, em relação à massagem de maneira geral. O que um pode considerar como sendo pouco, muitas vezes até banalizando, para outro pode ser visto como muito, sufocante ou invasivo. Se alguns conteúdos já estão amadurecidos, tocar uma parte e ficar por lá na intenção, muitas vezes é suficiente para que este conteúdo venha à tona naturalmente, sem forçar nada.
O manejo com as resistências que surgem ao longo do processo terapêutico deve ser desenvolvido ao estilo ‘método da parteira’. É natural que as resistências apareçam e devem ser vistas como fatores a serem compreendidos e maleabilizados, e não de algo a ser combatido. A resistência é como uma barreira parte de um sistema de defesas construído pelo ego para protegê-lo de entrar em contato com a dor de conteúdos inconscientes reprimidos. Fazer amizade com a resistência é ajudar o paciente na travessia do descobrimento dos conteúdos inconscientes, mas agindo apenas como facilitador daquilo que já está maduro para surgir e respeitando sempre a escolha do paciente de entrar em contato com o conteúdo ou não. Levando em consideração um complexo de fenômenos como: considerar a força do ego, a situação presente e a capacidade de assimilação intelectual.
Finalizo com uma definição que Boyesen traz, resumindo o método terapêutico da Massagem Biodinâmica:
Chamo este método terapêutico de método da parteira. O terapeuta deve estar separado de sua própria necessidade de estar ativo, de falar, etc., a fim de que possa estar passivo, paciente e que possa deixar desenvolver o processo dinâmico curativo. O terapeuta deve simplesmente oferecer uma aceitação e um amor total para que o “estímulo interior” possa se desenvolver completamente e transformar o ser do paciente. (BOYESEN, 1986, p.102).

1.4. Benefícios, usos e Contraindicações da massagem na Análise Biodinâmica.
A Massagem Biodinâmica pode ser usada como agente anti-stress, relaxante e harmonizante, como aliviadora da ansiedade, angústia, depressão, TOC’s e transtorno do pânico e para combater sintomas psicossomáticos. Complementam os benefícios, aspectos como: o aumento da autoestima e da autoconfiança, sensação de bem estar, desenvolvimento do autoconhecimento, segurança nas decisões, autonomia, motivação, reequilíbrio energético, estimula a propriocepção, tolerância à frustração, superação de conflitos internos e superação de traumas e abusos. De maneira geral, suscita no amadurecimento a possibilidade de mobilização, reparação e integração de conteúdos emocionais, por meio da remoção gradual de defesas psicológicas.
Ainda falando sobre os benefícios que a massagem pode trazer, Rego pontua que:
Uma pessoa que está muito tensa e ansiosa, por exemplo, pode em se beneficiar bastante da massagem biodinâmica. Ela pode proporcionar relaxamento, harmonização e tranquilidade. Essas pessoas em geral estão excessivamente aceleradas e podem ter como resultado do tratamento passar a funcionar de modo menos agitado e mais orgânico. No mesmo sentido, pode ajudar a aliviar sintomas psicossomáticos ligados a este tipo de problema, como taquicardia, sudorese excessiva, nervosismo, dor de cabeça, insônia e outros. A massagem biodinâmica é também útil para tratar estados de irritabilidade e insatisfação crônica. Também pessoas deprimidas, desvitalizadas e sem ânimo podem se beneficiar dela. Quadros de fadiga crônica e fibromialgia também têm mostrado melhora com este tipo de tratamento. […] Pode ser direcionada para que o paciente perceba seu próprio corpo e com isso aumente a consciência de suas necessidades, desejos, sentimentos e emoções. Neste sentido, pessoas que estão “fora do eixo”, ou “fora do prumo”, podem recuperar um contato saudável consigo mesmas que as ajudará a se posicionar de maneira mais efetiva e satisfatória frente aos conflitos que as afligem. Existem casos em que os sentimentos e a livre expressão de si mesmo estão bloqueados, havendo como que uma barreira que faz com que as pessoas se sintam presas, entaladas ou mesmo encarceradas. Para isto a massagem biodinâmica pode ser muito útil, ao contribuir para dissolver essas barreiras e permitir que tudo flua e o organismo recupere seu movimento e sua circulação energética. (REGO, 2013).
Pode agregar também no manejo de situações em que o paciente encontra-se em estados regredidos, pois se estima que colabore na reparação de desordens causadas por falhas ambientais, advindas de um cuidado insuficiente nas fases iniciais de vida do bebê. Propicia a elaboração e integração dos conteúdos.
Após uma vivência desse tipo, não é raro que os pacientes agradeçam por ter sido retirado de dentro de si um caminhão de entulho, uma carga pesada que carregavam sem nem mesmo ter consciência disso. Muitas vezes relatam que, como consequência, o mundo parece ter se tornado mais luminoso, mais leve, mais fácil, mais acolhedor. (REGO, 2014, p.321).
De maneira geral é muito efetiva e indicada, em vários momentos no setting psicoterápico, mas há alguns casos em que ela é contraindicada, como por exemplo, em casos de transferência erótica ou negativa, ou quando é solicitada pelo paciente, mas no fundo o que existe é a defesa para mascarar os conflitos.
Rego et al. (2014, p.292), afirma que poucas são as contraindicações para a Massagem Biodinâmica. Contudo, é preciso estar atento para perceber estes casos, pois exigem atenção e cuidados redobrados para que a percepção da situação e o manejo sejam o mais assertivo possível, caso contrário pode-se prejudicar o tratamento e dificultar uma evolução no caso. Em casos em que o paciente sente e significa o toque como uma forma de invasão; nas situações em que o paciente está na transferência erótica ou na negativa; quando o paciente está em um momento de crescimento: desmamar, sair da passividade, rumar para a independência; como forma de mascarar os conflitos, por exemplo, que em alguns casos quando o paciente chega pedindo massagem; não funciona como um artigo de realização de desejos e sim de conscientização dos mesmos; quando pode prejudicar o trabalho sobre a capacidade de tolerar frustrações.
Pode ser utilizada de diversas formas e em diversos momentos no setting terapêutico: no início da sessão, nos casos em que o paciente traz pouco conteúdo, está distante dos conflitos; no meio da sessão; no fim da sessão, nos casos em que o paciente está descompensado, com a energia desorganizada; toque ou massagem ao mesmo tempo em que conversa ou para facilitar um trabalho expressivo ou como centro do trabalho em certas fases do processo; sessão inteira de massagem.
Um ponto essencial é nunca fazer a massagem só por fazer. […] Quando não há resistência, as intervenções do analista são desnecessárias; ele deve apenas dar espaço para que o inconsciente do paciente se manifeste através da associação livre de ideias e movimentos – o bom analista é aquele que consegue não atrapalhar as manifestações do paciente, e o uso do toque físico em casos como esse pode contaminar o setting e prejudicar o resultado. (REGO et al, 2014, p.292).

Rego, no texto ‘As diversas Massagens Biodinâmicas’, publicado em 2012, no site Massagem Biodinâmica, afirma que são diversos os tipos e aplicações possíveis dos toques e das massagens. Podemos citar:
 Toque Básico – Funciona como a técnica ‘coringa’ das massagens, tendo
diversos usos e indicações
 Massagem Colônica – Nesta massagem se trabalham os músculos do
diafragma e os músculos abdominais. Liberando as tensões (Exit massage)
 Massagem no Campo Energético – Light Biofield
 Espirais
 Massagem de Contorno
 Massagem no Periósteo
 Massagem respeitando as resistências
 Calatonia
 Massagem de extremidades – Efetuada na cabeça, mãos e pés. Se prioriza o trabalho nos ossos e nas articulações. É um tipo de massagem peristáltica. Pode ser utilizada em qualquer momento do tratamento e permite ser feita com o paciente vestido.
Dentro da Massagem Biodinâmica, ressalto as massagens integrativas, como as técnicas: Shantala, O Toque da Borboleta e Massagem Suave de Contornos e Limites.
Estas são massagens que de maneira geral, possibilitam um maior relaxamento, contato mais aprofundado do paciente com seus conteúdos e massagens que proporcionam o fortalecimento do vínculo terapeuta-paciente e pode ressignificar vivências muito prematuras e profundas. Conforme podemos conferir nos trechos:
Quando o paciente sente a confiança de que não precisa se preocupar com os perigos e vicissitudes do mundo externo, de que aquele que o toca saberá cuidar de seu conforto e de sua integridade física e psíquica, ele se desliga do exterior, passa o comando e pode se voltar quase totalmente para o contato com seu mundo interior. (REGO et al, 2014, p.321).

[…] muitos problemas emocionais se originam na época em que ainda somos bebês. O papel da mãe (ou, mais genericamente, do ambiente) seria crucial nesse período, e muitas de suas propostas clínicas decorrem da ideia de prover ao paciente aquilo que lhe faltou, ou que o ambiente falhou em proporcionar adequadamente no primeiro ano de vida. (REGO et al, 2014, p.306).

Conforme o enfoque winnicottiano, algumas massagens específicas são especialmente indicadas para lidar com a temática das vicissitudes do amadurecimento. Dentre elas, recomendo a massagem de contorno, a Shantala para adultos, as polarizações em geral. (REGO et al, 2014, p.322).

Para Abram, O toque é parte do holding proposto por Winnicott — a forma com que a mãe toca seu bebê nos cuidados maternos do dia a dia (…). O toque que é suficientemente bom inaugura uma ‘psique que habita o soma’; Winnicott refere-se a isto como ‘personalização’, o que significa que o bebê passa a sentir, como uma consequência do toque amoroso, que seu corpo constitui-se nele mesmo (o bebê) e/ ou que seu sentimento de self centra-se no interior de seu próprio corpo. (ABRAM, 2000, p.138 apud REGO et al, 2014, p.314).

Sobre a massagem de Contorno suave e Limites, é trazido o trecho abaixo:

Não se usa óleo real, ele é imaginário, para dar a ideia de algo morno deslizando pelo corpo lentamente, com muito contato e aconchego. O movimento é suave e uniforme com bastante aderência de suas mãos ao corpo do paciente. Muitos pacientes, ao receber este tipo de massagem relatam as sensações de tranquilidade, harmonia e vitalidade. (CINTRA, 2014).

A massagem do Toque da Borboleta foi desenvolvida por Eva Reich, baseando-se na Shantala, mas esta foi desenvolvida para poder ser utilizadas em recém-nascidos principalmente, por ter um toque bem leve e sutil como se fossem asas de uma borboleta. Sobre a massagem do Toque da Borboleta é trazido o trecho: “A importância de realizar a massagem O Toque da Borboleta em adultos auxilia na cura de traumas emocionais, restabelecendo o fluxo de energia vital para o corpo”. (AZEVEDO, 2016).
2 – DISCUSSÃO
Baseado nos levantamentos bibliográficos feitos para o desenvolvimento do trabalho e através de minhas vivências, podemos validar a utilização da Análise Biodinâmica e principalmente o fato de agregar a Massagem Biodinâmica como recurso auxiliar para a psicoterapia. Percebo em meu consultório, pacientes que chegam ansiosos ou desintegrados, saírem das sessões mais organizados internamente, seja pelo ‘simples’ fato de falar, e poder circular aquela energia, ou mais visível ainda quando é possível utilizar a massagem ou alguma técnica corporal como via de expressão das emoções, conscientização de sensações e autoconhecimento. Em vivências e trocas que tive em meu grupo do Curso de Formação em Análise Biodinâmica, percebi também a efetividade e atuação da Massagem como um recurso mobilizador, que estimula a autorregulação do corpo e de integração emocional. Além da trocas com outras profissionais e terapeutas, que utilizavam o recurso da massagem e percebiam o efeito dela tanto em suas clínicas, quanto também em vivências pessoais.
Embora saibamos que há momentos e casos em que não é indicado utilizar a massagem, apenas o fato de poder se embasar na Psicologia Biodinâmica para a atuação e ter o olhar integrativo do ser humano, da relação psique/corpo, traz possibilidades diferenciadas de atuação e percepções que permitem um olhar mais completo dos pacientes e dos casos.
3 – CONCLUSÕES

Existem diversos recursos existentes para se trabalhar os conteúdos emocionais a nível simbólico, desenhos, a caixa de areia ou sandplay, a argila, a imaginação ativa, a associação livre de movimentos ou de palavras, músicas, a Massagem Biodinâmica, entre outras.
A Massagem Biodinâmica é um tipo de trabalho que traz um olhar global para a forma de cuidado e atuação clínica. Surge como uma possibilidade de trabalhar aspectos emocionais, psicológicos e corporais, a um nível diferente do verbal, racional. Atua na via da comunicação não-verbal, da intuição, na massagem são “as mãos que falam”, conseguem assim, atingir níveis mais profundos dos conteúdos inconscientes. Pode ser aplicada como um tipo de tratamento terapêutico ou como um processo aliado a psicoterapia, tanto como sendo uma das possibilidades de trabalho dentro do processo psicoterapêutico da análise biodinâmica. A massagem biodinâmica traz a possibilidade de atender pacientes de outras abordagens, trabalhando em parceria com o analista e complementando o tratamento do paciente.
Pode-se dizer que é uma massagem que procura alcançar a alma, e que vai buscar este contato no corpo onde ela está encarnada. A massagem costumeiramente é vista como uma técnica, mas vai, além disto, traz a relação entre dois seres humanos, a possibilidade do encontro, uma forma de conversar por meio de mãos, peles e músculos, muitas vezes a única forma de se comunicar aquilo que é indizível pela troca de palavras.
A Massagem Biodinâmica se mostra como um recurso polivalente e muito eficaz para o bem-estar e equilíbrio geral do paciente, para o progresso psicoterapêutico e para o amadurecimento emocional, podendo refletir em todas as áreas da vida do paciente. Propicia um tipo de trabalho profundo e transformador, de alojamento da psique no corpo, que se reflete em sua postura corporal, modo de estar no mundo, atitudes, localização tempo-espaço, organização de maneira geral, percepções e sensações e possibilita o reencontro consigo mesmo.
Assim através desse trabalho procurei levantar o máximo de conhecimento para demonstrar a eficácia da massagem como recurso auxiliar de integração emocional à psicoterapia, facilitando o encontro do paciente com sua personalidade primária, sua própria essência a florescer.
REFERÊNCiAS BIBLIOGRÁFICAS

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BOYESEN, G. Entre Psiqué e Soma. Introdução à Psicologia Biodinâmica. São Paulo: Summus, 1986.

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