Integração corpo e Psíque a Psicoterapia de abordagem corporal em casos de somatização

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MONOGRAFIA APRESENTADA PARA CONCLUSÃO DO CURSO DE PSICOSSOMÁTICA DO INSTITUTO SEDES SAPIENTIAE

ALUNA: MARIANA MACHADO CAMAROTE
PROFESSORA: ORIENTADORA: ANA MARIA SOARES

INSTITUTO SEDES SAPIENTIAE 2011

INTEGRAÇÃO CORPO E PSÍQUE
A PSICOTERAPIA DE ABORDAGEM CORPORAL EM CASOS DE SOMATIZAÇÃO

“A estrutura anatômica é o arquétipo básico do pensamento e da experiência. Anatomia é relacionamento interno. Órgãos, relacionam-se com outros órgãos, camadas de tecido especializado estão em relação com outras camadas, superfícies estão em contato com outras superfícies. Relações anatômicas são também relações emocionais.Órgãos pulsantes geram sentimentos bons, sensação de bem estar, prazer. Tecidos contraídos, espásticos, entumescidos ou frágeis causam dor, desconforto, sentimentos desagradáveis em relação ao próprio Self ou parte dele. Anatomia e sentimentos são também relações comportamentais.Qualquer ruptura na organização anatômica, ou emocional resulta num colapso equivalente do comportamento.
A anatomia é o alicerce das relações humanas. O que acontece dentro de nós, aquelas conexões que mantêm a estrutura da pessoa, eventualmente também acontece fora. A pulsação, sua conformação, é a pedra angular do processo orgânico e das formas intrapessoal e interpessoal. Os relacionamentos humanos são interações somáticas de pulsão emocional e forma comportamental – dentro e fora de nós.”
Stanley Keleman.
Anatomia Emocional, 1992.

Introdução

O presente trabalho aborda a questão do corpo na psicoterapia com pacientes que apresentam problemas orgânicos, discutindo a importância de se utilizar técnicas corporais nesses casos. A partir do exemplo clínico de uma paciente que está em processo de psicoterapia de abordagem corporal, apresento uma atuação terapêutica que pretende ir de encontro aos sofrimentos da alma e do corpo.
A opção por esse tema foi uma forma de elaborar minhas experiências clinicas em relação ao referencial teórico adotado. No campo técnico e mesmo teórico, transitei por diferentes cursos de formação e me empenhei em aprender técnicas de psicoterapia de abordagem corporal como a Massagem Biodinâmica a Biossintese, Body Mind Movement.
Todas essas diferentes abordagens possuem em comum a pesquisa das relações entre corpo e mente, e afirmam que nossos afetos e pensamentos geram respostas corporais, sintomas somáticos e que nosso corpo vai se moldando de acordo com as experiências que temos ao longo da vida.
No campo prático, ministrei durante quatro anos uma oficina no Hospital-Dia, “A Casa”, a qual denominei de “Corpo e Movimento”. Nessa experiência tive a oportunidade de observar pacientes que possuíam diversos tipos de desorganizações psíquicas: muitos eram psicóticos, borderlines, histéricos graves, etc. As práticas tinham um efeito calmante para eles. Em alguns casos despertavam memórias antigas que eram reativadas a partir do contato com o corpo, outras vezes, a linguagem e a forma de se expressar se tornava mais clara para eles, após os exercícios.
Trabalhei ainda com psicoterapia corporal e atendi muitos pacientes com desorganizações psicossomáticas, como obesidade, pessoas com pânico e que já tiveram problemas graves de saúde. Com esses pacientes também utilizei recursos como o toque, leitura corporal e intervenções corporais.
Todas essas experiências me levaram a compreender que, tanto os pacientes psiquiátricos, quanto aqueles que somatizam estão em situação de sofrimento psíquico. Seus quadros muitas vezes se desenvolveram a partir de traumas ocorridos no começo de suas vidas, momento este em que o corpo, mais especificamente, o campo sensório motor, estava muito presente na maneira como se relacionavam com as pessoas e com o mundo. O trauma ocorrido nessa fase propicia uma desconexão e uma falta de continuidade desse processo de desenvolvimento psicocorporal.
Deste modo, o presente trabalho tem o intuito de confirmar a hipótese de que a psicoterapia de abordagem corporal que utiliza no atendimento clínico recursos sensoriais, tais como a leitura corporal e o tato, pode ajudar os pacientes a se organizarem psiquicamente e resgatar o elo perdido com o próprio corpo.
Aproximei-me do tema a partir da perspectiva psicanalítica, dialogando com autores como Freud (1910), Winicott, Joyce Mcdougall, Nasio, Ivanise Fontes e Flavio Carvalho . Estes me ajudaram a compreender a formação do ser humano e a importância do corpo e da maternagem, para seu desenvolvimento com integridade psicossomática. Também me possibilitaram pensar o lugar da relação terapêutica como o espaço onde essas memórias do inicio da vida, podem ser despertadas e a importância da contratransferência como recurso para lidar com o que emerge desses períodos precoces.
Segui os passos de Ivanise Fontes (2010), reforçando a importância do uso da sensorialidade como recurso técnico no processo terapêutico, ampliando a percepção do terapeuta para além da escuta da palavra do paciente e sugerindo a importância de usarmos o olhar e o toque para aprofundar as possibilidades de uma comunicação primitiva, que possibilita o acesso às experiências traumáticas precoces. Tais aspectos serão ilustrados através do caso Poli, uma paciente de 54 com desordens psicossomáticas bastante severas, que está em psicoterapia de abordagem corporal.

A Contratransferência

Julgo importante tratar do tema da contratransferência pois é através da discussão de como ela se dá na relação terapêutica, que pensarei novas formas de trabalhar com os pacientes que somatizam. É também através das sensações contratransferências que o terapeuta de abordagem corporal poderá usar o toque e o olhar, no sentido de criar um ambiente para que o paciente possa se desenvolver.
Transferência e contratransferência são dois movimentos afetivos que ocorrem no seio de uma relação terapêutica e que são imprescindíveis para que o processo analítico proceda.
A transferência trata dos sentimentos que o paciente tem pelo terapeuta, e que sem eles, a confiança e a relação não acontecem. Outro aspecto importante, que discutiremos ao longo desse capítulo é que a transferência desperta memórias do paciente que são atualizadas na relação com o terapeuta, o que Laplanche descreve no trecho abaixo como: “repetição de protótipos infantis”.
Segundo Laplanche, a transferência

Designa em psicanálise o processo pelo qual os desejos inconscientes se atualizam sobre determinados objetos no quadro de um certo tipo de relação estabelecida com eles e, eminentemente, no quadro da relação analítica.
Trata-se aqui de uma repetição de protótipos infantis vivida com um sentimento de atualidade acentuada…
A transferência é classicamente reconhecida como o terreno em que se dá a problemática de um tratamento psicanalítico, pois são a sua instalação, as suas modalidades, a sua interpretação e a sua resolução que caracterizam este. (Laplanche & Pontalis, 2008:514)

Há varias referências sobre esse tema na obra de Freud, que inicialmente tratava a transferência como uma simples transposição ou deslocamento de libido de uma coisa a outra. O conceito vai ganhando novos contornos a partir da descoberta do complexo de Édipo, quando Freud chega a afirmar que o que os pacientes transferem para o analista, na relação terapêutica, são as figuras parentais.
Em contrapartida, são raros os trechos na obra de Freud que descrevem o que ele chamou de contratransferência. A conferência de 1910 intitulada “As perspectivas futuras da terapêutica psicanalítica” é o texto em que se concentram as maiores referencias sobre o tema. Nesse texto ele ressalta principalmente a influência do paciente sobre o médico e a importância da análise pessoal do terapeuta, para que possa diferenciar seus conteúdos psíquicos, dos do paciente.

As outras inovações na técnica relacionam-se com o próprio médico. Tornamo-nos cientes da “contratransferência, que, nele surge como resultado da influência do paciente sobre os seus sentimentos inconscientes e estamos quase inclinados a insistir que ele reconhecerá a contratransferência, em si mesmo, e a sobrepujará. Agora que um considerável número de pessoas está praticando a psicanálise e, reciprocamente, trocando observações, notamos que nenhum psicanalista avança além do quanto permitem seus próprios complexos e resistências internas;e, em conseqüência, requeremos que ele deva iniciar sua atividade por uma auto-análise e levá-la, de modo contínuo, cada vez mais profundamente,enquanto esteja realizando suas observações sobre seus pacientes. Qualquer um que falhe em produzir resultados numa auto-análise desse tipo deve desistir, imediatamente, de qualquer idéia de tornar-se capaz de tratar pacientes pela análise. (Freud, 1910:150)

O conceito de contratransferência possibilita pensarmos na implicação do terapeuta com seu paciente, suas fantasias, desejos inconscientes e reações a transferência. Esse conceito pouco explorado por Freud começa a ser desenvolvido por outros psicanalistas a partir do momento em que a relação paciente terapeuta se torna um tema mais estudado, bem como quando a psicanálise começa a se desenvolver em novas áreas, como no trabalho com pacientes psicóticos e crianças. Nos casos em que as desorganizações psíquicas são de ordem mais primitiva, as transferências e contratransferências ocupam um papel muito importante no processo terapêutico.
Nas ultimas décadas, o tema da contratransferência, vem ganhando espaço na discussão de casos de pacientes com desordens psicossomáticas. Há uma série de autores da psicanálise, tais como Joyce Mcdougall, Marillia Aisenstein, Ivanise Fontes, dentre outros, que descrevem casos clínicos nos quais muitas das intervenções terapêuticas são guiadas pelas sensações contratransferências. Eles teorizam à respeito de sua importância no trabalho com pacientes com este perfil.
Supõe–se que os pacientes com desordens somáticas e muitas vezes psicóticas, viveram traumatismos importantes no início de suas vidas, mais especificamente no período pré verbal, fase em que o recurso do bebê para interagir com o ambiente era predominantemente, seu aparelho sensóriomotor. Dessa forma, os traumas experimentados nessa fase dificilmente podem ser traduzidos em palavras, pois estão registrados na memória sensorial da pessoa. Nessas relações terapêuticas os conteúdos traumáticos poderão reaparecer das mais diferentes formas, mas provavelmente não serão manifestos a partir da linguagem verbal.
Lidar com os sentimentos e estranhamentos gerados na relação analítica se torna fundamental para que o terapeuta possa decifrar muitas vezes o que as palavras não comportam. Joyce McDougall (2000) chama esse tipo de comunicação de “comunicação primitiva”

No interior desse tipo de relação, o analista tem amiúde a impressão de ser solicitado incansavelmente e, por outro lado, de ser obstruído em suas tentativas de interpretar o que é dito. Com efeito, ele está à escuta de uma comunicação primitiva – no sentido em que se diz que uma criança, contanto que possa representar-se um Outro para ouvi-la, ao emitir sons e gritos está “comunicando” algo. (McDougall, 2000:102)

Para compreender essa “comunicação primitiva” estabelecida por seus pacientes, faz-se necessário que o terapeuta esteja sintonizado não apenas com a linguagem verbal, mas também com as sensações geradas contratransferencialmente, funcionando como uma mãe que tenta decifrar o choro de seu bebê.
No trabalho clínico com tais pacientes o corpo se torna o sinalizador de algo que não se submeteu a representação psíquica e que, por sua vez não pôde ser expresso pela linguagem verbal. Nesses casos,

Está em jogo a capacidade do analista de interpretar esses enuncia”dos corporais. Face à angústia arcaica do paciente, o analista se encontra numa situação delicada- é o momento em que a memória corporal se manifesta, em lugar da linguagem verbal. E o corpo do analista é implicado nesse processo. Por meio da vivência contratransferencial ele pode entrar em contato com essas experiências primitivas do paciente. Uma teorização da contratransferência torna-se indispensável então para dar conta da verbalização dessa sensação. (Fontes, 2010:28)

Desta forma o corpo do terapeuta serve como uma tela na qual as imagens e memórias corporais de seu paciente podem vir a se desenhar. É através dessa ressonância que a história do paciente pode ser “reencarnada”, ganhar corpo e representação. O corpo e a sensorialidade do terapeuta se tornam elementos fundamentais para que esse processo se dê.
O terapeuta é convocado a reascender as memórias do paciente, emprestar o seu corpo para que elas “ganhem carne”. Ele está incumbido de ajudar seu paciente a fazer o trânsito do registro sensorial para o registro verbal. Essa reflexão acerca da transferência e da comunicação primitiva nos leva a pensar sobre como encaminhar na prática da clínica corporal, essas sensações de contratransferências e como ajudar os pacientes nesse processo de ligar o corpo à palavra.
As memórias corporais emergem normalmente de maneira bruta, em sentimentos arcaicos que atravessam o paciente e que muitas vezes são atualizados ou projetados na figura do terapeuta. Esses afetos podem ser de raiva, apaixonamento, desejo de controlar, de fundir-se, ataques ao enquadre, etc.
Segundo Ivanise Fontes (2002) , no tratamento analítico, ou psicoterapêutico é importante tratarmos não apenas das palavras, mas das sensações geradas na relação terapêutica.

Na Relação analítica, entre os fenômenos que surgem, o analisando pode sentir e revelar experiências sensoriais anteriormente vividas, que fizeram parte de sua história.
Em vez de considerar apenas as associações de idéias, proponho incluir também, no processo analítico, as associações de sensações. Trata-se de re-atualizar a sensorialidade na transferência. (Fontes, 2002:67)

A associação das sensações é algo extremamente importante para lidarmos com as patologias geradas na contemporaneidade, onde os sujeitos se encontram muitas vezes desconectados de seus corpos e dos sentidos. Considero que a sensorialidade, quando ativada no terapeuta contraransferencialmente, desafia nosso pensamento sobre o corpo e sobre o indizível. A contratransferência, associada à sensorialiadade, indica uma direção no tratamento.
Os pacientes com pouca desenvoltura representativa nos convidam a lidar com tudo aquilo de concreto que acontece em uma sessão de terapia mas que não pode ser dito, tal como: a forma de caminhar do paciente, de sentar-se, de olhar, os desconfortos corporais que tomam a dupla terapêutica, a dificuldade subjetiva de estabelecer distância ou proximidade, etc.
Neste contexto, o corpo é imperativo, ele precisa ser incluído no trabalho terapêutico e quando digo incluído, quero dizer que não devemos nos deixar ludibriar pelas representações que temos acerca do corpo do paciente, pois as vezes tais representações podem substituir o corpo real que se nos apresenta durante uma sessão de terapia e que em sua concretude nos está comunicando uma série de coisas. Este corpo requer uma representação encarnada por parte do analista, uma inteligência afetiva e corporal.
Muito se fala a respeito da dificuldade encontrada pelos analistas que tratam de pacientes com distúrbios somáticos, de interpretar suas falas e também de ver seus pacientes associando e representando suas experiências dolorosas. O corpo que adoece nos pacientes que somatizam, conversa com o corpo de seu analista e, muitas vezes não se deixa atingir por uma excelente interpretação, por um discurso logicamente encadeado acerca da narrativa do paciente. O corpo responde sim a uma modulação diferente no tom de voz do terapeuta ou um olhar terno, por exemplo.
Concordo com Joyce Macdougall (2000) ao dizer que as doenças somáticas não são desprovidas de sentido. Esse sentido não pode ser encontrado por meio da investigação de estratagemas entre desejos reprimidos, conflitos entre inconsciente ego e superego. O sentido encontra-se muitas vezes ligado à sexualidade arcaica e suas derivações mais concretas como a fome devoradora, sua associação as necessidades básicas como urinar, defecar, ou um órgão afetado em sua concretude e o sentido que tem em não poder desenvolver seus desígnios: uma perna que não anda, um coração que acelera e quase explode. Enfim, não estou aqui tratando da representação de corpo, mas do corpo que grita chamando a atenção, que afeta e é afetado, que sangra, que adoece, que se excita, que tem excrementos e fluídos.
Para compreendermos os sinais concretos que nos apontam para os seus significados é preciso sentir, olhar e, por que não, tocar esse corpo. Portanto, sugiro que a sensorialidade deve ser usada como dispositivo clínico: o terapeuta pode usar sua visão, seu tato, sua escuta e sensações internas para tratar seus pacientes. Na psicoterapia de abordagem corporal, além da escuta, muitas vezes tocamos e estamos o tempo inteiro ligados aos sinais visuais que temos de nossos pacientes. O uso desses recursos nos permite um aprofundamento na comunicação primitiva e ajuda na criação de novos registros sensoriais.

O Paciente psicossomático e as questões primitivas.

Para compreender melhor o paciente que somatiza e a importância da sensorialiadade no tratamento destes casos, é importante que nos voltemos para as questões mais primitivas, tal como a relação entre mãe e bebê.

(…) A pesquisa em psicossomática acabou por dirigir-se para o campo das relações mãe-bebê, aí encontrando o solo de perturbações que teriam decorrências sobre a estruturação das defesas específicas que colocariam o somatizador em um terreno bastante diferente daquele do neurótico. (…) Apenas como demonstração, poderíamos nos remeter a McDougall (1991) e sua idéia de que, no caso do somatizador, a experiência clínica conduz à hipótese de uma falha da mãe como função de pára-excitação do bebê, o que constitui um traumatismo vivenciado na primeira infância, antes mesmo da aquisição da palavra. O bebê, assolado por sua angústia, não encontra encorajamento para, pouco a pouco, poder vivenciá-la psiquicamente, e com isto caminhar no sentido de uma elaboração progressiva. Neste caso sobrevém, de partida, uma insuficiência constitutiva das representações mentais. Provavelmente, o contato da mãe com este bebê encontra-se marcado por uma desarmonia afetiva – no sentido da carência ou do excesso – muitas vezes verificadas em casos onde a própria mãe sofra de uma doença somática ou se encontre deprimida ou excitada, indiferente ou excessivamente diretiva; enfim, quando se encontra, por algum motivo, impossibilidade de exercer seu papel materno satisfatoriamente.
Em casos mais favoráveis, a mãe desempenharia o papel de pára-excitação nestes tempos primordiais, dando ensejo à fantasia de “um corpo para dois”, sendo esta função, aos poucos, assumida pela palavra; no caso, palavra afetada. (Ferraz, 2004:34)

A mãe quando pode desempenhar sua maternagem de forma desejável é capaz de atender as necessidades do bebê, mediando seu contato cobm o mundo externo e provendo um ambiente seguro para que ele possa se desenvolver psiquicamente. Todo esse trabalho realizado pela mãe se dá através do contato corporal, do toque, do olhar, da amamentação e da comunicação não verbal que estabelece com seu filho. Tal contato quando satisfatório (refiro me aqui ao conceito Winnicottiano de mãe suficientemente boa), funciona como páraexcitação, uma espécie de escudo protetor que ajuda a criança a defender-se de estímulos externos e internos e posteriormente lhe dá condições para conter suas excitações e elaborá-las no nível psíquico.

Retomando a colocação de Flavio Carvalho (2004) acerca de Joyce McDougall, concordo com a perspectiva de que o somatizador experimentou falhas no processo de maternagem, o que por sua vez comprometeu sua capacidade de páraexcitar-se, lidar com seus afetos, contê-los. Esta fragilidade, gerada nos primórdios da vida das pessoas com desorganizações somáticas, ficam guardadas na memória de seu corpo e se manifestam na cisão entre pensamento e campo sensorial e no comportamento desafetado tão presente neste tipo de pessoas.

Segundo Winnicott, em seu livro “O brincar e a realidade” (1975), a fase inicial da vida de um bebê é marcada por sua indiferenciação entre eu e não-eu, nesse período ele depende e se encontra fundido a mãe. Para que a diferenciação entre eu / não-eu se dê, ele terá que separar-se gradativamente de sua mãe e de sua função de meio ambiente. Para que tal separação transcorra de forma não traumática é importante que a mãe tenha cumprido sua função de ambiente ao segurar, manejar e apresentar objetos para o bebê.

Dessa forma, me parece plausível a hipótese de que os pacientes que somatizam podem ter tido complicações justamente nos desdobramentos de sua relação com essa mãe ambiente, que por alguma razão não foi bem sucedida em desempenhar as funções acima citadas, tão importantes ao bebê e que o auxiliam no seu processos de integração psicossomática.

Segundo Winiccott,

Permitam-me simplificar a função ambiental e afirmar sucintamente que ela envolve:
1. o segurar
2. o manejar
3. a apresentação de objetos.
O bebê pode reagir a essas provisões ambientais, mas o resultado, nele, é uma maturação pessoal máxima. Pela palavra ‘maturação’, nessa fase, pretendo incluir os diversos significados da palavra ‘integração’, bem como o inter-relacionamento psicossomático e a relação de objeto. (Winnicott,1975: 153-154)

Estes traumas precoces relacionados principalmente ao tato (manusear) e ao olhar (apresentação de objetos e o olhar materno), afetarão o processo de maturação do individuo. Desenvolverão dessa forma, uma relação defensiva com seus sentidos e emoções, bem como uma falha na capacidade de conter suas excitações (para-excitação).
Podemos comprovar tais hipóteses no consultório com pacientes que tratam os afetos com frieza, como se nunca fossem tocados pelas experiências ou que por seus próprios sentimentos. Em alguns casos, a dificuldade em estabelecer paraexcitações se apresenta com o aspecto de extrema fragilidade e hipersensibilidade a qualquer estímulo, inclusive os sensoriais.

O olhar

É importante mencionarmos o estádio do espelho de Lacan para tratarmos a questão do olhar. Neste trabalho o autor defende que o corpo do bebê, no inicio de sua vida, é experimentado de maneira fragmentada e este só irá se constituir como um todo a partir do momento em que se enxerga no espelho e se reconhece como um Eu (Moi).

O Eu (Moi) se constitui sobre a imagem do próprio corpo.O corpo do recém nascido, apresenta um caos interoceptivo, transbordado em sensações incoordenadas, que configuram o corpo fragmentado.
O Eu é efeito de uma imagem, efeito psíquico de uma imagem virtual de si que “o” produz, o que não é dizer pouco. (Sigal, 2009:1)

Importa ressaltar no presente trabalho a respeito do pensamento Lacaniano, a relação que este estabelece entre o efeito da imagem e a construção do sujeito.
Seguindo nessa perspectiva, o pensamento de Winiccott amplia a questão do olhar e do reconhecimento de si mesmo para a relação mãe bebê. Segundo Winiccott (1975), da mesma forma que o recém nascido se organiza como um ser unificado a partir do momento em que se enxerga no espelho, ele o faz quando se vê refletido no olhar de sua mãe, portanto o olhar materno também se constitui como uma forma de espelho.

Segundo Winiccott,

O que vê o bebê quando olha para o rosto da mãe? Sugiro que, normalmente,o que o bebê vê é ele mesmo. Em outros termos, a mãe está olhando para o bebê e aquilo com o que ela se parece se acha relacionado com o que ela vê ali. (Winnicott,1975:154)

O olhar materno, juntamente com outros cuidados corporais como o toque e o manuseio, fazem parte desse meio ambiente que mãe e bebê compartilham. O infante não apenas se vê refletido no olhar da mãe, mas também é visto e percebido por ela de acordo com o seu modo de ser. Isso pode ocorrer de maneira normal ou o bebê pode ter a experiência de olhar e não ser olhado de volta, deixando de se ver refletido na mãe. Isso faz com que ele pare de se relacionar com ela enquanto espelho e passe a enxergá-la de modo objetivo e separado de si. Esse tipo de relação com o olhar pode gerar questões com relação a auto imagem e com a maturação psicossomática. A questão do olhar é de extrema importância para nós, pois ele está relacionado com a constituição do Eu.
O olhar do terapeuta, assim como o olhar da mãe e o espelho, é capaz de possibilitar uma integração de um ego/corpo fragmentado. A apreensão do outro através da visão é uma forma de comunicação primitiva, na qual o não é verbal se mostra e é recebido, onde muitas vezes as marcas dos traumas vividos se delineiam nas expressões de susto e nas expressões de defesa do paciente. Ali onde estão as respostas mais involuntárias podemos enxergar marcas da história do sujeito. De acordo com Nasio,

Se escolhi apresentar-lhes essa noção tal como a concebo a partir da minha prática clínica e de minha leitura dos textos fundadores da psicanálise, é porque, num tratamento, a imagem corporal se revela como um dos caminhos privilegiados para termos acesso ao inconsciente do paciente. Pois, como o psicanalista pode captar uma emoção da qual o paciente não tem consciência? Como captar uma emoção recalcada senão através de um fulgor no olhar de nosso paciente numa expressão distraída, e, se ele estiver deitado, na maneira como se enrijece ou se curva, move a cabeça, produz sons guturais ou murmura, palavras inaudíveis? Tudo isso são mensagens corporais, indícios preciosos para um psicanalista… e hoje chamaríamos essas mensagens de imagens, imagens corporais… Todas essas manifestações corporais, esses simulacros, esses semblantes, essas mensagens emitidas por um corpo modelado pela emoção, verdadeiras vias de acesso ao inconsciente… Em suma, as imagens-ação são posturas, mímicas ou gestos espontâneos, imagens vividas no lugar de refletidas, atuadas mais que representadas. É perfeitamente compreensível por que essas imagens, esses signos não verbais, são para o clínico, verdadeiras garras para apreender as emoções inconscientes do paciente. (Nasio, 2009:71-72)

Segundo o autor, podemos pensar que o analista captura uma série de elementos ricos quando usa sua visão para perceber seu paciente, esses dados formam um texto cheio de informações que podem ser traduzidas em forma de palavras. Portanto, servimos de espelho para nossos pacientes não apenas quando lhes devolvemos o que escutamos acerca de suas palavras, mas também quando enxergamos e comunicamos o que vemos em suas expressões. O olhar do terapeuta confere unidade narcísica ao paciente, ao olhá-lo e apontarmos as escolhas motoras e expressivas que realiza, atestamos sua existência.

Quando Winiccott (1975) fala a respeito dessa questão em seu texto “O Brincar e a Realidade”, faz uma relação entre a criança que se vê refletida no rosto da mãe e em um espelho, à função da psicoterapia. Diz que mais do que fazer interpretações precisas, o terapeuta deveria poder ser o rosto que reflete o que há para ser visto acerca de seu paciente. E continua:

Essa é a forma pela qual me apraz pensar em meu trabalho, tendo em mente que, se o fizer suficientemente bem, o paciente descobrirá seu próprio eu (self) e será capaz de existir e sentir-se real. Sentir-se real é mais do que existir; é descobrir um modo de existir como si mesmo, relacionar-se aos objetos como si mesmo e ter um eu (self) para o qual retirar-se, para relaxamento. (Winnicott,1975:161)

Aqui Winiccott faz uma distinção importante ao dizer que quando o terapeuta permite que o paciente se veja refletido nele, ele está lhe permitindo não só sentir que existe, como lhe dá condições de sentir-se real. Sentir-se real no sentido de poder ter uma existência singular e autêntica, isso pode ser compreendido como uma diferenciação de seu ambiente e dos outros. Esse aspecto é fundamental para os pacientes que somatizam, pois esses muitas vezes sofreram complicações na fase de diferenciação de suas mães, portando para eles poder se sentir a sua singularidade é ter direito a uma existência própria.
Essas colocações são relevantes, pois nos permitem compreender a importância de se incluir as informações sensoriais no processo terapêutico, além de ir de encontro a um recurso de grande importância na terapia de abordagem corporal, chamado leitura corporal.
Podemos observar uma série de aspectos visuais a respeito do paciente, como a sua forma de caminhar e de mover-se,os gestos e suas expressões que variam de acordo com as diferentes emoções expressas, o aspecto e coloração de sua pele, podemos apreender como é o tônus dessa pessoa e como todos esses aspectos se unem formando um conjunto que caracterizam aquela pessoa.
Muitas vezes depois de fazer esse reconhecimento dos aspectos visuais podemos nomear o que nos parece importante, como por exemplo, perguntarmos ao paciente por que ele parou de respirar quando estava falando de determinado assunto, ou sinalizar que seus ombros se fecharam ao lembrar de uma situação profissional difícil, que este quando fala de suas relações afetivas enrijece seu pescoço. Esses apontamentos podem ser de extrema importância e ajudam a abrir o diálogo para novas direções. A leitura corporal e o feedback que o terapeuta dá ao paciente, além de ajudarem na formação do Eu, nos fornece uma narrativa paralela àquela relatada verbalmente, permitindo perceber as expressões que vão em uma direção contrária às emoções.

O Toque

O psicanalista Didier Anzieu (1989) defende que o Eu se constitui a partir da pele. Esse ponto de vista tem em comum com a questão do olhar, a constituição do Eu, que se desenvolve apoiada sobre uma função corporal.
Para falar sobre a importância do toque e da pele, tomo como referência um conceito de Joyce McDougall (2000) que contribuirá para o desenvolvimento desta reflexão. A autora quando trata da fusão inicial que caracteriza a relação mãe bebê, diz que nesse momento mãe e filho dividem um corpo para dois. Nesse momento de indiferenciação do bebê a mãe lhe empresta o seu corpo servindo, como Winiccot (1975) chamou, de ambiente, para que seu bebê possa se desenvolver.
Segundo Joyce McDougall,

Podemos dizer que a vida psíquica começa com uma experiência de fusão que leva à fantasia de que existe apenas um corpo e um psiquismo para duas pessoas e que estas constituem uma unidade indivisível. (MacDougall, 2000:33)

Podemos pensar que essa experiência de fusão se dá a partir do contato corporal mãe e bebê, e que a separação gradativa da mãe se dá quando o bebê se sente inteiro e contido por sua própria superfície. Didier Anzier (1989) desenvolve uma linha de pensamento parecida com a de Joyce McDougall (2000), chamando o momento de fusão de circulo maternante, que funciona com um envelope para o bebê, e diz que este envelope está apoiado sobre a função da pele, com a sua característica de interface que separa o mundo interno do mundo externo.

O duplo feedback observado por Brazelton leva, na minha opinião, a constituir uma interface representada sob a forma de uma pele comum à mãe e ao filho, interface representada sob a forma de uma pele comum à mãe e ao filho, interface tendo de um lado a mãe e, de outro lado, o filho. A pele comum os mantém ligados mas com uma simetria que esboça sua separação futura. Esta pele comum, os abarcando um ao outro, assegura entre os dois parceiros uma comunicação sem intermediário, uma empatia recíproca, uma identificação adesiva: tela única que entra em ressonância com as sensações, os afetos, as imagens mentais, os ritmos vitais dos dois.(Anzier, 1989:70)

O autor faz uma analogia entre as funções da pele e as funções do Eu. Nessa descrição, o primeiro aspecto relevante é a pele, como função de sustento (holding), a pele segura e sustenta os nossos órgãos, ossos e músculos. A forma como a mãe segura o bebê mantém seu corpo em um estado de unidade e lhe confere as primeiras impressões acerca do sustento, quando o bebê amadurece isso será refletido na capacidade de manter-se por si mesmo. O segundo aspecto seria a pele como continente do corpo e da psique, essa sensação da pele enquanto bolsa que guarda todos os órgãos e conteúdos internos se desenvolve a partir do handling (manusear) maternal. O terceiro aspecto, que se assemelha bastante ao segundo, é pensar na pele enquanto membrana, similar a membrana celular, que separa a célula de seu meio externo e media suas trocas com o ambiente, selecionando o que pode e o que não pode entrar e sair de seu meio interno.
Todas essas idéias podem ser compreendidos a partir da descrição da pele enquanto envelope psíquico, Segundo Didier Anzieu,

Envelope é uma noção abstrata que exprime um ponto de vista de um observador minucioso, mas de fora. Ora, o bebê tem uma representação concreta deste envelope, que lhe é fornecida por aquilo que ele com freqüência experiência sensorialmente, a pele, uma experiência sensorial permeada de fantasias. São essas fantasias cutâneas que vestem seu Eu nascente com uma representação, certamente imaginária, mas que mobiliza, retomando uma expressão de Paul Valéry, aquilo que há de mais profundo em nós e que é nossa superfície. São eles que marcam os níveis de estruturação do Eu e que traduzem as falhas. (Anzier, 1989:67)

A pele está diretamente relacionada à noção de um corpo para dois, é através dela que o bebê se funde à sua mãe e graças a ela que delimita o seu espaço singular. A experiência de constituição do Eu a partir da pele é marcada pelas fantasias, que por sua vez compõe um envelope psíquico.

Quando trabalhamos usando o toque como recurso terapêutico, podemos desenvolver o regresso às memórias e registros arcaicos e possibilitar que no espaço da terapia o paciente reviva suas fantasias de retornar ao estágio de fusão, onde não havia frustrações e nem responsabilidades. Segundo Joyce McDougall, “desejo que jaz profundamente enterrado no fundo de cada um de nós” (2000:34).

Da mesma forma que o paciente pode fantasiar sobre o retorno à fase do corpo para dois, pode também desenvolver uma relação diferente com o tato, abrindo para si um novo registro sensorial. Para um paciente com questões psicossomáticas é possível que o toque do terapeuta seja experimentado como algo desagradável ou nocivo, que o remete a experiências arcaicas traumáticas.
Em outros casos o toque pode ser vivido como algo que o contem, que o ajude a desenvolver uma noção de limite e que permita uma vinculação afetiva através da pele.

O toque é importante na terapia de abordagem corporal, pois permite realizar um trabalho terapêutico onde se encontram as falhas mais estruturais, possibilitando que o paciente entre em estados regressivos. Portanto, esta abordagem deve ser feita com muito cuidado e respeito as particularidades de cada pessoa. Para que isso se dê de modo seguro, em primeiro lugar é importante que o vinculo terapeuta paciente seja sólido e que haja uma relação de confiança entre eles. Em segundo lugar é importante saber que tipo de relação o paciente possui com o tato, se por exemplo a pessoa se sente super excitada quando é tocada, talvez o contato inicial com sua pele necessite ser feito sem o toque do terapeuta, ou seja pedindo para que sinta os contornos de seu corpo enquanto está sentada na cadeira, ou sentir o apoio dos pés sobre o chão. Há momentos em que o toque direto é muito benéfico, pois ajuda a pessoa a voltar se para si, sentir suas fronteiras, se organizar. Em outros momentos o toque tem a função de libidinizar o corpo desafetado. Em terceiro lugar é importante ter se em vista que o toque só deve acontecer a partir de um consentimento por parte do paciente.

O toque, assim como a fala e o olhar, nos permite ampliar a escuta da comunicação primitiva e é mais um exemplo de como a sensorialidade pode ajudar nas relações terapêuticas com pacientes que somatizam.

Relato de caso
Para ilustrar as reflexões acerca da técnica da psicoterapia de abordagem corporal apresento o caso de uma paciente que está comigo há 3 anos e que possui uma série de desorganizações psicossomáticas. Foi encaminhada por uma sobrinha que estava preocupada com ela devido a sua desafetação, suas questões corporais e a relação de extrema dependência com a sua mãe.
Poli gostou da idéia de fazer terapia e ter um espaço para ela. Começamos fazendo os atendimentos em sua casa, pois sua mãe não achava que ela tivesse condições de sair sozinha para vir ao consultório. Depois de seis meses, ela sugeriu que gostaria de ser atendida no consultório, tivemos algumas conversas com sua mãe e ela passou a vir duas vezes por semana. Essa mudança foi importante para que pudesse se sentir mais confortável e ajudou-a se vincular com a terapia.
Poli tem 54 anos, é pediatra, a terceira de quatro irmãos, tem um filho e mora com a sua mãe desde que seu pai morreu. Ela teve um aneurisma quando era jovem, aos 24 anos. Nessa fase sua vida estava bastante atribulada, muitas coisas importantes estavam acontecendo simultaneamente, estava terminando os estudos em medicina, estava casada há pouco mais de dois anos e tinha um filho de um ano, fruto deste casamento.
Ser mãe foi algo extremamente difícil e impactante para ela, seu leite secou e ela se viu apavorada com a possibilidade de não conseguir cuidar do filho. Antes mesmo de seu episódio circulatório, passou a contar com sua mãe para cuidar dele, deixava-o durante a tarde na casa da mãe enquanto ia para o hospital terminar sua residência médica, ela diz que ele praticamente morava com a avó desde muito pequeno. Ela conta que sua relação com o marido era distante e que ele não a ajudava a cuidar do filho. Entendo que essa série de fatores contribuíram para que sua situação de saúde se complicasse.
Depois do primeiro episódio, Poli voltou por alguns meses para a casa de sua mãe para que fosse cuidada dela enquanto se recuperava, conta que seu marido não tinha estrutura para cuidar dela por isso recorreu aos cuidados da mãe. Depois de recuperada voltou para sua casa, retomou suas atividades como médica e continuou tendo sua mãe como suporte para cuidar de seu filho.
Quatro anos após o aneurisma ela se separou de seu marido, com quem estava vivendo uma relação desgastada e bastante distante, diz que se viam e conversavam muito pouco. Ele estava trabalhando em uma empresa da família dele, que estava quase falindo, e sugeriu então que se divorciem para que as dividas dele não recaíssem sobre ela. Ela aceitou, mas ao assinar o divórcio lhe disse que de agora em diante estavam separados de verdade e pediu que ele saísse de sua casa.
Viveu mais alguns anos só ela e o filho, morando em seu apartamento e depois que o seu pai morreu voltou para a casa da mãe. Segundo ela, sua casa era praticamente um dormitório, pois o filho quase morava com a avó e ela também só ia para a casa dormir, trabalhava fora e fazia todas as refeições na casa da mãe. Por não conseguir se manter economicamente e também por não achar justo deixar sua mãe sozinha depois da perda do pai, transferiu-se para sua casa, procurando minorar seu sofrimento.
Quando ela estava com 46 anos foi visitar uma de suas irmãs nos Estados Unidos e durante a viagem teve um desmaio e os clipes que foram colocados em sua cabeça, na ocasião do primeiro aneurisma, se abriram. Teve que passar por uma outra cirurgia da qual saiu mais debilitada em termos de marcha, memória e fala. Ela teve complicações com o seu seguro de saúde e com sua remoção, por estar em outro país. Recentemente, a mais ou menos três anos, teve uma crise epilética que complicou o seu quadro de saúde.
Devido a essas intercorrências ela ficou com algumas seqüelas, tem dificuldade de caminhar, sua perna esquerda tem menos mobilidade do que a direita e tropeça com freqüência. Da mesma maneira que caminha com dificuldade, sua fala acontece de maneira similar, quando está se sentindo sob pressão ela repete as palavras sem conseguir concluir uma idéia, troca as palavras, resume um pensamento em uma palavra, o que muitas vezes torna suas idéias pouco compreensíveis. A forma de caminhar e de falar passam uma impressão robótica, se movimenta de modo rígido e demonstra automatismo ao repetir as frases e as mesmas histórias de modo pouco afetivo, o que talvez possa ser atribuído a seu problema neurológico e ao comprometimento de sua memória recente.
Poli vive uma relação de fusão com sua mãe, seus relatos acerca do pai são muito parcos, ela conta que ele trabalhava muito e quase não voltava para casa. Tenho a impressão de que ela passou a ocupar o papel familiar daquela que não pode sair de perto da mãe. As vezes que ela saiu de sua casa adoeceu, da primeira vez quando foi morar com o seu marido e da segunda quando foi visitar sua irmã nos EUA. Ela teme sair de perto da mãe e não mais voltar.
Psiquicamente Poli é descontraída, gosta de contar piadas e se gaba de estar sempre bem e de conseguir deixar seus problemas de lado. Ela é extremamente dependente de sua mãe que tem 86 anos e é uma senhora muito lúcida e muito exigente, que está ficando mais frágil fisicamente. Sua mãe cuida da sua agenda de compromissos, a acompanha aos médicos e monitora suas atividades de vida diária. A mãe é muito preocupada com suas dificuldades e tem muito medo que Poli faça as coisas sozinha, tem medo que ela caia na rua e não tenha ninguém para ajudá-la, portanto cerceia bastante o ir e vir da filha.
Segue morando com sua mãe. Seu filho, que também morou lá por bastante tempo, hoje tem sua própria casa, está casado e tem uma filha de um ano. Eles se encontram todos os finais de semana, porém ela o solicita pouco, pois não quer dar trabalho e nem interferir em sua vida.
Ela se relaciona com as coisas materiais de um modo particular, gosta de tudo o que é antigo, pois segundo ela tem história e uma qualidade diferente das coisas de hoje em dia. As roupas e adereços que ela veste carregam uma memória afetiva, as vezes veste camisas que eram do filho e que ela adaptou para si, ou brincos e colares que sempre tem alguma história e a ajudam a lembrar de momentos de sua vida. Tem um colar que diz que representa a sua vida, cada coisinha que está pendurada no cordão do colar foi um presente recebido de alguém querido, ou lembranças de momentos passados.Suponho que devido a sua extrema fragilidade psíquica ela vê sua história e seu Eu refletido nas coisas, no colar, na sua casa, em seu banheiro. Sua casa, suas coisas, suas roupas de todos os dias são como invólucros que lhe conferem identidade.
Seus momentos de independência se manifestam quando sai para trabalhar. Ela se dedica atividade de médica pediatra por dois períodos na semana, atendendo em um consultório, que recebe pacientes de convênio. Esses e os horários que vem a terapia e fisioterapia são os períodos que passa fora de casa realizando atividades suas.
No início do processo terapêutico eu sentia que sempre esbarrava em uma muralha de defesa impenetrável, ela se escondia atrás das falas, que repetia a cada sessão, de que estava sempre ótima e que de seus problemas cuidava depois. Ela tem uma atitude que demonstra uma pseudo independência e que muitas vezes encerra qualquer possibilidade de diálogo e de aprofundamento. As vezes me abria uma brechinha na muralha, para que eu enxergasse um pouco melhor o seu mundo, do outro lado.
Atualmente o trabalho com ela está evoluindo bastante bem, ela se sente mais à-vontade e pode acessar suas emoções com mais facilidade.O recurso do corpo foi uma saída para ir além das armaduras de Poli, comecei a fazer leituras de seu corpo e a usar essa percepções como recurso terapêutico, se não fosse dessa forma, talvez não tivesse conseguido prosseguir com ela. O recurso do toque também se mostrou bastante eficaz, como veremos a seguir.
A seguir, coloco trechos de atendimentos recentes, para ilustrar como meu trabalho se desenvolve e como os recursos corporais entram no processo terapêutico.

Poli chega ao consultório caminhando com mais dificuldade do que de costume, percebo que está frágil e abatida.Ela parece estar mais vulnerável recentemente, pois sua mãe está doente, teve um desmaio, fez uma série de exames e detectou que está com uma artéria obstruída e está com um cateterismo agendado para as próximas semanas. A mãe já disse algumas vezes que sua maior preocupação em morrer é deixar Poli sozinha, dando a entender que se a filha melhorasse (ficando mais independente e caminhando melhor) ela poderia “ir embora” tranqüila. Ao entrar na sala pergunto por que será que está caminhando com mais dificuldade. Me conta que antes de sair de casa, sua mãe ficou pedindo para que ela andasse mais rápido e disse mais: “Ai meu Deus, me ajude!”.
Pergunto como ela se sentiu com esse comentário. Diz que ficou incomodada e respondeu falando que não tinha como melhorar, que estava fazendo o que podia. Falou: “Sabe, não é assim! eu estou fazendo o que posso, mas ela acha que eu não estou, que eu poderia fazer mais. Diz que eu estava andando mais rápido e melhor antes e que agora piorei. Mas agora pelo menos eu estou falando mais as coisas, não sei se isso é bom ou se é ruim, mas falei para ela: mamãe me dá um tempo!”.
Ela se diz insegura com esse comentários, fica se sentindo mais instável.
Digo que ela esta passando por uma fase difícil e que parece que nesse momento caminhar está mais complicado para ela.
Diz que está se sentindo pressionada e que diante dessa pressão parece piorar a marcha.
Pergunto o que está acontecendo em sua vida que faz com que se sinta pior?
Diz que está normal emocionalmente, que está muito bem, mas enrijece seu peito elevando sua cabeça em uma posição de superioridade, o peito fica estufado e imóvel, suas pernas frágeis ficavam desconectadas deste movimento de suspensão torácica.
Peço que pare e perceba como estava se organizando corporalmente, ela percebe que está respirando pouco e que o seu peito estava imóvel. Em seguida me diz que ela tem que ficar mais independente.
Pergunto por que?
Diz: “Para ajudar a minha mãe, se eu melhorar ela pode melhorar também.
Digo:“ nossa, que responsabilidade!”.
Poli:“ Pois é, acho que fica mais difícil ainda (e faz um ato falho) não que eu (não) queira melhorar, mas eu estou tentando e as vezes foge do meu controle. O que posso fazer é ficar independente, trabalhar mais, voltar à minha normalidade.”
Pergunto o que aconteceria na sua vida caso melhorasse.
Diz que trabalharia mais e ficaria menos em casa e portanto não estaria lá no dia a dia para cuidar da sua mãe.
Eu: “Se você melhorar sua mãe pode melhorar.
(Nesse momento penso comigo que se ela melhorar e sua mãe perceber que está andando com mais autonomia, pode ficar mais despreocupada em relação à ela e abandonar-se à doença Ela sente que não pode se movimentar, desejar e nem sentir pois vai machucar o “Outro”.Tenho a sensação que ela teme ganhar mais mobilidade e que seu movimento físico e emocional possa ser fatal para a mãe).
Poli: “sabe, eu preciso começar a ficar menos passiva, mais independente, eu poderia ajudar minha mãe, mas não consigo tomar essa iniciativa.
Eu: “Ajudar como?”
Poli:“ Agora a minha mãe está insegura, não sabe em qual médico ir, eu posso indicar o médico certo, dessa vez peguei o telefone e já liguei para agendar uma consulta para ela. Sabe, eu não posso deixar ela sofrer.”
Pergunto por que ela tem que assumir a responsabilidade de não deixar a mãe sofrer, porque ocupar esse lugar?
Poli: É isso mesmo, ta errado né?, eu deveria dividir isso com todos da família.”
Digo que desde que o pai morreu ela vem ocupando esse lugar.
Poli: “Sim, tento tapar todos os buracos.”
Concordo e digo que parece que desde que o pai morreu ela virou a acompanhante da mãe, fica preenchendo os buracos tentando evitar que a mãe sofra.
Pergunto: “E você, fica como tentando não deixar a sua mãe sofrer?
Poli:“Eu sofro por nós duas, eu posso sofrer, ela não.”
Eu:“Parece que você tem que pagar pelos sofrimentos da sua mãe sofrendo junto ou por ela.”
Ela reconhece e diz : “Tenho que tomar cuidado com minha mãe, porque ela é muito inteligente, ela parece uma aranha que vai enroscando a gente na teia dela”.
Muda de assunto e fala que está com um cisto no nariz e me conta sua hipóteses acerca de sua origem genética.
Digo que me parece que nesse momento seu corpo tem se manifestado, a marcha está mais difícil, tem o cisto, recentemente teve um edema na testa.
Poli: É verdade: Acho bom, porque depois da tempestade vem….”
Eu completo a frase num ato falho: “ o copo de água”.
Damos risada, e eu digo:“nossa, de onde será que eu tirei esse copo de água, não é assim esse ditado!”.
Poli: “é mais deve ter algum sentido você ter dito copo d’água, talvez você conheça outro ditado que acabe assim.” Retoma a conversa e diz: “sabe quando tem uma tempestade de elétrons e depois que eles se bagunçam todos, depois de um tempo eles precisam se equilibrar e aí se acalmam.?”
Digo que talvez nesse momento ela esteja no meio da tempestade,
Poli:“É , acho que estou bagunçando para depois colocar tudo no lugar.
Comento que nesses momentos de desorganização parece que ela tende a adoecer. Ela concorda e diz com satisfação: “A doença sempre me tira de um lugar e coloca em outro, estou dizendo de lugar físico mesmo. Sempre eu me mudo para um outro lugar onde as pessoas cuidam de mim.”

Poli está vivendo uma fase muito dolorosa pois está é começando a cogitar que sua mãe pode morrer. Pensar a morte da mãe, da qual até hoje não pôde se separar, associada ao trabalho da terapia, está possibilitando que a irritação que ela sente, por ter sua vida condicionada à da mãe e ao fato das duas parecerem habitar um só corpo, comece a ser colocada em palavras.
Pede um tempo para a mãe, quando ela tenta acelerar sua melhora para caminhar. Percebo que nessa sessão ela também atribui um sentido à sua doença: tira-la de um lugar e colocar em outro, poder ser cuidada individualmente, não precisar mais ficar dentro do buraco da mãe. A mudança de lugar físico, como mencionamos acima é também uma mudança de identidade, se ela sai de sua casa e vai para outro lugar, seu ego também está mudando.
Me parece que, quando faço observações sobre sua marcha, sua palidez, e enumero todos os eventos relacionados à sua saúde, estou espelhando para ela uma imagem de si, tentando ajudar a integrar essas diferentes situações que ela vive como eventos separados e fortuitos. O mesmo se dá quando peço que perceba como está seu tronco, quando me diz que está bem. Nesses momentos estou me comunicando com os dados visuais que capto dela, permitindo que ela se veja refletida através de meu olhar.
O primeiro efeito deste retorno para a paciente do que observo, atividade que chamamos na psicoterapia de abordagem corporal de leitura corporal, é a percepção do corpo fragmentado que ganha unidade ao se ver e se visto. Em um segundo lugar gera um questionamento, será que o que estou comunicando condiz com aquilo que sinto? Isto permite que o paciente se dê conta de aspectos inconscientes que se apresentam na expressão corporal. Em terceiro lugar gera um dado concreto a partir do qual o paciente pode se perceber, corporalmente e subjetivamente.
A respeito da função do espelho Ana Maria Sigal diz que

A criança experimentará uma tensão frente à imagem que o espelho lhe devolve. Uma tensão frente à imagem que o espelho lhe devolve. Uma tensão entre a imagem unificada do corpo e a impotência motora. Cria-se uma tensão agressiva, uma rivalidade entre corpo e fragmento e o outro de si, sua própria imagem no espelho.(Sigal, 2009:2)

Quando passamos por esse momento tenso de reconhecimento fazemos uma marca na nossa comunicação, o paciente pode pensar sentidos para sua doença, pode se situar em relação a sua vida e ganhar uma imagem unificada de si mesmo.Esses exemplos ilustram como a leitura corporal serve como recurso técnico útil no trabalho com a paciente.
Adiante um outro fragmento de sessão em que o recurso corporal do toque e da contratransferência são usados para atender às necessidades da paciente. Essa sessão ocorreu dois dias depois da sessão descrita anteriormente.

Poli chega andando com mais dificuldade do que na sessão anterior, tentando me contar coisas, andar e fazer piada ao mesmo tempo, mas ela parece só se confundir e vai ficando mais lenta, tropeça bastante e sua fala fica pouco compreensível.
Quando chega dentro da sala, olha para as poltronas e parece não reconhecer qual é a sua. Nesse momento, sou tomada de uma irritação que me acompanha por algum tempo durante a sessão. Percebo sua fragilidade e sua fala desarticulada e penso que tocá-la pode ser benéfico, pois ela está em um momento mais desorganizado, ela acaba se esforçando muito para se fazer entender e fica contrangida. Suponho que se tocá-la ela poderá falar de si de um modo mais confortável, sentindo-se acolhida. Ela pode experimentar ficar mais em seus registros sensoriais sem ter que se preocupar tanto com a forma e a coerência de suas palavras.
Eu- Olho para ela e digo: “Poli, acho que poderíamos fazer alguma atividade corporal, o que você acha?.”
Poli-“Acho ótimo! Preciso. Minhas costas estão parecendo uma pacote de cimento de tão duras que estão”
Eu- “Por que será?
Poli-“Eu tenho uma teoria, eu acho que é por causa da bengala, você concorda?
Eu: “Pode ser , mas que acho que também porque você tem endurecido bastante as costas nesses últimos tempos ( repito o movimento que ela faz de costume, o mesmo movimento descrito acima).
Ela se deita na maca e começo a massagear suas costas, vou sentindo a dureza dos seus músculos, o “concreto” que ela me descreve, e peço que enquanto isso ela se concentre na sua respiração. Minha respiração vai ficando apertada e a irritação que estou sentindo desde o começo da sessão começa a se intensificar, me auto examino, tento entender a irritação, respiro mais fundo e ela não passa, então resolvo falar para ela.
Eu: “ Nossa Poli, de repente comecei a sentir um desconforto, minha respiração apertada e um pouco de irritação, não sei muito bem de onde isto está vindo”
Poli: “ Deve ser porque eu estou muito irritada esses dias, tenho ficado irritada com tudo, sem nenhuma causa especifica, é a minha irritação que você esta sentindo”
Eu:“Sem causa nenhuma?!, não tem nada te acontecendo que esteja te irritando?”.
Ela diz que não.
Peço que se concentre de novo na respiração e que tente localizar em seu corpo, como é a sensação de irritação”
Poli: “O peito fica totalmente parado, ele não pode se mexer”
Eu: “ Você não pode se queixar, reclamar e nem ficar irritada não é?, talvez por isso você esteja se sentindo como um concreto”
Então peço que solte o ar, e que tente suspirar e conforme vai suspirando começa a se contorcer e chuta a coberta que a cobria. Falo que se a coberta está lhe incomodando, que pode chutá-la. Ela chuta com alegria, ajudo a retirar a coberta de suas pernas e volto para a região torácica.
Peço que suspire para ver se a sensação de imobilidade melhora. Ela suspira com bastante intensidade, começa a soltar o ar mas não consegue emitir um som. Lhe peço para tentar colocar som conforme solta o ar, como se fosse se aliviar e ao mesmo tempo deixar seu incomodo sair. Então conforme solta o ar começa a dizer um série de coisas que eu nunca havia ouvido ela dizer antes.
Poli:“Por que tudo eu?” e em seguida fala ironizando os comandos que recebe:“Agora anda!, agora fica parada!, anda mais rápido!, não pense!,não fale!, agora vamos comer!”.
Ela parece ficar satisfeita em dizer essas coisas e vai se animando, dá risadas parecendo uma menininha que está fazendo algo de errado e começa a agitar as pernas como se estivesse esperneando, dizendo:“Será que é na perna ou será que é na cabeça o meu problema?, é perna ou é cabeça? é cabeça ou é perna?”.
Aos poucos vai se acalmando e fica deitada de barriga para cima com os braços cruzados para trás, numa posição que permite que seu peito fique mais exposto. Noto que há mais movimento nessa região e digo:
Eu:“ O seu peito está se movimentando mais, ele está em uma posição de bastante abertura”
Poli: “Estou ocupando bastante espaço, não é?. Eu não posso ocupar tanto espaço.”
Eu: “Aqui na terapia você pode ocupar o espaço que quiser.”
Poli: “Eu sei que você acha que eu não ocupo tanto espaço, mas eu ocupo muito espaço por aqui!”
Eu: “ Reconheço que você ocupa e aproveita bastante o seu espaço aqui, acho isso muito importante”
Poli: “Estou me sentindo muito bem ,bem mais leve do que quando entrei.”

Ao tocar Poli, sentir sua rigidez e a pobre circulação de ar em seus pulmões, os sentimentos contratransferenciais de irritação e falta de ar se intensificam. Aparece um importante dificuldade; reconhecer de que ordem são esses sentimentos contratrasnferenciais, antes de verbalizá-los para a paciente. Podemos nos enganar nesse momento e colocar sentimentos que não dizem respeito ao paciente e sim às vivencias do terapeuta.
Segundo Joyce McDougall

Falar da contratransferência é essencialmente falar de afeto: afeto positivo ou negativo, despertado por determinados analisandos ou por um determinado discurso. É claro que são múltiplas as fontes de afetos contratransferenciais. Isso pode dizer respeito somente à realidade psíquica do analista ou àquilo que se passa no momento em sua vida privada. É certo que os afetos da transferência do analista estão também intimamente ligados à sua formação, às teorias que privilegia, portanto àquilo que ele espera. E o prazer de analisar pode desaparecer diante de pacientes que não correspondem às nossas expectativas. Esta dimensão particularmente atuante – a formação analítica- pode também encobrir nossa escuta, de modo que a fonte do problema é o analista e não o analisando. (MacDougall, 2000:100)

No entanto, o que eu estava sentindo contratrasferêncialmente, era característico desse tipo de relação terapêutica em que entram em ação as experiências arcaicas de compartilhamento de um só corpo e suscitam afetos negativos no terapeuta. Isso ficou claro pois já havia se repetido de várias formas diferentes nas inúmeras vezes em que tentei contar o caso na supervisão e não conseguia lembrá-lo, na hora de falar sobre ele as palavras saiam gaguejantes, e me sentia paralisada, sem conseguir pensar objetivamente sobre o caso. Ficava em um estado parecido com o da paciente, paralisada física e psiquicamente diante de sua vida.
Portanto, quando sentia a irritação e falta de ar durante o atendimento narrado acima, associei aos afetos negativos que fazem parte da comunicação primitiva e que se repetem nesse atendimento.
No segundo momento em que verbalizei o sentimento e ela se identificou com ele, as sensações de desconforto desapareceram, ela se apropriou do que estava sentindo, gerando uma aproximação que a deixava confortável para expressar os seus desconfortos.
Sua irritação, os gestos de indignação e as falas permitiam um descolamento desse falso self de boa menina, lhe possibilitando habitar sua própria pele e se descolar da fusão com sua mãe.
O toque, como foi usado nessa sessão, permitiu que a paciente minimizasse suas defesas podendo sentir o que lhe incomodava. Além disso, um outro aspecto bastante importante que surgiu na sessão foi ela sentir que estava ocupando espaço e reconhecer que pode ocupar seu espaço no ambiente terapêutico. Habitar o corpo gerou uma circulação dos afetos que estavam paralisados.
De um modo geral o trabalho da psicoterapia de abordagem corporal está ajudando Poli a desenvolver seu envelope psiquico. Ela tem expressado seus desejos e incômodos de maneira mais livre, sem precisar recorrer todo o tempo a imagem de que está sempre bem e sem problemas, isso se dá por ela se sentir contida através de nossa relação. Nos momentos que se sente à vontade na terapia, começa a articular melhor sua fala e suas idéias ficam mais claras, ela está mudando seu hábito de dar voltas com o pensamento e com as palavras para tentar encobrir o que sente. A liberdade de poder se expressar também gera um relaxamento corporal e uma pulsação maior nas regiões que de costume aparecem imóveis.
No presente momento ela se encontra em uma fase delicada de sua vida, pois está paralisada diante do medo da morte da mãe, essa paralisia continua se expressando na piora dos sintomas corporais. Nesse momento o espaço terapêutico está cumprindo o papel de espaço transacional, pois é lá que ela pode elaborar seu afastamento da mãe e se preparar para ter uma existência real.

Conclusão

As primeiras experiências na vida de um bebê são marcadas por suas vivências corporais, é através delas que ele irá apreender sobre as coisas. O desenvolvimento corporal inicia-se a partir das necessidades básicas do bebê, e vai se refinando a partir de suas interações com o ambiente. Esse processo precede a aquisição da linguagem e o pensamento. A partir das hipóteses levantadas neste trabalho compreendemos que essa estrutura corporal serve de apoio para a formação do Eu. A respeito disso Didier Anzieu diz que “toda atividade psíquica se estabelece sobre uma função biológica.” (1989:45).
Isso se evidencia quando falamos sobre o toque e o olhar como dois elementos importantes para a constituição do Eu. O primeiro enquanto formador do envelope psíquico que dá contorno e permite a separação entre mãe e bebê e o segundo enquanto reconhecimento de si e organização do corpo fragmentado.
A psicanálise se origina a partir de um pensamento medico que tenta estabelecer relações entre o funcionamento corporal e o psíquico. Isso aparece bastante no pensamento Freudiano, principalmente no começo de sua obra. Ele fala em seu livro O ego e o id (1923) que o ego é antes de tudo corporal. Essa breve colocação Freudiana é extremamente importante para o compreendermos a relação entre psique e soma, juntamente com a noção de apoio defendida por Anzieu. Essa direção teórica associada a experiência clínica nos possibilita perceber uma relação entre sintoma corporal e sintoma psíquico. O que nos permite ampliar a questão Freudiana da seguinte maneira, não apenas o Ego é antes de tudo corporal, mas o psiquismo é antes de tudo corporal.
Portanto, no trabalho clínico é importante levarmos em conta tal compreenção. Os sintomas corporais podem não ter significados complexos, mas acredito que ao nos aproximarmos da especificidade do corpo doente, da região afetada, dos sintomas, ali também poderemos encontrar rastros de um aspecto doente do psiquismo. Por exemplo, uma pele que fica doente está impossibilitada de fazer plenamente a sua função de interface, está mais sensível ao contato, ou em outros casos pode adoecer como forma de proteção. De maneira análoga podemos especular sobre como está a capacidade desse individuo de defender-se psiquicamente, como ele percebe e vive seus limites, como os contatos com as pessoas acontece. A respeito disso Rubens Volich diz:

“Sublinhando a impossibilidade de integração dessas manifestações, e o funcionamento autônomo das funções corporais com relação ao psiquismo Joyce Mcdougall aponta que “na histeria o corpo ‘se empresta’ `a psique para ser utilizado segundo a vontade desta última [enquanto]na doença somática o corpo faz seu próprio pensamento. O terapeuta é então confrontado a funcionamentos e expressões mais arcaicas, com sintomas que estão mais próximos dos sinais do que dos símbolos. O pensamento somático é quase literal, “ mortalmente” preciso, prescindindo de qualquer tradução psíquica das necessidades” (Volich,2000;113)

No caso de Poli temos uma clara falta da intrincação psicofísica e do componente literal que há no sintoma psicossomático. A paciente desenvolve uma série de sintomas corporais de ordem orgânica, aneurisma, perda de memória, marcha comprometida ente outros. Tais sintomas são diferentes de sintomas histéricos, pois o organismo adoece ao invés de ser uma conversão para o corpo dos conflitos psíquicos.
Os sintomas físicos de Poli apesar de não serem sintomas conversivos, tem uma reciprocidade com suas questões psíquicas. O fato de ela viver no nível corporal uma paralisia, uma dificuldade de caminhar e de se comunicar, se evidencia como uma possibilidade de representação de outras questões que vive no nível psíquico.Tal ligação é importante pois possibilita o trânsito a partir do sintoma físico `as questões subjetivas da paciente.A concretude da dificuldade de caminhar e de se comunicar, nos permite refletir com ela sobre sua dificuldade de desejar, ir de encontro as coisas que gosta, de se mover diante do medo da separação e da perda. É a partir dos sintomas físicos que ela pode começar a pensar sentidos e direções para sua vida.
A partir da discussão teóricas, nos aproximamos da hipótese que atribui uma relação entre os distúrbios psicossomáticos à complicações na fase do desenvolvimento precoce, fase em que a linguagem em muitos casos não havia ainda se desenvolvido. Outra possibilidade de compreensão da realidade dos pacientes que somatizam, seria pensar que as experiências traumáticas em sua vida foram de tal impacto que a deixaram impossibilitada de elaborar psiquicamente tais acontecimentos. Contudo, essas hipóteses tem em comum o escoamento da energia psíquica para o campo somático.
De uma forma ou de outra, a comunicação primitiva se torna uma maneira desses pacientes expressarem seu sofrimento e suas angústias arcaicas. Para que o terapeuta possa compreender esses enunciados é preciso levar em conta os sentimentos contratransferênciais, ampliando o trabalho terapêutico para além do campo da escuta e da palavra.
No caso de Poli, o manejo das sensações contratrasferenciais e o investimento afetivo em seu corpo, vem possibilitando um fortalecimento egoico importante. Ao fortalecermos sua organização psíquica, estamos também possibilitando a afirmação de sua identidade e sua autonomia.
A minha prática clínica tem me mostrado que esta forma de trabalhar com pacientes com afecções somáticas tem sua utilidade pois vem apresentando resultados significativos.
Há uma crescente preocupação dos psicanalistas com relação `as questões corporais, a exemplo do referencial teórico adotado neste trabalho. Embora o método psicanalítico não inclua técnicas corporais como recursos terapêuticos, a psicanálise e os autores que teorizam sobre a psicossomática psicanalítica, são uma importante referência conceitual para a minha atuação clínica.
Por outro lado, o fato de realizar psicoterapia de abordagem corporal me permite realizar um trabalho diferente do proposto pelo enquadre psicanalítico e aprofundar a comunicação primitiva através de recursos como o toque e a leitura corporal. O investimento corporal por meio do toque, do olhar e da escuta, permite que o paciente faça uma regressão aos seus estágios primários e com a ajuda do terapeuta refaça seus registros corporais antes vividos de maneira traumática. A psicoterapia de abordagem corporal permite que seja criado um ambiente de maturação para que tais pacientes possam refazer sua integração psicossomática.

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