Do útero à melhor idade: o toque constrói encontros

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A Massagem Biodinâmica: a psicanálise do corpo (Gerda Boyesen)

Sandra Mara dos Santos Milessi
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INTRODUÇÃO
Em minha atuação profissional estava com casos apenas de psicoterapia Biodinâmica. Desejava muito ter a experiência de atender somente em massagem biodinâmica como meio de adquirir os conhecimentos na prática.
Em psicoterapia também utilizamos a massagem onde ela é mais um de muitos recursos. Na massagem como tratamento, ela é o “único” recurso, assim o desejo dessa vivência era imprescindível para uma aprendizagem completa. Em maio de 2008, enquanto participava de um Workshop conhecí a paciente que chamarei de Isa, a qual numa conversa informal interessou-se em receber a massagem Biodinâmica. Fui procurada por Isa na mesma semana. Fiz uma pequena entrevista e sua queixa era de dor na lombar, especificamente no nervo ciático e o sentimento de “falta” da terapeuta corporal com quem tratava anteriormente que havia ido embora da cidade e até então não havia conseguido encaixar-se com outro terapeuta. Nesse momento pensei em suas expectativas e fiquei ansiosa, lembrei muito das aulas do curso sobre o “estar presente”, “tocar o corpo como quem toca a alma”, respirei e realizei a massagem de extremidades por ser um primeiro contato.
Assim começou um tratamento ao qual considero até hoje, pelo nosso vínculo e duração de dois anos e sete meses, uma viagem ao mundo sem palavras, mas de um profundo encontro através do toque, segundo a Gerda Boyesen “a psicanálise do corpo ”(1. pg.34).

INFORMAÇÕES GERAIS SOBRE O CASO

Dados pessoais e informações familiares
ISA, gerente da área de alimentação de hotelaria, casada, 01 filho. Quando chegou em 2008, com 54 anos, trabalhava junto com o marido e o filho estudava em outra cidade.
É a caçula de 10 irmãos. Sendo realmente mais criada pela irmã acima dela. Morava no hotel em que os pais eram donos e sua infância toda foi vivida entre a rotina de um hotel.
Isa relata que por ser caçula foi criada mais solta e com uma educação menos rígida, que pode ser mais aberta e carinhosa com a mãe.
Aos 24 anos sofreu um acidente de carro onde sofreu fraturas exposta na perna tendo que fazer enxerto de músculo, osso e pele; nesse acidente perdeu sua melhor amiga que faleceu segurando sua mão.

Queixa
Em primeira entrevista a cliente demonstra curiosidade pelo estilo da massagem e a vontade de experimentar e encontrar novamente um tratamento que aliviasse suas dores na lombar e ajudasse com sua ansiedade que contribuía para a aquisição de peso. Deixa bem claro a falta que sentia de sua antiga terapeuta.
Relata que possui um problema cardíaco – arritmia. Faz acompanhamento continuo deste problema e o controla com medicação. Reclama que não consegue “fechar” a boca sem medicamentos, mas que não quer mais tomar remédios para emagrecer. Fala de sua dificuldade em aderir ao exercício físico.
As seqüelas do acidente que sofreu aos 24 anos foram: uma limitação nos pequenos movimentos giratórios e de elevação do tornozelo; um caminhar que descompensa a coluna, e partes do corpo amortecidas. Podia-se perceber uma grande cicatriz na panturrilha da perna esquerda, onde foram feitos os enxertos. Trouxe também sua dificuldade em abaixar, dores no joelho, ausência de um sono reparador e uma osteopenia no quadril (crista ílica).

Minhas primeiras impressões
Isa chegou para a entrevista bastante ansiosa, curiosa e motivada. Com vontade de encontrar um novo lugar onde pudesse ser cuidada. Relata que já havia experimentado de tudo para tratar-se da dor no ciático, mas que a dor só amenizava. Saía de outras massagens ainda com dor. Falava de uma vida bastante agitada e cheia de deveres aos quais cumpria com muita dedicação e exigência excessiva, o que lhe dificultava ter um sono reparador.
Pude perceber uma atitude hipertônica diante da vida e no corpo uma hipertonia na cervical e na lombar onde reclamava de dores crônicas. Pensei na possibilidade de haver uma hipotonia escondida nas camadas mais profundas. A hipotonia era mais evidente na região abdominal. As pernas, apesar do acidente, eram bem hipertônicas.
Falava de seu peso corporal, mas no momento, ele estava adequado à sua idade e biotipo.
Quanto ao nosso contato, percebi no início das primeiras sessões uma dificuldade para relaxar e confiar. Conforme ia sentindo o toque, era inevitável para ela se entregar. No decorrer das sessões passou a ser reparador adormecer.

DESCRIÇÃO DO ATENDIMENTO

Primeiro período – maio a dezembro de 2008
Na primeira sessão, devido ao preenchimento da anamnese o tempo ficou curto, apliquei a massagem de extremidades me guiando pelo estetoscópio. Fiquei bastante tempo na cabeça. No inicio praticamente não havia barulhos peristálticos, mas ao massagear a cabeça e as mãos, os barulhos foram aparecendo, terminando com sons de água fluindo; a paciente chegou a ressonar.
Nesse primeiro contato percebi quanto ela era uma pessoa que utilizava muito do pensamento para realizar suas atividades. Seu tônus muscular era rígido, com hipertonia em quase todo o corpo e havia um estado de alerta que dificultava a entrega.
Lembrei-me do que a Gerda falava sobre o método da parteira: ”o método da parteira vem dar ao paciente a segurança necessária para ir derretendo sua couraça, onde o terapeuta serve de âncora e suporte para que o paciente aprenda a se auto regular”. (1 pg.102). E que “fazer amizade com a resistência é ser como um receptador, que aceita e explora sua resistência; qualquer que seja sua manifestação em você, ela está ali por razões valiosas, pois foi criada inconscientemente, para protegê-lo contra a dor. Como alguém que ajuda preste atenção à resistência no seu cliente, respeite suas manifestações contra a entrega. Saiba que se você tiver um procedimento gentil, a resistência poderá se dissolver sob suas mãos – se você penetrar estupidamente, ela apenas aumentará. (2 pg.115). Seu trabalho se baseia em quem você é. Como alguém que ajuda, não analise seu cliente, deixe que ele dirija seu procedimento. E você: você olha, você escuta, você sente, você respira, você pensa. Então deixe suas mãos falarem”. (2 pg.115).

Quando retornou para a segunda sessão disse que havia dormido melhor e que sentiu que a massagem biodinâmica era muito diferente do que havia vivenciado em outras massagens; nessa sessão foi possível tocar o corpo todo com mais precisão, deixei a minha mão me levar junto com os barulhos, mesmo ainda estando insegura. Terminei fazendo um deslizamento no corpo inteiro. A paciente abre os olhos e relata “que jamais havia recebido uma massagem tão gentil como essa”, nessa sessão a paciente dormiu de forma profunda. Pude perceber que em alguns lugares como braços, rosto, havia uma hipotonia que aparecia após massagear, e que o pescoço era hipotônico, onde trabalhei com a massagem de hipotonia para fortificar e dar sustentação. Pude constatar que conforme vamos trabalhando as camadas e suas respectivas couraças vão aparecendo outras mais profundas.
Foram várias sessões dessa forma, onde ela dormia, cheguei a pensar no porque do sono, se era resistência ou não, mas os comentários dela foram evidenciando que era um momento “seu”, onde vivia seu relaxamento. As dores haviam sumido, estava mais disposta e dormindo melhor, seu sono era um momento de “estado não integrado“ que Winnicott apresenta em sua teoria do amadurecimento, em que o bebe necessita para construir seu “eu” de forma segura e saudável. Sendo a paciente caçula de nove irmãos esse estado não foi provavelmente respeitado, o que fora confirmado pela própria paciente relatando sobre sua dificuldade em adormecer profundamente desde criança.
Após quatro meses de massagem fui surpreendida pela paciente que chegou trazendo um sonho, muito animada, pois fazia anos que não se lembrava de seus sonhos. Como foi difícil por ser só massagem segurar o trabalho psicoterapêutico, mas apenas perguntei se havia lhe feito algum sentido e ela disse que não, seu olhar era de quem me pedia a resposta, disse que iria fazer a massagem e que ela deixasse seu corpo falar, trabalhei na intenção com minhas mãos e alma, e para surpresa minha ao terminar a massagem ela havia tido um insight sobre o sonho que ao me falar sentiu-se super satisfeita.
Para mim essa sessão foi como se estivesse lendo uma sessão bibliográfica, acredito que o insight não havia sido só de minha paciente. Revivi com profundidade a fala de Gerda Boyesen: “a massagem Biodinâmica é a psicanálise do corpo”. (1.pg.34).
Gerda Boyesen correlacionou a massagem com a Psicanálise, onde a massagem atua sobre o corpo como uma psicanálise; o objetivo principal da Psicanálise é trazer do inconsciente os conteúdos recalcados, a massagem por sua vez atua no sistema nervoso parassimpático levando ao relaxamento, favorecendo o afrouxamento das defesas psíquicas, proporcionando o aparecimento de conteúdos recalcados através de imagens e lembranças. Gerda preocupou-se em saber o que acontecia no plano fisiológico, corporal, assim que um conflito é recalcado; e o que acontece no plano fisiológico, orgânico, quando na terapia um conflito é dissolvido; chega à conclusão: ”se é possível influenciar o sistema nervoso, então é possível dissolver a neurose”. Assim “a massagem opera ao mesmo tempo sobre a postura e sobre a personalidade. (1.pg.37)
Ficou claro para mim o que havia ocorrido e o motivo dos insigths nesse contato só de toque, sem palavras e sem interpretações, recursos que são utilizados dentro de um processo psicoterapêutico. Sendo o sonho uma manifestação dos conteúdos psíquicos recalcados, com a massagem as defesas afrouxaram e os conteúdos puderam emergir e serem compreendidos através de seus insights.
Nesse primeiro período as massagens foram sendo vivenciadas e direcionadas através dos sons do estetoscópio. Utilizei da massagem da shantala, muitas vezes nesse período, onde a paciente dormia e se restabelecia, acordando revitalizada. Seu tônus já havia mudado e sua perna referente ao acidente estava com um alongamento mais acessível. Entramos em férias em fim de dezembro.

Segundo período- de Janeiro a julho de 2009

A paciente voltou de férias sentindo muita falta da massagem, mas dizendo “que as dores não haviam voltado e que isso para ela, era uma surpresa.”
Estimulei e sugeri que ela experimentasse o Pilates Biodinâmico-desenvolvido por uma das alunas do curso de Taubaté–Sandra Abreu; que seria uma possibilidade e ela aceitou. Seria uma forma de trabalhar mais sua musculatura através dos alongamentos e atuar junto com a massagem na questão da osteopenia e da ansiedade.
Nesse período utilizei bastante a massagem colônica junto com a de extremidades visando soltar o diafragma e distribuir melhor o fluxo, revitalizando todo o corpo, a massagem de Lifting, para trabalhar suas resistências, confiança e entrega aliviando as preocupações, a massagem Orgonomica para trabalhar sua percepção corporal e revitalizar. Nessa fase ocorreu um fato interessante, onde em uma sessão disse que “precisava após a sessão fazer uma faxina em sua casa e precisava de energia”, fiz a massagem Orgonomica e ela voltou na próxima sessão dizendo “que fez a faxina e que limpou tudo e que não acreditou que havia feito tudo sem dor e com uma disposição que ainda não havia experimentado”.
Durante todo esse período descobriu o prazer na atividade física com o pilates e permanece nele como na massagem, bem vinculada.
Terceiro período- Agosto a Dezembro de 2009

O tratamento nesse período dava continuidade às melhoras adquiridas e começaram a aparecer mais sonhos, mudanças de comportamento, onde conseguia se preocupar menos, se impor mais, brincar mais, tirou férias, conseguiu se planejar melhor com a família.
As massagens eram feitas de acordo com a necessidade do dia, a paciente já sabia pedir com consciência o que seu corpo e seu psiquismo desejava e precisava.
Mais uma vez a pratica comprovava a teoria, “sendo assim terapia biodinâmica não segue nenhum curso predeterminado: ela varia de acordo com as necessidades individuais de cada cliente. Freqüentemente, o terapeuta trabalha com técnicas especiais de massagem para dissolver as couraças corporais – dos músculos, das vísceras e dos tecidos. Usando um estetoscópio no abdômen, o terapeuta segue os ruídos peristálticos, em detalhes, durante a massagem. Estes sons são de uma variedade surpreendente, constituindo uma completa linguagem em si mesmos – e vêm responder aos vários toques do terapeuta. Os sons indicam que o terapeuta, tendo tocado alguma parte particular dos tecidos do corpo onde a energia de uma emoção passada ficou reprimida e contida, conseguiu liberar esta energia para uma descarga fisiológica através do movimento psico-peristáltico. Trabalhando para obter o máximo de sons psico-peristálticos o terapeuta está limpando progressivamente o tecido do corpo dos “remanescentes de tensão” (stress) de velhos e incompletos ciclos emocionais”. (2 pg.11)
Os sonhos eram extremamente claros; a própria paciente conseguia interpretar e aplicar na vida, sempre compartilhava comigo. Falei da possibilidade de psicoterapia; no inicio ficou motivada, mas preferiu ainda esperar um pouco mais, o que estava vivenciando na massagem era o que ela realmente necessitava.
Aparentemente o que parecia ser “pouco era muito”!
Durante esse período fiquei apenas assistindo o seu desenvolvimento curativo, pude realmente visualizar na massagem o “método da parteira”, onde o paciente vai construindo a sua forma de nascer e o terapeuta é um facilitador presente.

Quarto período- janeiro a novembro de 2010
Nesse período a paciente passou por algumas dificuldades emocionais onde na massagem se reestruturava e resgatava sua auto regulação, saindo muito bem das situações de conflitos familiares, onde até eles notaram sua mudança.
Atualmente está considerando-se muito bem, com menos ansiedade, sem dor no ciático, fazendo exercícios físicos e diz “ser mais ela” e que a massagem é um beneficio e um cuidado do qual não quer abrir mão.
Termino esse relato com a citação de Gerda Boyesen: “O organismo saudável tem, entretanto, o poder de exprimir, resolver e digerir até mesmo violentos choques emocionais, contanto que tenha as condições necessárias de paz e segurança. Apenas quando a pessoa perde sua capacidade inerente e natural de auto-regulação e de autocura é que a neurose se desenvolve. A terapia Biodinâmica procura restaurar esta perda ou diminuição da capacidade de auto-regulação, e procura alcançar o “núcleo vivo”, o âmago da pessoa, estimulando e encorajando sua expansão”. (2.pg.10).
Conclusão

Ter vivido esses momentos com Isa não só comprovou todas as informações que adquiri durante o curso de formação em Psicologia Biodinâmica, como completou a base de minha formação como profissional e como pessoa diante da função e importância do toque.
A forma que tocamos e a intenção que usamos produzem uma comunicação primitiva – “o não verbal”, mas que possui uma mensagem com maior profundidade. Propicia ao paciente sair de seu discurso racional e entrar num relaxamento e afrouxamento de suas defesas. Possibilita a liberação de seus conteúdos e emoções recalcados, libera sua descarga, ativa seu processo de auto regulação e reequilibra o fluxo de energia em todo o seu corpo.
Como terapeutas Biodinâmicos, devemos estar atentos as nossas sensações em nosso corpo, respeitando os limites da transferência e contra transferência, podendo assim também nos beneficiar desse encontro e crescermos em nossas vidas.
Ver hoje Isa mais solta, leve, envolvida com atividades físicas, com seu potencial criativo pulsando , reverbera em mim uma vontade cada vez mais de atuar e divulgar a Massagem Biodinâmica.
Gerda Boyesen, falou que “a melhor formação é uma terapia” (1. pg.25). Ser terapeuta Biodinâmico é uma ótima terapia para reciclarmos nossos conhecimentos e aprofundarmos na vida.

Ser terapeuta Biodinâmico é viver pulsando!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BOYESEN, G. – Entre Psiquê e Soma. Introdução à Psicologia Biodinâmica. Summus, São Paulo, 1985.
2. I.F.B.P – O que é Psicologia Biodinâmica. Cadernos de Psicologia Biodinâmica no. 1. Summus, São Paulo, 1983, p. 9-12.
3. I.F.B.P – Conceitos e definições Biodinâmicas. Cadernos de Psicologia Biodinâmica no. 1. Summus, São Paulo, 1983, p. 114-117.
4 BOYESEN, G. & BOYESEN, M.L. – A teoria biodinâmica da neurose. Cadernos de Psicologia Biodinâmica nº 1. Summus, São Paulo, 1983, p. 74-92.
5. DIAS, O. E. – A teoria do amadurecimento de W.Winnicott. Imago, Rio de Janeiro, 2003.
6. I.B.P.B- Massagem Biodinâmica. São Paulo.

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