As emoções: um percurso literário para psicoterapeutas

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Les émotions : un parcours littéraire pour psychothérapeutes Michel Heller 1 Transcription non éditée d’une conférence donnée en décembre 1991 à Paris, qui sera publiée avec les références suivantes : Les émotions. un parcours littéraire pour psychothérapeutes. Dans Besson, Jacqueline (ed.), Manuel d’enseignement de l’École Française d’Analyse Psycho-Organique, tome 2, p. 12—158, 1992. AS Emoções Michel Heller Para Laura e Alain que tiveram de suportar a redação deste artigo durante nossas férias de esqui. Introdução: a psicologia das emoções em 1970, no tempo de meus estudos. Através da sua expressão emocional, o indivíduo age como um todo. Não é a mente que se zanga nem o corpo que bate. (Lowen 1977, p.12) I.1 A psicologia experimental em torno de Paul Fraisse De 1971 a 1976 eu estudei psicologia experimental em Genebra, em um instituto dirigido por Jean Piaget (EPSE: École de Psychologie et Sciences de l’Education)(Escola de Psicologia e Ciências da Educação). Esta escola centrava sua atenção em questões de epistemologia (como pensam aqueles que estudam o pensamento), e o desenvolvimento intelectual das crianças. Esta escolha tinha a vantagem de nos permitir abordar esses problemas com uma intensidade que tornava nossos estudos apaixonantes, e a falha notória de deixar de lado tudo o que não interessava a Piaget…notadamente as emoções que para Piaget estavam reduzidas à ‘energética de nossas condutas’, ou seja, a explicação de por que concentrávamos nossa atenção mais sobre tal objeto do que em outro. Além desse interesse mais que sucinto para a dimensão do nosso ser, nós tínhamos direito ao artigo de Paul Fraisse sobre as emoções, publicado no Volume V do “Traité de Psychologie Expérimentale” (Tratado de Psicologia Experimental) criado por Paul Fraisse… e Jean Piaget. Em seu tratado de psicologia experimental, Paul Fraisse nos lembra que a neurologia é em certo sentido a herdeira da dissociação alma/corpo proposta notadamente por Descartes: todas as nossas funções psicológicas (cognitivas, emocionais, instintivas) têm a sua sede no cérebro … e o resto do corpo não passa de uma máquina a serviço de nossos pensamentos. Naquela época falava-se muito (o Professor Dolivo em Lausanne, Laborit na sua ‘agressividade desviada’) da teoria dos três cérebros de MacLean. MacLean mostrou que, ao longo da evolução do cérebro este se desenvolveu principalmente em três tempos que formam as três partes do cérebro humano: A) O cérebro reptiliano situado na base do cérebro, compreende numerosas funções já adquiridas pelos répteis … especialmente os comportamentos necessários à sobrevivência do indivíduo e da espécie, tais como defesa do território, a caça e a fabricação do ninho, bem como o grau de alerta ou de sono de todo o cérebro. B) O cérebro mamífero, recuperando as funções adquiridas pelos mamíferos, está localizado no meio do cérebro; chamado também de sistema límbico. É a sede das motivações, das emoções e da memória. Nesta parte do cérebro, os neurologistas encontraram os centros de prazer, da dor, da fome, etc. Quando o centro do prazer é estimulado com um eletrodo, enquanto um rato pressiona um botão, ele pode continuar a pressionar este botão até a morte … ignorando a fome e a sede. C) O neocórtex compreende as funções desenvolvidas pelo macaco e sobretudo pelos humanos; sem o neocórtex não seríamos capazes de viver em estruturas sociais tão complexas como as sociedades humanas, de lidar simultaneamente de forma coordenada com informações diferentes (e de coordenar os aspectos afetivos e cognitivos de uma vivência), nós não seríamos capazes de falar, ler e escrever, utilizar regularmente ferramentas … mesmo as mais simples, não seriamos capazes de nos representar um objeto ausente. A idéia de MacLean era que estas três partes do cérebro funcionavam em relativa independência. Assim, quando a criança vai ao zoológico, seu cérebro de mamífero reage ao leão como se fosse um encontro em plena floresta, sem levar em consideração o fato de que o neocórtex viu claramente que a fera estava atrás de barras sólidas. No entanto, o neurologista soviético Luria afirma que o cérebro de mamífero gera sobretudo relações entre sentimento e mobilização fisiológicos sem levar em conta as lógicas de comunicação. Ajuriaguerra et Hécan mostram que o córtex temporal também está envolvido em ‘fenômenos emocionais tais como tristeza, medo da morte, terror, sentimento de solidão’. Esta parte do cérebro também está envolvida nas ‘modificações do caráter e da personalidade’ observadas em alguns epilépticos ‘e particularmente sobre sua agressividade e irrascibilidade’. Mais recentemente, Tzourio e Mazoyer (1991) confirmaram, que o neocórtex está envolvido com as emoções (regulação da dor, reconhecimento dos rostos), mas eles também mostram que tal mobilização neurológica é acompanhada por mobilizações específicas (locais) do fluxo sanguíneo. Isto, portanto, sugere que uma experiência emocional é produzida por uma coordenação de fenômenos diferenciados situados em vários níveis neurológicos, cada um obedecendo a diferentes modos de funcionamento. A dinâmica interpessoal dessas experiências implica necessariamente em modos de funcionamento ainda mais complexos. A idéia geral era a de que, primeiro sentimos uma emoção no cérebro e que esta influenciaria, em seguida, as respostas viscerais e expressivas do corpo. Segundo outra teoria, proposta por William James e Carl Lange, é o corpo que reage emocionalmente aos estímulos, e a sensação emocional é a sensação desta reação. Mais tarde, Stanley Schachter fez a seguinte distinção: certa mobilização visceral é necessária para colocar uma pessoa em um ‘estado emocional’, mas, em seguida, são os fatores cognitivos e sociais que vão fazer virar este estado frente a uma dada emoção (tristeza ou raiva). Cada um desses pontos de vista explica bem parte dos dados disponíveis, nenhum permite gerenciar todas as partes. Com um tom sutilmente humorístico, Fraisse mostra que o comportamento emocional evolui com a idade. Para ele, ‘o homem não podendo controlar certas reações, ele as orienta, numa certa medida, para sacar uma utilidade social de uma desordem de conduta’. Este efeito seria devido aos mecanismos relacionados à socialização das emoções em crianças descritos por Wallon. A criança aprende a reorganizar o seu funcionamento emocional, e adaptá-lo, pelo menos em parte, a situações das quais ela participa; ela também aprende a utilizar seu repertório expressivo inato como uma arma para agir em seu entorno. Paul Fraisse também mostra que a expressão emocional passa por uma mobilização tônica da musculatura, e que ‘as pessoas que sofrem de conflitos, de neuroses, são mais tensas que as outras.’ Além disso, uma emoção mobiliza diferentes partes do domínio corporal com velocidades diferentes: Tensões musculares 0,2 a 0,3 segundos Correntes da pele 4 segundos Vasoconstrição 5 a 10 segundos Aumento da velocidade de pulso 5 a 10 segundos Aumento da pressão sanguínea 5 a 10 segundos Respiração 15 a 20 segundos Dados também mostram que a raiva ‘reprimida’ dá reações viscerais mais fortes do que uma explosão de todo o organismo. I.2 A gestão das emoções segundo Gerda Boyesen Paralelamente a meus estudos de psicologia experimental, eu fiz um curso de formação em psicologia biodinâmica que durou de 1974 a 1979. Neste curso eu adquiri conhecimentos complementares àqueles ensinados na Universidade: uma inocência quase total no que diz respeito à ideologia, à epistemologia e ao que Joëlle Boyesen chama de ‘conceito’; mas de concreto, do corpo, dos sentimentos … e – casualmente – muita inteligência. A propósito destes seminários, o tema das emoções evoca em primeiro lugar uma história que nos contava Mona-Lisa Boyesen: aquela do missionário. Um missionário, profundamente crente e amante da vida, passeava pela África, quando de repente foi atacado por um leão faminto. Surpreso, ele reagiu pegando o seu fuzil matando-o. Após isso, ele reagiu em dois tempos: a) Ele diz ufa! começa a expirar, e sente certa satisfação circular dentro dele. b) Mas rapidamente vem um sentimento de culpa por ter reagido de forma tão impulsiva e de ter matado uma criatura de Deus. Só depois de ter digerido este componente cognitivo, situacional no que toca às opções fundamentais de sua vida, que o missionário pôde realmente relaxar, expressando as emoções que ele sentiu naquele momento. c) Além desses dois pontos de Mona-Lisa, eu gostaria de acrescentar que esta história tem de fato um terceiro tempo, o da digestão de uma epopéia emocional: a necessidade de falar sobre isso, de digeri-la com outros. Houve, nesta primeira parte da história, duas fases emocionais: a) Uma carga, uma tensão. Essa carga é às vezes, um sentimento (medo, desejo de atirar ou fugir) e mobilização fisiológica adaptada à encarnação desse sentimento. Esta carga mobiliza o sistema hormonal, nosso metabolismo, nossa circulação sanguínea, nossa respiração para sustentar logisticamente os sentimentos e as ações que devemos inevitavelmente vivenciar para garantir nossa sobrevivência. b) uma descarga, uma expressão do que podemos chamar aqui de agressão. Estas duas fases são comumente mencionadas na literatura (Fraisse por exemplo). Mas, como mostra a história do missionário, a expressão não é o fim de um movimento emocional. Depois da expressão, ou depois de um momento vivido sem que uma expressão tenha podido ser feita, o organismo procura reencontrar um estado de equilíbrio psicofisiológico que lhe permite abordar situações que constantemente se apresentam a ele com forças renovadas. Na Gestalt-terapia falamos da necessidade de ‘terminar’ uma relação emocional com uma situação. Gerda Boyesen mostra que esse retorno a um estado de equilíbrio é mais complexo do que pensamos, e que o seu desenvolvimento terá um papel crucial no nosso desenvolvimento (Heller, 1989). Se esse retorno não ocorrer de forma relativamente rápida (durante o dia, eventualmente na semana), o organismo não encontra mais exatamente as mesmas possibilidades psicorgânicas precedentes. Nós somos, então, literalmente marcados pelo episódio que acabamos de vivenciar. Para descrever essa última fase, Gerda Boyesen utilizava o termo proposto por Reich e Lowen (1977, p 81): o da energia azul. Em seu livro “Psyché & Soma” (Psique & Soma) ela também admite o termo proposto por Joelle e Paul Boyesen de ‘defluxo’. Colocando todas as fases de uma experiência emocional juntas, é o que Mona-Lisa Boyesen chama de ciclo emocional vasomotor. Este nome enfatiza que em psicologia biodinâmica a expressão está ligada ao sistema circulatório (Boyesen G. 1985, p.48 – 57), tanto quanto ao sistema neuromuscular. De fato, para Gerda Boyesen é toda a dinâmica dos fluidos do organismo que é mobilizada por nossa vida emocional. Já nos anos 60, ela se interessa mais pelos fenômenos hormonais do que pelos fenômenos nervosos… sendo estes levados pelos fluidos. A relação de carga (ou fluxo) e defluxo, quando contrariada, pode gerar dois sistemas de defesa: – O primeiro mecanismo é bem conhecido em terapias que utilizam as formulações de Reich. Paul Boyesen o utiliza para descrever a noção de encapsulamento. Parte-se da idéia de que uma mobilização psico-orgânica não desaparece, de qualquer jeito. Os mecanismos encarregados da eliminação de uma tensão parecem ser particularmente bem desencadeados quando houver uma expressão satisfatória. Se a expressão não ocorre, a carga se mantém no organismo na forma de encapsulamento psico-orgânico. O encapsulamento: a) se faz mantendo-se alguns músculos cronicamente tensos (aqueles que se mexeriam com a expressão); b) ele retém a energia mobilizada e consequentemente priva enquanto existir o organismo desta energia; c) ele retém um ‘afeto’ e uma lembrança (uma situação). Se a repressão desta expressão é devida a um fator recorrente, o organismo protegerá este encapsulamento; I) impedindo que os músculos e as emoções relacionados com a situação cronicamente reprimida sejam novamente utilizáveis; II) armazenando neste encapsulamento todas as novas cargas similares … o que o fortalece e; III) impedindo quaisquer movimentos interiores que poderiam despertar as situações encapsuladas. – Uma das originalidades do modelo de Gerda Boyesen é ter mostrado que – felizmente para nós – a expressão não é a única maneira de desencadear mecanismos de defluxo. A dissolução dos encapsulamentos feitos durante um dia pode também ser desencadeada pelo relaxamento, o sono, os sonhos, etc. através de mecanismos relacionados ao psicoperistaltismo. Em técnicas de massagem desenvolvidas por Gerda Boyesen, a massagem dos músculos tenta afrouxar os encapsulamentos, isto é, o sistema de defesa de uma pessoa, o que reprime a nossa possibilidade de expressar os sentimentos relacionados a determinadas situações. Ao agir sobre os fluidos, por outro lado, o movimento da energia vai aumentar no organismo, e garantir que os fluidos se movimentem contra o encapsulamento. Em seguida, há um aumento da pressão sobre o sistema de defesa. Ao massagear com o estetoscópio, vamos sobretudo procurar quais tensões podem ser dissolvidas sem precisar forçosamente passar pela expressão – ou deixar para as tensões o espaço de procurar por que meios elas poderiam enfim se dissolver (este meio pode notadamente ser o de expressar cargas enterradas). A idéia por trás dessas massagens é também restabelecer os mecanismos naturais permitindo a dissolução das tensões que poderiam ter-se inibido por experiências anteriores. Se o defluxo não vem, a tensão só pode se manter. Por exemplo, quando repreendemos uma criança, e a criança chora, e nós lhe proibimos de chorar …nós cortamos, ao mesmo tempo, sua capacidade de se regular. Gerda e Paul Boyesen nos repetiam constantemente que podemos dar um tapa, mas não um segundo tapa logo a seguir. O tapa machuca, mas ainda há uma reação possível. O segundo tapa dá medo, corta o ciclo vaso-motor e impede a eliminação pela expressão. Além do mais, se uma pessoa comece a ter medo de não poder se regular, ela vai colocar toda a tensão no organismo por uma mobilização crônica do reflexo de sobressalto (startle reflex), que vai inibir outros modos de desencadear o defluxo para os encapsulamentos em questão. Na história do missionário, uma culpa excessiva poderia impedir que o ciclo vaso-motor se completasse (Boyesen G. 1985, p.43 – 44, 133-138; Boyesen M.-L. 1978). Tudo isso é dito com certa prudência, pois é possível que cronicamente a educação de uma criança lhe permita entrar no defluxo sem passar pela expressão, e que seja criado a partir daí um padrão neurótico. Durante este curso, a palavra emoção é utilizada para raivas e desejos de bater ou gritar, para a tristeza e a necessidade de chorar, mas também para o desejo de encostar a cabeça. Ela também é usado a propósito da necessidade de se expressar, de se retirar, de se calar, de se movimentar, de dançar, de respirar, de dormir. Mas no mundo relativamente Rousseauniano (= mito do bom selvagem = mito da boa personalidade primária ou inata) o estatuto das palavras como ódio, desdém, desgosto era rapidamente colocado sob o tapete chamado personalidade secundária (= formada pela sociedade malvada geradora de neurose (Southwell 1979). II. As Emoções: alguns grandes autores ‘… Mesmo se nós não sabemos o que é o ‘afeto’.’ (Freud traduzido em Haynal 1991, p.68) ‘Um enigma ronda a região dos ‘afetos’.’ (Freud a Fliess em 1899/11/07) Eu aprendi muito com os ensinamentos de Gerda Boyesen sobre as emoções e a dinâmica deles, mas há um ponto que ela não foi capaz de me ensinar: o que são as emoções. Seu modelo de gestão das emoções pode tanto se aplicar à pressão de necessidades instintuais quanto emocionais; e ela não consegue dar conta das emoções ditas ‘negativas’ … de onde, tradicionalmente, se exclui a agressividade (Perls, 1951). Quando eu digo isso, eu não estou tentando apontar uma falha na teoria de Gerda Boyesen, pois, como veremos durante esta conferência, parece mais provável que é toda a espécie humana que não tem (ainda?) um sistema cognitivo suficientemente evoluído para compreender a dimensão emocional do que vivenciamos. Gregory, em seu ‘Oxford Companion to the Mind’ (Companheiro Oxford para a Mente) gosta de salientar que as emoções não só embaralham a inteligência de cada um, mas também de todos aqueles que buscam estudá-las. Essa incapacidade é tão flagrante que se pode dizer que qualquer um que diz saber o que são as emoções e como gerir as emoções, e que inclui esse tipo de linguagem em seu ensino, é, por definição, um charlatão. Em compensação, desde o início de nossa história, temos adquirido uma série de idéias e perguntas sobre o que são as emoções, que sem permitir de guiar as pessoas, ainda podem nos ajudar. Uma das grandes qualidades de Gerda Boyesen é defender com todo o seu coração o que ela descobriu sobre o funcionamento das emoções, e não procurar definir o que ela não sabe mais do que qualquer um de nós: a interface pela qual nós nos regulamos emocionalmente de forma espontânea, independentemente do que os especialistas pensam a respeito. Na literatura contemporânea, a palavra emoção é usada para referir-se a fenômenos que vão desde o instinto (por exemplo, a fome) até o que Henry James (1890/1983, p.1082 – 1086) chamava as emoções sutis (sentimentos morais, intelectuais e estéticos), como o prazer do matemático frente a um belo raciocínio, o desejo de ser livre, ou a necessidade de fraternidade. Dentro desta área, que pode ser descrita de afetiva, a relação entre o sinalizado e o sinalizador varia de autor para autor. Alguns autores falam das seis emoções: por exemplo, ser feliz, a raiva, a tristeza, o desdém e a repugnância. Outros dão outras listas e/ou outros números. Encontra-se aqui também feliz, triste, insatisfeito; mas os autores não chegam a um acordo entre si sobre se o medo é uma emoção ou não. Em psicologia biodinâmica, especialmente no ensino de Paul Boyesen, insiste-se sobre a diferença entre sentimento e expressão. Mas como para outros autores especializados na bioquímica das emoções (Pert, 1988) esta distinção está associada tanto à sede que à raiva. Em suma, o significado da palavra ‘emoção’ é altamente problemático. Le Petit-Robert fala 1) ‘de movimento de agitação de um corpo coletivo, que pode evoluir em distúrbios’; e 2) ‘de reação afetiva, geralmente intensa, que se manifesta por uma variedade de distúrbios, especialmente de ordem neuro-vegetativa (palidez ou rubor, aceleração do pulso, palpitações, sensação de mal estar, tremores, incapacidade de se mover, agitação.’ Reich associa etimologicamente ‘emoção’ a ‘êxodo’ e ‘projeção’. Lowen (1977, p.24, 106) parte do latim ‘ex-movere’ para sugerir à direção de um movimento ‘para fora’ … que seria ‘sinônimo de descarga’. Pela mesma lógica, a palavra agressão significa ‘se mover em direção a’. Meu pessimismo tem limites, e eu ainda espero que, no futuro, poderemos vir a identificar o que são as emoções. É com essa esperança que eu irei apresentar-lhes alguns textos sobre as emoções, com a idéia de que, em seguida, vocês realmente vão querer lê-los mais profundamente e, sobretudo, perceber que o domínio emocional é uma área que requer toda a nossa atenção. Muitas vezes, de fato, as pessoas apelam para uma moral, uma tradição, uma religião, regras de boa educação, uma escola de psicoterapia de hoje, uma receita sobre como gerir as emoções. Muito frequentemente, as pessoas assumem que o assunto está esgotado quando se diz que é o animal em nós, e param de pensar a respeito para se encontrar … francamente falado na merda! Escolhi estes autores, porque me estimularam profundamente, e porque eu tenho a impressão que eles poderiam enriquecer as discussões que atualmente animam a psicologia biodinâmica … especialmente nas escolas francesa e alemã de análise psico-orgânica. II.1 Spinoza A primeira pessoa sobre a qual eu gostaria de falar é Spinoza. Ao ler os filósofos desde Descartes até Kant, percebe-se que eles dão um lugar importante (em número de páginas) às paixões sempre que tentam falar do ser humano. Desde Kant, que colocou a razão na fonte de nossa humanidade, ao escrever sobre o ser humano, não se fala mais das paixões. Este se tornou um assunto relativamente pouco atraente, que merece poucas páginas e ainda menos os créditos da investigação. Spinoza viveu logo após Descartes e muito tempo antes de Kant. Aqui estão alguns elementos que me permitirão situar rapidamente este personagem exótico e de bom coração. Spinoza era filho de um rabino na Holanda do século XVII, onde vários cidadões já estavam lutando pela democracia. Os judeus naquela época eram quase tão impiedosos com aqueles que deixavam de acreditar em Jeová que os inquisidores católicos e os protestantes. Independente, de espírito muito jovem, Spinoza se recusa a aderir a uma religião, e supor que Deus só poderia ser o que alguns grupos humanos dele pensam. Ele prefere pensar que Deus é o Universo, que o Universo é Deus, e nós conhecemos Deus tão precisamente quanto conhecemos o Universo. Este quadro o leva a pensar que um indivíduo, e o que acontece nele são necessariamente criados por Deus (por ter sido gerado neste Universo). Assim, ele passa a militar para o respeito integral de cada indivíduo, de seus anseios, de suas emoções, de seus fantasmas … de seu modo de ser. Em outras palavras, ele também milita contra todos os pensamentos que visam ‘aperfeiçoar’, contra todos os pensamentos que não podem aceitar um indivíduo tal como é. Tornando-se o filósofo da corrente democrática holandesa, ele mostra que a democracia só pode ser construída, iniciando com a noção de que um cidadão é forçosa e desejavelmente emocional. Logo falarei sobre Hume que vai na mesma direção, embora para ele agimos forçosamente a cada momento emocionalmente, de maneira irracional e parcial. As conseqüências dessa visão são que não podemos, como Jean-Jacques Rousseau sugeriu, construir sobre uma noção como àquela de contrato social entre egoísmos. Porque para ser egoísta, é preciso pelo menos ter uma atitude racional frente aos seus interesses … o que o homem é emocionalmente incapaz de fazer. Hume também acredita que uma democracia deve incluir o lado passional do homem em sua definição da democracia, ao invés de construí-la sobre uma visão ilusória do cidadão. A mensagem destes filósofos aos psicoterapeutas é clara: o cidadão tem o direito de ter uma vida emocional movimentada, o cidadão tem o direito de ter problemas. O livro mais famoso de Spinoza é sua obra “l’Éthique” (Ética). O essencial do que ele tem a dizer a respeito de Deus, sobre o indivíduo, sobre as relações entre o indivíduo e Deus, e sobre a função das emoções está aí descrito. Este livro é muito difícil de ler. Felizmente, ele resume o essencial de sua teoria sobre as emoções em seu “Traité sur l’Autorité Politique” (Tratado sobre a autoridade política), agradável de ler. Neste livro, ele aborda menos profundamente a relação entre Deus e o indivíduo, para aprofundar o seu pensamento sobre as relações que poderiam unir os indivíduos em uma sociedade democrática. Para Spinoza a realidade é constituída de camadas paralelas, sem nenhum contato entre elas, e que só interagem entre elas através de Deus. Assim, o pensamento é uma camada de fenômenos independentes daquela que consiste de movimentos corporais. Um pensamento não pode mover diretamente um braço, um movimento do braço não pode influenciar diretamente um pensamento. Spinoza usa a palavra ‘affectus’, que eu traduzo como ‘afeto’. Eu não sabia isso quando li uma tradução, onde a palavra ‘affectus’ era traduzido como ‘emoção’. No início de seu capítulo sobre o ‘afeto’ na “Etique” (Ética), Spinoza se surpreende que o ‘afeto’ é descrito por muitos autores como ‘coisas que seriam fora da Natureza’. Melhor, diria-se que eles concebem o homem na Natureza como um império dentro de um império. Porque acreditam que o homem perturba a ordem da natureza ao invés de segui-la, que tem sobre suas próprias ações um poder absoluto e que é só determinado por ‘seus pensamentos’. Ele fica surpreso pelo fato de que esses escritores odeiam tudo o que os impede de dominar a si-mesmos, notadamente as suas emoções. No entanto, essas não podem ter sido implantadas por Deus tão fortemente em nós apenas para nos irritar. Deus não brinca com tais jogos. Seria melhor tentar ver para o que realmente servem as emoções, ao invés de tentar tirá-las perpetualmente de nossa mente. Para Spinoza as emoções têm uma função crucial: a de conectar a camada dos pensamentos àquela da corporalidade … conexão que vai dos pensamentos para os gestos, e dos gestos aos pensamentos. Em outras palavras, é apenas através da conexão a algo emocional que um movimento começa a influenciar o curso e o conteúdo dos nossos pensamentos, e que só o é na medida em que nossos pensamentos se relacionam a uma emoção que eles se tornam capazes de influenciar o nosso funcionamento corporal. A definição de Spinoza sobre o ‘afeto’ está muito próxima das teorias atuais sobre as emoções. O ‘afeto’ é o que ‘afeta’ o corpo humano, aumentando ou diminuindo o seu poder de agir. Esta modulação das forças contidas no corpo baseia-se no resultado da análise que a razão faz da situação em que o organismo age. Quando a análise da situação for adequada, as emoções produzem uma ação; quando a análise for incorreta, nossas condutas se tornam o que ele chama de uma paixão. Em todos os casos , o ‘afeto’ só dá uma mão forte às ações que necessariamente surgem de uma certa análise cognitiva do ambiente. Em outras palavras, nunca são as nossas emoções que estão erradas, mas, eventualmente, nossos raciocínios. Finalmente, Spinoza também diferencia passividade da mente e atividade da mente. Quando somenteas causas que são conduzidas para nosso organismo forem a fonte de nossos ‘afetos’ e de nossas ações, há passividade. É somente por uma atividade interior que o homem pode encontrar a capacidade de ser livre, isto é, ser a causa de alguma coisa. A depressão seria uma queda total do ser nesta passividade, uma súbita incapacidade de gerar em torno de nós eventos que teriam como causa primária nossas necessidades (tanto pulsionais como estáticas). II.2 Hume Hume é um homem muito diferente de Spinoza. Inglês da segunda metade do século XVIII era um jovem brilhante que o sabia e mal suportava as críticas. Aos 25 anos, havia terminado a sua grande obra filosófica: o Tratado da Natureza Humana. Ninguém se interessou por este livro. Irritado, Hume escreveu uma versão suave do Tratado: Ensaios sobre a Natureza Humana. Embora somente os Ensaios tenham sido publicados em edição de bolso, este é o tratado que eu o convido a ler … especialmente porque é sobretudo neste livro que Hume apresenta suas idéias sobre ‘as paixões’. No tratado, com todo o brilhantismo e a paixão que pode ter um jovem imbuído de si mesmo, Hume varre séculos de discussões filosóficas européias, e constrói um sistema que lhe permite ser ele mesmo sem complexo, e que ele pode controlar totalmente. É tão bem sucedido em seu empreendimento, que pouco antes da Segunda Guerra Mundial, Husserl, o pai da fenomenologia, escreve que Hume foi o ‘enfant terrible’ (menino terrível) da Europa, que nenhum filósofo desde então pôde assumir. O modelo de Hume começa por supor que existem apenas dois tipos de fenômenos mentais básicos: as impressões e as idéias. As impressões entram com força e violência na mente na forma de sensações, paixões e emoções. As idéias são imagens mentais inicialmente fracas produzidas pelo pensamento e raciocínios. Sempre que uma impressão penetra na nossa mente, ela sempre se associa a uma idéia. Então, nós nunca vemos em nós vermelho sem também que surja a idéia do vermelho, mas a impressão é sempre mais poderosa do que a idéia. A partir desta base, idéia e impressão simples combinam, associam-se entre si em função de regras bastante simples (contigüidade temporal semelhanças, etc.) para formar impressões-idéias complexas. Hume mostrou aos europeus que a realidade que percebemos é uma construção mental, nitidamente distinta da realidade (tão interior quanto exterior): nossos sentidos extraem da realidade indícios a partir dos quais a nossa mente reconstrói uma visão da realidade (os neurologistas hoje só podem confirmar esta visão das coisas). Isto levanta o problema de como nós podemos sentir quando a nossa representação está correta. Hume é claro neste ponto: nós não temos os meios de saber quando nossas representações são próximas da realidade. A única ferramenta de que dispomos é uma sensação de intensidade ligada a uma representação; e a ilusão de que quanto mais a representação for intensa, mais ela se alimenta de nossas impressões, mais ela é verdadeira. Este modelo explica como a publicidade e as mídias de massas podem influenciar o menor recanto de nossa vida psíquica. Um exemplo: o conceito de Deus. A noção de criador do Universo tem nela, em um primeiro tempo pouca carga, pouca intensidade. Neste ponto, não se associa essa palavra à impressão toda afetiva da verdade. Mas se a palavra ‘Deus’ for associada a uma bela imagem que carrega os sentidos, então – por associação – a palavra Deus terá mais ressonância em nossas mentes. Se, em seguida, é associada ao poder próximo do transe dado pelas respirações, gestos e cantos em comum, feitos na frente de um belo objeto de ouro esculpido como certos crucifixos, nossos sentidos associam então a Deus tantas forças interiores que a palavra ‘Deus’ ressoa dentro de nós como uma verdade profunda e inegável. Da mesma forma, a idéia de causalidade é reduzida em Hume a uma associação gerada em nós por hábitos sociais para explicar certos fenômenos. Com humor, ele constata quando ele empurra um copo contra outro copo, na verdade ele vê dois copos mover-se. Mas ao virar em vão cada copo em todas as direções, ele não vê em nenhum lugar algo que se pareça com uma ‘causa’ e um ‘efeito ‘. Mas se olhar em vão copos bonitos sob todos os ângulos, ele não vê nada que se pareça a uma ‘causa’ ou um ‘efeito’. Como a relação ‘causa-efeito’ não penetra em nossos sentidos, ela só pode adquirir a sua força por mecanismos afetivos semelhantes aos que nos fazem acreditar em Deus. Embora ateu, Hume simplesmente se contenta em dizer aqui o que Kant (crente) vai tentar fazer digerir a toda a Europa: a nossa razão não é capaz de concluir sobre a existência ou não-existência de Deus. O sistema que Hume forja para falar das emoções também é tão radicalmente claro e simples que àquele que ele se forjou para a mente. Ele constrói o seu primeiro sistema sobre um par de emoções: orgulho – vergonha, porque essas emoções dizem respeito a si mesmo: só se pode construir sentimentos positivos para os outros a partir de um orgulho de estar com o outro. A humilhação de estar com o outro só pode gerar emoções negativas em relação a ele. Num determinado momento, só pode haver honra ou humilhação. Posso-me sentir humilhado durante um segundo e ter honra no próximo segundo. Mas eu não posso, num só momento sentir os dois. Com determinação, Hume se contenta de definir uma emoção como caracterizada pela sensação que ela evoca em nós. O que há por trás da particularidade de uma sensação não o interessa, porque, ele concede, trata-se aqui de mecanismos desenvolvidos pela natureza. O que faz bem ao outro quando estamos aqui varia de uma cultura para outra, ao contrário, tão logo a mensagem ‘Você me faz bem’ é enviada a alguém, este se sente automaticamente orgulhoso, se compartilharem o mesmo sistema de valores. Veja um exemplo: os turcos gostam das mulheres bem gordinhas. Se um turco diz a uma mulher turca ‘você é linda’, esta mulher se sentirá orgulhosa. Mas se o mesmo turco diz a uma mulher parisiense gorda (onde a norma é ser magra) ‘você é linda’, ela pode se perguntar se o turco não está tirando um sarro dela, e sentir vergonha. Num determinado momento, no sistema de Hume na frase do turco uma mulher só pode reagir em primeiro lugar por vergonha ou orgulho. Há algo aqui muito diferente do discurso habitual da psicoterapia, que geralmente começa com a necessidade de amor. Em psiquiatria, por exemplo, ainda hoje, é raro que o paciente seja considerado com todo o respeito devido a um cidadão em uma democracia. Mas segundo Hume, se não houver orgulho, nada de positivo pode ser construído em alguém. E eu confesso que estou totalmente de acordo com Hume sobre este ponto. Sobre este sentimento que temos com nós mesmos quando estamos com alguém, é construído em seguida o sentimento que temos um pelo outro. Ainda com determinação, Hume só vê duas opções: se eu me sinto honrado de estar com alguém vou sentir amor por essa pessoa; se eu sentir vergonha (não honrado) quando estou com alguém, vou sentir ódio por essa pessoa. E ponto final. Todo o resto é apenas palavreado. É apenas quando esta cadeia for admitida que se pode considerar associações mais complexas de emoções. Este modelo pode parecer muito brutal, mas garanto que, no calor da ação, ele pode se revelar diabolicamente prático para entender um dos nossos clientes, até nós – mesmos. Hume recusa claramente a admitir que poderia haver amor sem orgulho, ódio sem humilhação … e essa convicção muitas vezes me ajudou no meu trabalho, especialmente quando eu estava trabalhando com adultos que haviam sido abusados quando crianças, e que se recusam de ver seja o amor ou o ódio que eles sentem por seus pais. Note-se que neste sistema uma pessoa sozinha não pode nem amar, nem sentir orgulho. O sistema epistemológico de Hume é um dos antepassados da teoria atual dos sistemas, já que ele não podia conceber que se possa definir um objeto sem conhecer as relações que, inevitavelmente, o ligam a outros objetos. Para Hume, é impossível conceber a existência de um objeto fora de um universo, e ele foi sem dúvida o primeiro a conceber as consequências de tal visão. Para Hume, é impossível só existir um homem só … caso contrário, nós não teríamos nem nascido. Agora temos uma cadeia que liga a) como nós nos sentimos, e b) como sentimos o outro. Isto nos leva a um terceiro ponto c) o que nós expressamos. Ainda com determinação, Hume supõe que se nós amamos ALGUÉM, expressaremos necessariamente este amor, tentando fazer o outro se sentir ainda melhor conosco, para que este, por seu comportamento, reforça a estima que temos de nós mesmos. Isto é o que Hume chama expressar solicitude (ou carinho) para o outro. Por outro lado, vamos sentir em relação àquele que nós odiamos uma vontade irresistível de eliminá-lo de nossas vidas. É assim vamos expressar necessariamente, ao nível das emoções básicas, segundo Hume, agressão contra a pessoa que odiamos. Este mecanismo torna-se especialmente relevante quando admitimos que somos mais do que dois, porque, então, temos de assegurar que o outro prefere ficar consigo mesmo e não com um terceiro. Este é, na verdade, na medida em que uma pessoa prefere ficar consigo mesma e não com uma dos bilhões de outras pessoas existentes, que se pode compreender o orgulho inevitável que nós tiramos dos sentimentos positivos do outro. Se vocês entenderam cialis tolerance o que acabo de resumir, você verá que com uma linguagem mais simples que a do Freud, o sistema resume admiravelmente o essencial do que o Freud chamará o ‘complexo de Édipo’. O fato de viver em sociedade implica que o outro tem necessariamente a possibilidade de escolher outros que nós, o que torna necessário não só a tentativa que é o amor, mas também a sua força. Assim, o terapeuta humiano nunca admitiria que uma expressão agressiva recobrisse – ao nível das emoções básicas – amor, ou que a solicitude recobrisse – ao nível das emoções básicas – ódio. Entretanto, ele não tinha pensado sobre os fenômenos de camadas propostos por Reich em sua análise do caráter. Mas a análise de Hume continua sendo útil se for associada com a noção de situação como define Paul Boyesen (1992). Hume criou o seu sistema, há 200 anos, mas ninguém desde então, que eu saiba, recordou que distinguir a realidade da representação que dela temos tem consequências importantes para quaisquer teorias da expressão emocional (a não ser que se admita como Leibniz e os inatistas uma ‘harmonia preestabelecida’). Hume, ele, não se esquece que, por definição, cada um se expressa apenas em relação à imagem que tem do outro. Você vê, quase se poderia pensar que Hume é um vulgarizador genial de Freud. Mas não, ele concebe de maneira mais simples coisas que Freud tinha dificuldade em apreender. Para Hume, a projeção não é um mecanismo patológico, é o único modo possível de funcionamento. Uma das conseqüências dessa visão é que, por definição, cada ato, cada expressão é feito ‘às cegas’. Cada vez que você dá início à sua motricidade, você o faz sem ver o objeto visado, uma vez que você só percebe uma visão construída por você desse objeto. Uma expressão é ,portanto forçosamente um risco tomado, um gesto que é enviado em uma gruta obscura e desconhecida, que será percebida por uma pessoa real cujas reações eventuais (ou falta de reações)só podemos adivinhar. Por definição, qualquer tentativa de seduzir ou agredir é uma aventura. Somente os feedbacks que você receberá depois de fazer um gesto poderão fornecer-lhe informações sobre o que você se atreveu a fazer. Devemos, portanto, admitir e aceitar que, mesmo com alguém que vive com você há 50 anos, você assume um risco cada vez que você se expressa, e que o outro não deve subestimar a necessidade de enviar feedbacks de volta. Em outras palavras, como psicoterapeuta, nunca se deve pedir às pessoas se expressarem, negando o risco que todas as expressões comportam. Em Hume as idéias são caóticas, a verdade múltipla e impalpável. A razão, portanto, só pode permanecer na ambivalência e constatar a infinidade de opções que podemos fazer em cada situação. Em outras palavras, a razão nunca pode nos propor a fazer um gesto ao invés de outro. ‘E, contudo eu janto, eu jogo um jogo de ‘gamão’, eu discuto, e me divirto com amigos.’ Nós finalmente chegamos a uma conclusão muito próxima da do Spinoza. As idéias não nos fazem se mover. Mas a visão é mais caótica, já que as nossas idéias nem são mesmo ‘lógicas’; e a visão é mais impulsiva, porque em última análise, as nossas emoções, impacientes por nada fazer, escolham o plano de ação o mais elaborado em nossa imaginação e fazem movimentar o nosso corpo em função deste plano, já que precisa fazer alguma coisa. Para Hume, não há nenhuma patologia aqui, nenhuma neurose, mas a humilde constatação que é assim que o homem funciona. Disciplinas como a psicanálise escondem uma enorme onipotência quando apresentam como patológicos certos traços da humanidade que anteriormente moralistas como La Rochefoucauld apresentavam com humor. Consideram a moda atual que reina sobre os ‘bordelines’ (limites fronteiriços) tais como definidos por Kernberg. Pessoalmente, eu acredito que quando ele fala sobre a divisão entre, por exemplo, a imagem do bom e mau pai, ele estava se referindo a casos em que essa divisão é particularmente evidente e violenta. Mas hoje, assim logo constatada certa uma falta de coordenação entre diversos aspectos de nossas representações de um mesmo objeto, já se fala de ‘limite fronteiriço’. Tabela 1: emoções para Hume Coluna I Coluna II Coluna III em direção a si-mesmo para a outra expressão honra amor solicitude vergonha ódio agressividade II.3 Darwin Charles Darwin escreveu apenas dois livros. O primeiro, do qual todos vocês já ouviram falar, é aquele em que ele mostra que todas as espécies vivas são o produto de uma história biológica única, funcionando sem a participação de Deus, segundo regras que o cientista pode descrever: as do acaso e da necessidade. Em um segundo livro “L’expression des émotions chez l’homme et l’animal” (a expressão das emoções no homem e no animal), publicado em 1872, empolgante e agradável de ler, Darwin vai mais longe ainda, tentando mostrar que essa história biológica também forjou, pelo menos em parte, as nossas almas. Ele toma como exemplo a gênese da função e das expressões de nossas emoções, e mostra notadamente que certas expressões emocionais do homem têm uma função idêntica em outras espécies, como as dos macacos e das feras: por exemplo, certa forma de mostrar os dentes tem sempre uma função agressiva. Este livro tem ainda hoje em dia grande influência, por ser especialmente a base em que Lorenz e Tinbergen criaram a etologia. Esta obra exerceu também uma influência considerável sobre a psicofisiologia, porque desde Darwin a experimentação parece estar usando de maneira quase não diferenciada dados colhidos sobre ratos e dados colhidos por meio da observação dos humanos. Finalmente, este livro influenciou muito Tomkins e Ekman, que desenvolveram métodos de análise do que um rosto pode expressar, e a partir disso desenvolveram estudos sobre a expressão emocional. É também uma das poucas obras acadêmicas sobre o comportamento emocional que Reich e Lowen citam regularmente. Darwin, cavalheiro Inglês durante o reinado da Rainha Vitória, levava as suas idéias menos a sério do que alguns dos seus discípulos. Como frequentemente, quando se lida com um especialista do psicocorporal, ele não era um membro reconhecido pelo mundo acadêmico. Mas era rico o suficiente para pagar pesquisas que, mais tarde, se tornaram um dos fundamentos do pensamento científico, e em seguida, de nossa cultura. Depois de ter dado uma volta ao mundo, ele pode ter se encontrado um dia, no conforto de seu Clube em Londres. Feliz por finalmente poder ler um jornal no dia de sua publicação, no conforto de uma enorme poltrona, ler os resultados das últimas corridas, saboreando um charuto, e o silêncio regulamentar em qualquer clube que se preza. Mas, precisamente no momento em que em seus pensamentos, depois de beber um copo de conhaque, ele se regozijava por estar de volta à civilização, aconteceu que o criado hindu que servia as bebidas naquele dia, tropeçou e derramou o conteúdo de sua bandeja sobre o Coronel Bumblebee. O Coronel Bumblebee, fez a sua carreira no Exército das Índias. Foi aposentado na idade regulamentar, embora se considerasse ainda em plena forma. Suportava mal as intermináveis chuvas londrinas, e ter que se comportar constantemente como um cavalheiro de salão. Por isso, ficou bem contente de ter um pretexto para bradar como um demônio, e expressar tudo o que ele estava tentando controlar desde a sua volta das Índias. Seu rosto ficou rapidamente vermelho, ele mostrou os dentes, esbravejou, lançou palavrões, se moveu em todas as direções, bateu os pés … e Darwin não pôde deixar de associar o comportamento do coronel Bumblebee a certos comportamentos que havia observado nas selvas e savanas que acabara de visitar. Divertindo-se, ele talvez se perguntou neste dia se não havia em nós antigos restos, um pouco como nosso cóccix é uma lembrança de um rabo de macaco, que às vezes nos fazem agir. Esta formulação está muito longe, você notará, da afirmação muitas vezes feita hoje em relação ao nome Darwin (por Lowen, por exemplo), pela qual é desejável que nós agíssemos de acordo com estes ‘restos antigos’ em nosso dia-a-dia. No entanto Darwin admite que o sistema inato de expressões emocionais é um poderoso sistema de sinalização, na medida em que também é possível supor que temos um sistema inato para decodificar essas expressões que funciona a partir da mais tenra idade. Em outras palavras, uma expressão emocional do tipo ‘simiesca’ mobiliza quase automaticamente a psicofisiologia daqueles a quem este termo é atribuído. Outro aspecto ainda não totalmente digerido desta obra envolve fenômenos obcecados pelo fisiologista Inglês Bell no início do século passado, entre as relações expressão e circulação sanguínea. Bell (p.157-160) mostra notadamente que certas expressões fazem pressão sobre o olho para dar apoio e defender a sua vascularização. Quando uma pessoa emocionada expira contraindo o peito, a circulação venosa no pescoço e na cabeça é retardada … o que poderia causar grandes danos ao olho se a circulação deste não fosse ela própria regulamentada pela careta. Estas considerações mostram que, mesmo se o sistema de expressão emocional não fosse um sistema de sinalização, precisaria assim mesmo levar em conta a grande sabedoria deste sistema no que diz respeito aos efeitos auto-reguladores de todos os comportamentos … sobretudo quando estes exigem mudanças fisiológicas tão grandes e rápidas. Essa linha de pesquisa foi continuada por um médico parisiense no início deste século: Israel Waynbaum, mostrando (Zajonc 1985) que as expressões faciais emocionais teriam um efeito regulador sobre a circulação sanguínea do rosto, e por este meio, influência a circulação no cérebro. Recentemente, Zajonc (1985)tentou retomar estes trabalhos e mostrar que tal influência sobre a circulação no cérebro pode exercer uma influência sobre a dinâmica química do sistema nervoso central, na medida em que ela se relaciona com a termo-regulação efetuada pelo sangue. Esta corrente de pesquisa é rejeitada por aqueles que, contrariando Darwin, defendem uma visão mais neuromuscular da expressão. Há muito mais coisas a dizer sobre o livro de Darwin, notadamente sobre todos os mecanismos, não percebidos por Hume, que fazem com que sentindo uma coisa nós expressamos outra (p 60 -. 65. Mas isso é tudo o que posso dizer-lhes sobre este livro hoje. II.4 Reich Reich é um médico sexólogo que começou a sua prática como psicanalista, após a Primeira Guerra Mundial. Tornou-se quase simultaneamente instrutor de Freud e membro fundador do Partido Comunista da Áustria. Naquela época os psicanalistas estavam preocupados pelo fato de que muitos clientes da psicanálise reviviam as situações traumáticas iniciais e não se curavam. Freud acreditava que este fato era provavelmente devido a análises onde o cliente reencontrava o aspecto cognitivo de uma lembrança, mas não o seu aspecto afetivo. Reich havia constatado em sua prática que o problema evocado por Freud dizia respeito sobretudo a clientes que conservavam, por exemplo, um tom mundano mesmo quando evocavam os momentos os mais dramáticos de sua infância: um homem conta, sorrindo que o seu pai o batia regularmente com ferocidade quando tinha três anos. A pergunta principal que Reich fez no seminário técnico no Instituto de Psicanálise de Viena que ele dirigia, foi a seguinte: como fazer para que, em algum dado momento de um processo psicanalítico, só se trabalha sobre as situações que podem ter sido experimentadas tanto emocional quanto cognitivamente pelo paciente? Reich propõe aos psicanalistas centrar a atenção deles sobre como as pessoas contam o seu passado, e não o que eles contam dele, e só interpretar no material fornecido pelas associações do paciente os elementos cuja carga afetiva pouco é digesta. Por exemplo, um paciente conta um sonho relacionado com uma carga sádica homossexual latente. Se o cliente ainda não é capaz de enfrentar o seu sadismo e sua homossexualidade, Reich aconselha o analista de restringir as suas interpretações a o que o cliente pode assimilar no plano afetivo … mencionando, por exemplo, que esse sonho parece ter uma carga agressiva. Ao analisar, portanto, este sonho, o analista poderia pedir ao cliente tomar consciência de como ele associa esse sonho. Ele tem talvez um tom constantemente educado e hiper-respeitoso para com o analista. Reich descreve vários casos em que tal atenção ao ‘como’ leva a explosões espetaculares de conteúdos afetivos reprimidos, que não podem mais escapar ao consciente do cliente. Assim, poderia acontecer que de tanto ouvir o seu analista falar da polidez excessiva de suas maneiras, o cliente acaba explodindo de raiva contra o seu analista, mostrando-lhe que ele não entendeu nada das regras as mais elementares de polidez, e que, finalmente, ele não passa de um camponês miserável (Reich vinha de um campo muito remoto de Viena) … em suma, o cliente chega a expressar a sua agressão contra o analista … e, enquanto isso, pode aproveitar a oportunidade para deixar filtrar o seu sadismo. Reich lutou para que durante tais momentos o analista deixe explodir esta ira, ao invés de trazer de volta o cliente às boas maneiras necessárias a qualquer interação na Viena burguesa daquela época. Após este episódio ter sido digerido tanto pelo cliente que pelo analista, Reich observa que as características semânticas, vocais e corporais ligadas à obsequiosidade diminuem e às vezes desaparecem. Para Reich grande parte do ‘afeto’ permanece reprimida enquanto as transferências negativas do cliente em relação ao analista não são analisadas. Um analista que não suportaria que o seu cliente sinta e expressa sentimentos negativos em relação a ele (raiva, ódio, desprezo, nojo) não poderia, segundo o Reich de então, atingir a dimensão afetiva do seu cliente, porque esta – como já assinalado por Spinoza – tem uma riqueza que pouco se importa com a estética da nossa razão. Mais tarde Reich acrescentará que não se pode efetuar um trabalho psicocorporal enquanto as transferências negativas permanecerem latentes, e enquanto terapeutas e clientes não tenham estabelecido um clima de confiança real. Dando continuidade a esse trabalho Reich observa que, muitas vezes, algumas atitudes crônicas estão associadas a um conteúdo emocional reprimido … atitudes que só podem ser mantidas por tensões musculares crônicas. Reich é do signo de Áries, impaciente e impulsivo. É ao mesmo tempo a sua fraqueza é a sua força. Assim, impaciente de esperar que venham as associações ligadas à uma tensão crônica que ele observa quase que diariamente, Reich finalmente acaba explorando o que acontece se ele tenta relaxar manualmente os músculos envolvidos. Ele então descobre que esses músculos são como a tampa de uma panela de pressão: tão logo afrouxada, tudo o que era reprimido pela atitude que preocupava Reich explode! Reich deduz que em todos os casos, alguns dos mecanismos descritos por Freud se materializavam sob a forma de tensões neuromusculares crônicas. Em bom marxista, Reich, então, propõe a sua teoria das relações entre corpo e mente, que funcionam dialeticamente como uma unidade funcional. Na célula são observados dois movimentos plasmáticos de base: um movimento em que todos os fluidos corporais deixam o centro do organismo para fazer pressão sobre a periferia do corpo (fluxo), e um movimento em que os fluidos saem da periferia do corpo para se reunir no centro do organismo (refluxo) … provocando uma expansão do organismo, e em seguida uma contração. A alternância deste movimento é a fórmula básica da pulsação característica de qualquer organismo vivo sadio. Nos seres humanos, e provavelmente nos animais, este movimento plasmático é acompanhado por sensações que Reich qualifica de emocionais. A pulsação produz o tipo de prazer frequentemente associado ao estado de graça por vezes sentido durante rituais religiosos. A expansão é associada ao prazer libidinal (à subida da energia da Kundalini Hindu (Ebba Boyesen 1978, 1985)). Uma contração que interrompe o movimento de expansão espontânea cria uma sensação de angustia. Pode-se perguntar se o que Reich descreve aqui é realmente o que chamamos de emoções. Parece-me que se trata mais da dimensão de prazer-desprazer que eu pessoalmente situo em outro nível do ser que aquele onde eu coloco as emoções. Entretanto, aqui também a palavra emoção é associada a uma sensação relacionada a um movimento orgânico global profundo. Nos seres humanos, este movimento também seria tanto quanto global, tanto quando profundo, mas mais complexo: ele implicaria não somente os fluidos do corpo, mas o sistema nervoso vegetativo (a expansão está relacionada com o sistema nervoso simpático, a contração ao sistema parassimpático). Este modelo resulta em uma mente muito diferente da de Spinoza e Hume, porque leva Reich a constatar que a maioria das pessoas não funciona tão bem quanto o que é descrito por seu modelo e, que consequentemente, elas devem ser consideradas como psicologicamente doentes (invadidas pela peste emocional). Assim os cancerosos e os esquizofrênicos seriam pessoas cronicamente bloqueadas na fase de contração. Assim, uma pessoa que não pode expressar regularmente as suas necessidades emocionais e sexuais seria um nazista potencial. De fato, o homem genital … único a ser capaz de ser um ‘verdadeiro democrata’ está muito próximo do ideal dele mesmo que Reich tinha quando adolescente. Em suas memórias de juventude, Reich escreve o seu orgulho de ter iniciado a sua vida sexual aos 11 anos; e parece que ele tinha o dom de fazer amor bem com sentimento, frequentemente … o que não o impediu de ficar deprimido quando a guerra destruiu a fortuna de sua família, e de se tornar um homem jovem bastante parecido com o Hume: genial com certeza, mas também arrogante e veemente. Temos aqui um exemplo do problema a seguir: o nosso comportamento psico-fisiológico é tão complexo que não podemos gerir o que acontece na prática de forma eficaz sem usar um modelo simplificador, que nos permitiria saber o que fazer e quando. A partir deste ponto de vista as análises que permitem o modelo do reflexo orgástico proposto pelo Reich mostraram-se extremamente frutíferas. Mas, como mostrado por R.A. Wilson em um livro ao mesmo tempo brilhante e extremamente engraçado, ao levar este modelo demasiadamente a sério, os reichianos acabaram no inferno. Coerente com a sua visão holística do nosso funcionamento emocional, Reich percebeu rapidamente que a liberação interior depende da aquisição de uma liberdade social, e vice-versa. Para Reich, Lenine falhou por ter liberado as leis, porém não achou bom agir ao nível na estrutura do caráter de um povo de moujiks, acostumado a seguir as ordens de um Czar. Então, não cabe se surpreender se este povo, ao invés de abrir mais ainda a liberação proposta por Lenine, preferiu criar par si um jugo talvez ainda mais terrível que o dos Czares: Stalin. Em 1948, Reich já distinguirá o fascismo vermelho do fascismo preto. Além disso, ele não acredita que uma pessoa possa tornar-se mais aberta do que o meio ambiente permite. Assim, muitas vezes a terapia não é apenas um suporte ao orgasmo, mas também um apoio para que as pessoas lutem por um mundo em que elas podem se expressar livremente. O que leva Reich a preferir um processo em várias camadas, que um processo contínuo de vários anos. Reich gastou uma parte do seu salário para apoiar um partido comunista no seio do qual ele criou um movimento de massa para a juventude, em que ele mostrava aos jovens quais eram os seus direitos: direito ao prazer, direito de se expressar, direito de ter criatividade, direito de escolher a sua ideologia. Milhares de jovens ouviram essa mensagem, que finalmente, só passou após a Segunda Guerra Mundial. Apesar de suas falhas, e, provavelmente, também graças a elas, Reich soube criar um quadro de reflexão sobre o ‘afeto’ que se revela cada vez mais certo, conforme a pesquisa avança. Ele foi notadamente um dos primeiros a encontrar uma formulação moderna, útil para o desenvolvimento da pesquisa científica, do que os alquimistas e acupunturistas de outrora haviam encontrado há muito tempo atrás: que nossa vida relacional e social é produzida pela coordenação de todos os níveis da matéria que se entrecruzam no seio de um indivíduo … do átomo à galáxia. O velho Reich foi notadamente um dos primeiros a mostrar até que ponto a atividade química do corpo é mobilizada pelo nosso comportamento diário; e até que ponto o ódio que nos sentimos em relação ao suporte material da nossa experiência também se traduz por um ódio destrutivo contra os suportes materiais da vida e, portanto, contra a natureza. Reich continua a ser para mim uma figura mística, porque depois dele ninguém mais buscou encarnar concretamente o fato que qualquer compreensão de nossa vida afetiva implica uma ação no centro de nossa existência: lá onde os níveis da matéria que nos atravessam se coordenam. II.5 Laborit Laborit é atualmente, em Paris, uma das pessoas das mais inventivas no campo da psicofisiologia das emoções. Suas numerosas obras para o grande público são estimulantes, interessantes, porém infelizmente incompreensivas já que abordam os mecanismos da psicofisiologia. Elas enunciam claramente toda uma série de princípios gerais (sobre os níveis da matéria e sua coordenação, sobre a cibernética, etc.), mas logo que Laborit fala de fisiologia, ele se transforma em uma espécie de velho professor de escola ou um jovem tecnocrata apaixonado (conforme o caso), incapaz de resistir ao prazer de mostrar até que ponto ele domina o jargão de sua profissão. Se você quiser mergulhar na obra do Laborit, aconselho fazê-lo armado de um bom livro de fisiologia. Não será, aliás, tempo perdido porque o caminho que os livros de Laborit o farão percorrer em seu livro de fisiologia é sempre pertinente para um psicoterapeuta trabalhando com o corpo. Eu lhe recomendo um livro de fisiologia tão recente quanto possível, visto que este campo evolui rapidamente. Mais ou menos da mesma geração que Gerda Boyesen, Laborit aborda vários temas que já vimos, depois de ter saído de um campo bastante original, já que ele começou sua carreira como cirurgião na marinha francesa, durante a Segunda Guerra Mundial. A profissão de cirurgião exige: a) um conhecimento mecânico incrivelmente preciso de mecanismos fisiológicos situados em vários níveis de organização da matéria (coordenação entre dados físicos, químicos, bioquímicos, anatômicos, fisiológicos), e b) uma preocupação sobre como um determinado organismo reage diante das intervenções do cirurgião. Depois da guerra, instalado em Paris, Laborit se apaixonou, sobretudo, por este segundo aspecto , utilizando ao mesmo tempo a noção de coordenação dos níveis de uma maneira mais ampla que a maioria dos cirurgiões, uma vez que rapidamente começou a pensar que a coordenação dos níveis hierarquizados da matéria deveria incluir os níveis psicológicos e sociais. Dizer que tudo é ligado a tudo é talvez uma evidência. Porém, Laborit nos convida a uma pesquisa minuciosa sobre os mecanismos que coordenam os níveis da matéria, com a esperança de que seremos capazes de analisar com tanta precisão as relações entre o funcionamento de um órgão e um modo de vida, sendo isto o que o cirurgião faz quando analisa a relação entre processos bioquímicos e processos fisiológicos no seio de uma determinada estrutura anatômica. Por nível da matéria, entende-se a distinção que é feita entre átomos, moléculas, células, tecidos, órgãos, organismos, grupos, cidades, classes, meios ecológicos, planetas, galáxias … Cada nível contém uma estrutura: ou seja uma organização de elementos. O aspecto ‘organização’ faz com que uma estrutura contenha propriedades que não são incluídas nos elementos que a constituem: a água é feita de hidrogênio e oxigênio. Estes dois elementos ajudam individualmente as chamas a se propagarem, entretanto a água, ela, apaga o fogo. A organização aqui teve um efeito que não poderia ser previsto se só tivessem sido levadas em consideração as propriedades do oxigênio ou as do hidrogênio. As estruturas biológicas possuem também, salienta Laborit, mecanismos reguladores cuja forma mais simples é o servomecanismo dos cibernéticos, similar ao termostato. O servomecanismo é sempre regulado por um nível superior àquele da estrutura regulada: é o homem que fixa objetivos ao termostato, e é o termostato que torna estes objetivos operacionais para o radiador. Existe, portanto, segundo Laborit, uma dupla ação entre dois níveis hierarquizados vizinhos: o nível inferior é a matéria a partir da qual o nível superior extrai as regras de sua existência, o nível superior dá um sentido ao que ocorre no nível inferior. Tudo isso é talvez um pouco militar, mas permite ainda hoje em dia gerir de maneira enriquecedora e com precisão a infinidade de dados com os quais se confrontam psicofisiologistas como Laborit. O modelo hierárquico dos níveis da matéria coloca em evidência o órgão, o organismo, o grupo … mas, como pode ele pôr em evidência o psiquismo? Nesta hierarquia, quais são os elementos do psiquismo? Laborit parece ter evitado esta pergunta. Pessoalmente (Heller 1976, 1987), acredito que a única maneira de integrar o psiquismo neste modelo é enriquecer nossa reflexão sobre as relações entre os níveis da matéria …, e lembrar que um nível da matéria possui relações pertinentes com vários níveis da matéria, não somente com àquele que é logo acima e àquele que é logo abaixo. Uma ampla definição do psiquismo seria para mim todas as relações que uma estrutura específica entretém com os outros níveis da matéria; uma definição estreita do psiquismo seria as relações que um organismo humano entretém com os outros níveis da matéria. Laborit elabora este modelo ao tentar aliviar as pessoas que sofrem um grande choque após uma cirurgia. Na minha prática, eu me deparo com uma parte deste problema, pois frequentemente acontece que um de meus clientes deva reviver uma ou duas das cirurgias de sua infância, para poder largar uma contração, um medo que se havia inscrito nele desde então. Esta contração é geralmente devida a tensões no ambiente do cliente, que haviam impedido que se fizesse adequadamente o defluxo, que permite ao organismo digerir o que acontecera. Lá pelo ano de 1945, segundo Laborit, os serviços de cirurgia gerenciavam dificilmente estes estados de choque que apresentavam características evidentemente psicológicas, mas, sobretudo, características fisiológicas muito diversificadas capazes de retardar a cura. Para captar esta diversidade, Laborit passa para um nível superior da matéria, e se pergunta se um organismo não reage a uma intervenção cirúrgica como diante de toda outra forma de agressão contra sua integridade: por uma tentativa de fuga ou de ataque. Talvez o organismo humano só tenha, na base, essas duas maneiras de reagir a uma agressão. Ele percebe em todos os casos que muitos problemas orgânicos provocados pelo estado de choque são devidos a problemas de vaso-constrição que se localizam unicamente no nível de órgãos não indispensáveis à fuga e à luta: distúrbios de irrigação da pele, o fígado, os rins, os intestinos, os órgãos abdominais em geral; enquanto que os órgãos necessários à fuga e à luta, tais como os músculos, o cérebro, o coração e os pulmões não são atingidos. Decorrido certo tempo, a redução no volume do sangue em circulação que resulta de um choque, pode levar a lesões irreversíveis, um acúmulo do sangue em certos órgãos e finalmente à morte. Pareceria, portanto, que ao enfrentar uma agressão, uma parte de nós mobiliza todos nossos recursos para sustentar um comportamento de fuga e ataque; e que esta mobilização dura enquanto o estímulo agressor está presente… mesmo se nem a fuga nem o ataque se revelarem pertinentes. Uma tal mobilização é de um lado custosa e de outro parcial (olhe … novamente a parcialidade assinalada por Hume!), uma vez que certas partes do corpo são sobre-irrigadas e outras sub-irrigadas. Forçosamente é gerada uma situação impossível de sustentar para um organismo. Em uma sala de cirurgia, não só o paciente é imobilizado, mas além disso, é às vezes vital para o organismo que uma cirurgia possa ser feita. Laborit desce agora para o nível bioquímico, para tentar entender o que acontece quando uma mobilização desta do organismo dura por um tempo demasiadamente longo. Uma das recentes descobertas feitas na época era que as reações de fuga/luta são principalmente geridas por neuro-mediadores chamados catecolaminas . Tendo efetuado esta análise, Laborit injeta em seus clientes substâncias que diminuem a atividade das catecolaminas (a fenotiazina, e dos derivados como a clorpromazina). Foi assim que ele descobriu o que nos chamamos hoje de ‘neurolépticos’. Essa invenção valeu ao Laborit o prêmio Lasker. Como para todas as outras pessoas mencionadas neste artigo, Laborit foi pouco apreciado no mundo acadêmico. Porém, suas descobertas lhe trouxeram dinheiro que ele reinvestiu em grande parte no laboratório que ele fundou independentemente das fontes de financiamento habituais na França. Desde então, Laborit descobriu que o choque tinha ainda os seguintes efeitos psicológicos: perturbação do equilíbrio ácido/base e eletrolítico dos fluidos intercelulares de nossos organismos, perturbação de nossa atividade metabólica que coloca à nossa disposição a energia da qual precisamos para viver, fenômenos vasomotores e arterio-capilares que regulam a distribuição do sangue em cada parte do corpo. Ao insistir sobre estes mecanismos, Laborit vai de encontro com as observações feitas paralelamente por Gerda Boyesen, a partir dos dados que pôde recolher a psicóloga-psicoterapeuta-fisioterapeuta que ela era. Prosseguindo em suas pesquisas, Laborit descobre mecanismos análogos na fisiologia das pessoas estressadas pelo seu modo de vida. Esses mecanismos mostram uma interação entre o hipotálamo e a hipófise na base do cérebro mamífero de um lado, e as glândulas supra-renais de outro lado (eixo HHS). Os hormônios esteróides secretados pelas supra-renais influenciam fenômenos vitais como a atividade imunitária e metabólica. Desta forma, as atividades profundas do organismo interagem com o cérebro por intermédio do eixo HHS … indo a interação nos dois sentidos, e de uma maneira tão complementar que um autor denominou sua obra sobre o sistema imunitário “O cérebro móvel”. Quando há estresse, este influencia o eixo HHS de maneira que se estabelece uma forma de equilíbrio psicológico crônico característico das pessoas ‘estressadas’. Em vista de certas obras atualmente em circulação, importa, entretanto, salientar que se foi possível mostrar que certas atitudes emocionais podem modular o curso de certos cânceres (sobretudo o câncer do seio), não foi absolutamente demonstrado que a repressão emocional gera todos os cânceres, ou que expressar a raiva batendo no colchão curará forçosamente um câncer. Laborit afirma que o modo de funcionamento psicofisiológico do homem estressado mobiliza de fato o que ele chama de mecanismo de ‘inibição da ação’. Sua definição se aproxima muito do que nós chamamos de ‘resignação’. Na biodinâmica, avaliamos frequentemente o grau de resignação de uma pessoa pelo número de tecidos (não somente os músculos) hipotônicos, e a qualidade desta resignação pela localização destas hipotonias. Para ilustrar o que ele quer dizer por ‘inibição da ação’, Laborit mostrou a série de experiências a seguir no filme “Meu tio da América”: – Em uma primeira experiência, ratos são colocados em uma gaiola dividida em dois compartimentos. A porta que os separa permanece aberta. A intervalo regular Laborit faz passar eletricidade no piso do compartimento onde o rato se encontra … e, logo antes, ele acende uma luz. O rato aprende rapidamente que cada vez que esta luz se acender, é melhor passar para o outro compartimento. Aqui, a fuga é possível, não há estresse crônico que se instala. Se o rato for submetido em seguida durante sete minutos por dia durante sete dias consecutivos a correntes elétricas, ele apresentará a seguir “uma curva de peso idêntica àquela das testemunhas. A taxa de cortisona plasmática permanecerá estável e ele não sofrerá nenhuma hipertensão arterial”. — “ Se agora a mesma experiência for repetida, mas desta vez mantendo a porta de comunicação fechada, se forem colocados desta vez não um mas dois animais, eles vão se erguer sobre suas patas traseiras na posição de combate e no final de sete dias, os dois animais estarão também em excelentes condições psicológicas, conquanto que um não tenha sido dominado pelo outro. Foram submetidos a todas as punições que o primeiro rato sabia evitar, mas “agiram como combatentes”. — Somente se for utilizado um único rato e a porta estiver fechada que se observa a instalação de um estado psicopatológico grave. O animal se encontra em uma situação chamada ‘sem esperança’ (hopelessness). No começo ele vai se agitar, tentar fugir, mas logo perceberá que isso é impossível. Vai se inibir, se colocar em bola como um novelo, seus pêlos se arrepiarão, e ele não se moverá mais. Depois de sete dias, seu peso diminuiu consideravelmente. Apresenta uma hipertensão que persistirá durante várias semanas. Sua cortisolemia é elevada.” E se o abdômen for aberto sob efeito de anestesia, “notar-se-á numerosas ulcerações sobre a mucosa gástrica, as ‘úlceras do estresse’.” — Uma quarta situação é idêntica à precedente, mas após cada seção de eletrocussão, o rato recebe em seguida ‘um eletro-choque convulsivante seguido de coma passageiro’. Este eletro-choque apaga tudo que se encontra na memória de curto prazo do sistema límbico. E constata-se no dia seguinte que ele não conservou nenhuma memória do que ocorreu no dia anterior. Depois de sete dias, ele está psicologicamente bem. Em outras palavras só há estresse quando há memorização de choques, aprendizagem da impossibilidade de fugir de uma agressão sofrida, e aprendizagem que só resta se resignar e se colocar em ‘inibição de ação’ frente a este estímulo. Mais tarde, Laborit mostra a mesma coisa com uma experiência aparentemente menos dolorosa. Os ratos vivem de noite. Um deles é colocado em uma gaiola com um compartimento escuro, e outro iluminado. O piso do compartimento escuro é eletrificado. O do compartimento iluminado não é eletrificado, e neste compartimento existe todo o alimento e a água necessários a uma vida agradável. O rato se acostuma então a viver na luz. Mas ao fazer isso, alguma coisa se passa em seu corpo. A distribuição de certos receptores de neurotransmissores se modifica, e logo o rato não consegue mais se adaptar ao compartimento escuro agora sem eletricidade no piso. Esta situação me parece mais próxima daquela vivenciada por um bom número de meus pacientes: tiveram que se adaptar a uma situação para a qual não estavam preparados (foram cronicamente mal utilizados; e para se adaptar, tiveram que se transformar tão profundamente, que agora que as situações sociais mudaram, eles têm dificuldade de suportar o que desejavam desde há muito tempo. Durante uma conferência proferida em Lausanne em 1991, Laborit tira ele próprio as conclusões destes trabalhos: se quiserem reduzir as despesas médicas de nossa sociedade, é preciso que esta permita que os cidadões fujam , se expressam agressivamente, modifiquem as situações para as quais não estão preparados e criem situações que lhes permitem viver de maneira criativa. Outro ponto interessante, onde Laborit se junta ao Darwin, é a constatação de que existe um mecanismo relativamente primitivo em nós que reage a cada agressão por uma tentativa de fuga ou de luta. Laborit bem sabe que este mecanismo é frequentemente inadaptado ao funcionamento social prevalecente na Suíça ou na França. Não se pode deixar este mecanismo agir o dia inteiro. Dever-se-ia igualmente evitar se colocar em ‘inibição da ação’. Ao mesmo tempo, não adianta negar a existência destes mecanismos. O que importa, é poder evitar o agente agressor depois de um tempo (daí seu livro: O elogio da fuga). Isso implica um meio social que o permita. Enquanto isso for realmente impossível, Laborit não vê outra solução que de às vezes tomar uma droga suave (natural ou fabricada) sensatamente … o que se aproxima bastante da solução proposta por Gerda Boyesen para circunstâncias análogas: abrir o peristaltismo com a ajuda de uma técnica psico-corporal, sendo essa solução eficaz somente em curto prazo. A expressão emocional Hume havia salientado que a função primeira de uma expressão não é a de descarregar uma pressão orgânica interna, mas obter alguma coisa do outro. Assim, nos macacos, a expressão agressiva entre machos é utilizada como emblema de poder, e permite impedir que eles cheguem às vias de fato (àquele capaz de mostrar que é o mais forte recebe um comportamento de submissão, em seguida tudo volta ao normal). As verdadeiras brigas são, portanto, raras. Laborit e Gerda Boyesen completam bem esta análise quando mostram que uma carga não precisa expressar-se de maneira simiesca para se dissipar. Em compensação, encontrar uma situação na qual o ‘defluxo’ pode ser feito é crucial. Observei pessoalmente que frequentemente as expressões simiescas são utilizadas por pessoas que utilizam este meio para mostrar que fazem parte de um grupo. Por exemplo, quando uma pessoa tem uma grande crise de choro diante de um caixão durante um enterro, ela frequentemente não só expressa sua tristeza, mas também mostra que ela faz parte da vida do morto, e que isso deve ser reconhecido pelos demais. Ou se, em uma família, ocorre uma grande discussão porque papai-mamãe vão divorciar-se, a criança que vai se expressar de maneira simiesca é frequentemente àquela que também quer mostrar que ela realmente faz parte da família, e quer que esta família exista. Em um grupo de Bioenergia, àqueles que se expressam copiosamente sobre um colchão gritando e rasgando nem sei qual parente detestável, mostram sobretudo que aceitaram a técnica. A eficácia das caretas inatas é, portanto, suas capacidades de coordenar a) a psicologia de um indivíduo, b)àquela do outro, c) através de uma interface tanto quanto inata no outro fazendo-o reagir ao repertório simiesco de maneira quase automática. A utilização deste sistema é uma opção de comunicação que só se impõe em certos casos. Outros modos de comunicação (sendo o essencial para Laborit o afastamento do agente agressor, são às vezes mais eficazes. Entretanto, em certas situações terapêuticas onde o paciente toca camadas extremamente arcaicas e regressivas, as expressões simiescas permitem realmente um tipo de esvaziamento psicofisiológico. É o que chamamos de descarga emocional. É então muito importante proteger suas expressões. (Boyesen G. 1985, p.34 – 46). Siegfried Frey montou uma experiência que ocorria em uma sala com porta deslizante. Na sala havia duas telas de televisão e duas cadeiras. Os móveis estavam distribuídos de maneira que quando a porta estava aberta, as pessoas assistindo a televisão se vissem uma à outra. Na televisão passava uma cena assustadora tirada de um filme de Drácula, onde o vampiro ia cravar seus dentes no pescoço de uma pobre menininha inocente. Uma câmara filmava o comportamento das pessoas que assistiam ao filme. Frey observou que quando a porta deslizante abria-se (e que as pessoas se viam), formava-se frequentemente no rosto dos sujeitos uma expressão de terror. Em contrapartida, se a porta deslizante se fechava (os sujeitos não se viam mais), os sujeitos tinham sobretudo um rosto inexpressivo e lívido. Bem se vê aqui que há diversas maneiras de se expressar, e diversas funções comunicativas em uma expressão: a reação psicofisiológica, tentativa de motivar o outro para que ele nos apóie (e assim conservar o poder sobre o que está acontecendo), etc. O efeito serotonina Um neurotransmissor é uma substância química que pode viajar dentro do cérebro e excitar os neurônios que possuem receptores sensíveis a este neurotransmissor. Geralmente, um neurotransmissor pode excitar um conjunto de neurônios localizados em várias partes do cérebro, necessários a um certo tipo de comportamento. As catecolaminas e a serotonina mobilizam cada uma circuitos nervosos localizados nas três partes do cérebro, mas sobretudo nas partes mamíferas e répteis. Na qualidade de hormônios, elas exercem também influência sobre os nervos que gerem o funcionamento dos intestinos. Já vimos que as catecolaminas têm um efeito tonificante sobre nosso funcionamento psíquico. A serotonina têm o efeito contrário. Substâncias como o LSD, que impedem a serotonina de agir (ao ocupar os receptores de serotonina), criam alucinações, e uma sensação de êxtase. Mas em seguida, as pessoas sentem dificuldades de concentração, um sentimento de depressão, e nos macacos insônia. Parece, portanto, que a serotonina desempenha um papel importante no sono. Na literatura, está implicitamente se formando um modelo ligando dominância, impulsividade, tendência a suicídio… e serotonina. Vamos ver como isso funciona. McGuire e colegas estudaram recentemente os aspectos bioquímicos dos comportamentos de dominância de certos macacos. Observaram que o líder tem uma taxa um pouco mais alta de serotonina no sangue que os machos submissos. Se o macho dominante for colocado em isolamento, sua taxa de serotonina abaixa. Se ele for deixado sozinho com fêmeas e filhotes, a taxa de serotonina também abaixa. Quando estiver sozinho em frente a um espelho, mesmo efeito. Após a partida do antigo chefe, o novo macho dominante tem uma taxa de serotonina mais elevada que anteriormente. Esses autores também observaram que a taxa de serotonina é regulada pelo número de comportamentos de submissão que uma pessoa recebe. A isso, acrescenta-se a observação de Laborit, segundo a qual o macaco dominante obtém suas energias de uma maneira diferente de que o macaco submisso (que justamente o faz com o eixo hipotálamo-hopófise-supra-renais (HHS) mobilizado pelo estresse). Estudos psiquiátricos também mostram que as pessoas patologicamente impulsivas (Moss, Yao & Panzak 1990) têm uma taxa de serotonina particularmente baixa nos fluídos que circulam no centro da coluna vertebral (cerebrospinal . Outros estudos mostram que entre àqueles que tentam se suicidar, porém não morrem em sua tentativa, a taxa de serotonina é quanto mais baixa (por exemplo, Rici & Wellman 1990) quanto mais violentos forem os meios utilizados na tentativa (uma tentativa de enforcamento é considerada mais violenta que uma tomada massiva de medicamentos. Estes resultados têm algo de paradoxal. A serotonina supostamente acalma, até faz dormir. Mas, observa-se que uma elevação de sua taxa no organismo permite a dominância e é sensível ao número de comportamentos submissos. O conjunto dessas pesquisas, na medida em podem ser consideradas como formando um conjunto, me sugere um modelo no qual a serotonina poderia ser entendida como moduladora de forças tônicas. As pesquisas de Montagnier sobre as crianças de creches mostram que a criança dominante é forte, mas expressa de preferência atitudes de conciliação (ela oferece, por exemplo, chocolate). Em contrapartida, a criança “atacada” (dada a crises) briga com todo o mundo de maneira ineficaz, e acaba desempenhando o papel de criança-problema. Parece, portanto, que a serotonina pode ser um dos componentes do “eu”, um tipo de sistema de resfriamento do motor afetivo. Si este raciocínio se revelar correto, nós nos deparamos com a seguinte cadeia de mecanismos. O respeito aumenta a taxa de serotonina, o aumento de serotonina reforça o “eu”, o “eu” inibe a impulsividade e permite a uma pessoa ter o poder de encontrar o seu espaço. O modelo que eu lhe proponho baseia-se em resultados relativamente sólidos, mas tudo é, claro, especulativo. Vocês observarão, entretanto, que temos aqui uma coordenação muito bonita entre bioquímica, afeto e comportamento social que diz: obrigado Senhor Hume. Conclusão A relação psique e soma já coloca tantas perguntas, que não temos ainda os meios de enfrentar as perguntas despertadas pelas emoções sobre a coordenação entre sociedade, psique e soma. A pergunta fundamental colocada pelos estudos sobre o afeto é saber si as exigências sociais e biológicas podem se harmonizar, ou se estas exigências seguem leis que pela sua natureza só se harmonizam raramente. A psicoterapia busca há muito tempo como nossa identidade psíquica pode crescer na tensão criada por esta polaridade. Pessoalmente, concordo com o ensinamento de Paul Boyesen que toda diferença de potencial é criadora; o que me leva a pensar que é justamente desta tensão que nosso psiquismo nasceu … tendo notadamente como tarefa regulá-la. O caminho espiritual seguido por Gerda Boyesen a leva a postular – ao que me parece – uma harmonia preestabelecida ao menos possível entre os níveis. A formulação de Paul Boyesen parece encaminhar-se em direção à idéia de uma harmonização potencial, que nos possuímos, como espécie e graças a Deus, o poder e o dever de encarnar. Minha própria tendência (Heller 1992) é a de partir da realidade, constatar a impossibilidade de uma harmonização desta, e fazer como Spinoza: supor que as coisas não são assim sem motivo, e procurar compreender a função do que é antes de me perguntar o que deveria ser. Eu me vejo mal vivendo em um mundo que, como um sanatório, procuraria harmonizar todos os níveis do universo com o funcionamento de nossa psicofisiologia. Estas três posições não são forçosamente contraditórias, e espero que cada um de vocês poderá forjar suas própria filosofia … porque é bem de um quadro deste do qual precisamos dispor na hora atual para gerir a emoção em psicoterapia.

Conferência proferida em dezembro de 1991 em Paris.

Veja também em Francês.

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