MARCO PERSIO SPIVACK
Setembro/2026
1. A pergunta
Uma época produz certas perguntas sem ainda ter vocabulário para respondê-las. Chegam antes dos conceitos, antes das teorias, antes mesmo de serem claramente formuladas e se instalam no pensamento de quem as hospeda como uma inquietação que não se deixa resolver. Há uma pergunta que, ao longo de trinta anos de clínica, insiste em retornar: o que a psicanálise consegue alcançar no campo da transformação humana e o que, por constituição, ela não alcança?
Não é uma pergunta abstrata. Emergiu de um percurso que começou no corpo — na experiência com a fáscia, com a respiração, com a couraça muscular descrita por Reich — e que passou pela psicanálise não como abandono do corpo, mas como aprofundamento em outra dimensão do mesmo âmbito: o inconsciente, a transferência, o que a palavra carrega quando o que importa não pode ser dito diretamente. Esse percurso continuou, anos mais tarde, pelo encontro com os estados ampliados de consciência — na meditação, na respiração holotrópica, nos psicodélicos, nas experiências que a neurociência contemporânea começa a mapear com instrumentos dos quais Freud não dispunha, mas que nos levam hoje a recolocar questões que já estavam, de outras formas, no campo inaugurado por ele. Não tratarei dos estados ampliados de consciência neste trabalho. É território vasto que merece espaço próprio.
O corpo não desapareceu quando comecei a trabalhar analiticamente; o inconsciente não se tornou irrelevante quando encontrei os estados ampliados. Cada nova camada exigiu que as anteriores fossem reorganizadas, não descartadas.
Há momentos clínicos em que a palavra está presente, a escuta está disponível, o enquadre está sustentado e ainda assim algo no paciente não encontra caminho. Não necessariamente por falha técnica ou resistência do paciente ou do analista. Talvez porque haja ali um limite que a própria forma da intervenção não consegue atravessar.
Uma hipótese começa então a se desenhar: talvez o enquadre psicanalítico esteja sendo convocado a ser ampliado. Não porque o inconsciente tenha se tornado obsoleto, nem porque a transferência tenha perdido sua força. A palavra continua sendo um dos instrumentos mais poderosos de que dispomos para transformar experiência em sentido. Mas talvez o contexto da experiência humana tenha se ampliado mais do que o enquadre clínico consegue acompanhar.
A pergunta, mais do que resolvida, pede para ser habitada.
2. Alcance
A psicanálise nasceu de uma aposta improvável: que falar transforma. Não falar sobre — falar para, falar com, falar sem saber exatamente o que se vai dizer, e deixar que o que emerge surpreenda quem fala. Freud percebeu, antes de formular plenamente uma teoria para isso, que havia uma diferença qualitativa entre o paciente que recita sua história e o paciente que a descobre enquanto a conta. A transformação não estava na informação transmitida, mas no processo de transmiti-la — no que aparecia no caminho, no que resistia, no que se repetia sem que o paciente soubesse que estava repetindo.
Daí vem a tríade que organiza o pensamento freudiano sobre a mudança: recordar, repetir e elaborar (Freud, 1914). O que não pode ser recordado é repetido — no corpo, no comportamento, nas relações, na transferência. E o que pode ser elaborado deixa de precisar ser repetido. A psicanálise intervém nesse intervalo entre a história que é carregada como destino e a história que pode ser reconhecida e narrada.
O que Freud deixou menos desenvolvido — e que Ferenczi foi um dos primeiros a nomear com coragem — é o papel do analista nesse processo (Ferenczi, 1928; 1933). A neutralidade levada a ferro e fogo podia produzir algo clinicamente problemático: um analista tão ausente que o paciente não encontrava ninguém com quem realmente se encontrar. Ferenczi argumenta que a repetição traumática não se resolve só pela interpretação. Resolve-se, em parte, pela experiência de um vínculo que não repete o trauma. O analista não é apenas um espelho; é uma presença.
Lacan agravou a pergunta por outra via ao propor que o sujeito é efeito de uma cadeia simbólica que o precede e que ele não controla. A transformação analítica, nesse registro, não é simplesmente a cura do sintoma, mas o momento em que o sujeito se depara com o que o determina e pode assumir uma posição diferente diante do próprio desejo. Permanece, porém, uma questão: o que fazer quando o sujeito sabe o que o determina e, ainda assim, continua preso ao mesmo lugar?
Winnicott desloca essa questão para o ambiente. Antes de haver um sujeito capaz de falar, há um corpo que precisa ser sustentado. A resposta winnicottiana não se dá estritamente pela via da interpretação, mas pela oferta de uma confiabilidade ambiental que permite ao sujeito simplesmente ser (Winnicott, 1960).
É com Winnicott que a dimensão da transformação ganha um contorno decididamente relacional. O espaço potencial, o brincar, a capacidade de estar só na presença do outro: são fenômenos que acontecem entre, não dentro de um único sujeito. A transformação é menos uma conquista individual do que um processo que ocorre no intervalo entre dois seres humanos quando um deles consegue ser presença sem invasão.
A sequência Freud, Ferenczi, Lacan, Winnicott não é uma história de progresso — é um mapa de tensões que o campo nunca resolveu. O que transforma: a palavra? O vínculo? A torção subjetiva diante do inconsciente? O ambiente que sustenta?
Talvez a própria pluralidade dessas respostas revele algo importante: a transformação humana não cabe inteiramente em um único instrumento.
A psicanálise desenvolveu instrumentos extraordinários de análise — de decomposição, de interpretação, de escuta do detalhe. O movimento inverso — integrar, sintetizar, perceber como as partes se articulam num todo — ficou, em grande parte, à margem.
É precisamente aí que a clínica começa a insistir em sua próxima pergunta.
3. O corpo
Freud sabia que o corpo era incontornável. “O ego é, primeiro e acima de tudo, um ego corporal”, escreveu em O Ego e o Id — e essa frase não era retórica. A psicanálise construiu uma teoria do corpo de extraordinária sofisticação: o corpo erógeno, atravessado pelo desejo; o corpo pulsional, fronteira entre o somático e o psíquico; o ego como projeção de uma superfície do corpo. O que ficou relativamente menos desenvolvido foi uma técnica de intervenção direta sobre a experiência corporal.
Não foi por descuido, mas por escolha. Freud abandonou a hipnose e progressivamente afastou da técnica analítica intervenções diretas sobre o corpo que não passassem pela palavra. O campo precisava de um método próprio, rigoroso, que não se confundisse com sugestão nem com magnetismo. A palavra foi esse método. E foi uma escolha extraordinariamente fecunda.
Mas toda escolha tem um custo.
O que ficou do lado de fora não era irrelevante. Era o corpo como experiência — não apenas como texto a ser lido, mas como realidade a ser vivida. A psicanálise leu o corpo com refinamento singular — reconheceu que o sofrimento psíquico se expressa nele como conversão, como solicitação somática, como inervação. Mas lê-lo não era o mesmo que habitá-lo. A interpretação podia desfazer o sintoma; não podia, sozinha, desfazer a tensão crônica que o sintoma deixou como vestígio no tecido.
Essa diferença se revela na clínica com uma clareza que nenhuma formulação teórica antecipa. Não é raro observar o paciente que, após meses de elaboração, consegue finalmente nomear o terror do abandono infantil que moldou sua neurose. A palavra é precisa, o sentido é decifrado e a interpretação faz o seu trabalho. No entanto, enquanto fala com perfeita lucidez analítica, seus ombros continuam rigidamente suspensos em direção às orelhas, sua respiração permanece curta, superficial e seu peito mantém-se congelado em uma atitude de defesa invisível.
A palavra decifrou o enigma do passado, mas a musculatura preserva a sintaxe do trauma no presente.
Ele sabe o que lhe aconteceu — mas seu organismo ainda vive na trincheira.
Lacan, por outra via, radicaliza esse limite ao situar o corpo no ponto em que Imaginário e Simbólico encontram aquilo que ele nomeia como o Real: o que não se deixa inteiramente simbolizar. A dor, o envelhecimento, a morte e o gozo lembram que há no corpo algo que resiste à palavra. Nenhuma elaboração analítica, por mais profunda que seja, alcança completamente esse nó.
O corpo responde ao que a psicanálise não faz — não como falha do método, mas como limite constitutivo de qualquer abordagem que opere na fenda entre a imagem, a palavra e a carne.
A psicanálise teorizou a couraça; não a tocou.
Foi Wilhelm Reich quem procurou desenvolver uma técnica clínica sistemática para abordar diretamente aquilo que permanecia fora da intervenção verbal (Reich, 1933). Psicanalista formado por Freud, Reich percebeu que o sofrimento não se inscrevia apenas nas palavras: aparecia na musculatura, na respiração, na postura, no modo como o corpo se contrai diante do que não pode ser dito.
A couraça muscular — camadas de tensão crônica que o organismo constrói para conter o que a psique não consegue elaborar — não era, para Reich, apenas uma metáfora. Era também uma realidade corporal. E não se dissolvia necessariamente pela interpretação; exigia intervenção direta, trabalho com a respiração, contato com o tecido vivo do sofrimento.
O que Reich colocou em primeiro plano foi que o caráter não se expressa apenas no plano psíquico: também se inscreve corporalmente. A respiração bloqueada não apenas representa o conflito — participa dele. A couraça não é apenas metáfora da defesa; é a defesa sedimentada no corpo ao longo de anos de contenção do que não pôde ser expresso.
O sofrimento pode se inscrever no corpo antes de encontrar uma narrativa.
Por vezes, o trauma que não virou narrativa virou tensão, o luto que não foi chorado virou contração. E nenhuma dessas traduções se desfaz apenas porque alguém as interpreta corretamente.
Esse limite não é apenas teórico. Ele se manifesta na clínica com uma clareza que nenhuma elaboração conceitual antecipa.
4. Em cena
L. chegou ao processo num momento de crise aguda. O relato era intenso — uma relação marcada por conflito, vergonha, ambivalência. Nas sessões, havia profundidade real. Fora delas, havia outra coisa: áudios longos, mensagens que chegavam a qualquer hora, conteúdos que pediam resposta imediata, uma dificuldade crescente de conter a demanda até o encontro seguinte.
Durante algum tempo, fui flexibilizando. Na intenção de acolher, fui aceitando trabalhar com material relevante fora das sessões, respondendo a áudios, sustentando uma presença que ia além do enquadre. A flexibilização foi minha e tinha uma lógica: o momento dela era genuinamente difícil, e algo em mim resistia a fechar a porta quando ela transbordava. Ferenczi chamou a elasticidade da técnica de virtude, mas ela tem um limite: quando deixa de ser escolha e vira resposta automática à urgência do outro, já não é técnica, é atuação. Foi o que me custou reconhecer.
O que demorei a nomear é que aquele transbordamento talvez não fosse resistência no sentido clássico. Havia algo que não conseguia esperar, que buscava contato antes que a palavra estivesse pronta. Naquele momento, interpretar talvez fosse chegar ao lugar errado.
O processo precisava, antes de qualquer nomeação, de um enquadre que pudesse conter aquele extravasamento sem ceder a ele e sem rejeitá-lo.
Quando finalmente escrevi a ela nomeando o que havia acontecido — a elasticidade excessiva, a confusão entre acolhimento e sessão, a necessidade de reenquadrar os combinados — sua resposta foi de estranhamento e resistência. Ela contestou, negociou, tentou redefinir o que havia sido sessão e o que não havia. Cada mensagem carregava uma camada diferente: sedução, desqualificação, apelo, racionalização.
Sustentei o enquadre. Não como rigidez — como presença. A interpretação ficou, naquele momento, em segundo plano; o que o momento exigia era outra coisa: a firmeza de quem não recua, mas também não invade.
Depois de algum tempo em silêncio, ela pagou as sessões que estavam pendentes. Sem comentário emocional.
Apenas: segue o pagamento.
Não foi uma resolução. Foi um deslocamento. O enquadre havia sido restabelecido e, com ele, a possibilidade de que o trabalho continuasse em outro lugar.
As sessões puderam ser retomadas mais adiante e o limite voltou a se apresentar em outra clave: já não se tratava do pagamento, mas da forma do cuidado. Sustentá-lo, pela segunda vez, foi deixar a porta aberta.
O que me ficou do caso não foi a satisfação de ter sustentado o limite, mas a percepção de que, naquele momento, o enquadre fazia algo que a interpretação, sozinha, talvez não pudesse fazer: oferecia uma forma para aquilo que ainda não conseguia ser formulado.
O enquadre não era apenas o contorno do tratamento. Naquele momento, fazia parte da própria intervenção clínica.
Sustentá-lo exigia algo que a teoria descreve, mas que só a clínica ensina a reconhecer: a capacidade de permanecer quando o que emerge ainda não tem forma para ser dito.
5. Presença
Talvez seja esse o ponto em que a questão inicial precise ser deslocada.
Ampliar a psicanálise não significa substituí-la por outra coisa. Tampouco significa acrescentar técnicas ao seu repertório como quem acrescenta ferramentas a uma caixa. Significa reconhecer experiências que ela mesma encontrou ao longo de sua história e diante das quais diferentes tradições procuraram responder de modos diversos: o corpo, o ambiente, o vínculo, aquilo que resiste à interpretação.
Integrar não é o oposto de analisar. É um movimento que a análise pode tornar possível, mas que nem sempre realiza sozinha. Há momentos em que o paciente já sabe muito sobre suas partes e precisa, antes, experimentar que essas partes pertencem a uma mesma história, a um mesmo corpo, a um mesmo campo relacional.
O corpo não precisa ser introduzido na psicanálise como um território estrangeiro. Ele sempre esteve ali. O que muda é a disposição de escutá-lo também quando ele não fala a linguagem que aprendemos a interpretar.
Há momentos na clínica em que teoria e técnica recuam — não por insuficiência, mas porque aquilo de que o paciente precisa naquele instante não é de uma nova interpretação. Precisa de uma presença.
Presença que compromete não apenas o saber acumulado em formação e clínica, mas o próprio ser de quem escuta.
É nesse ponto que a psicanálise toca algo que nenhum conceito esgota: o vínculo como lugar de transformação, onde acolhimento e ética não são protocolos, mas postura encarnada.
Porque há experiências que chegam antes da palavra — ainda não têm voz, mas mesmo assim pedem testemunho.
E há momentos em que o trabalho clínico consiste em permanecer ali, diante delas, até que possam encontrar alguma forma.
Referências bibliográficas
FERENCZI, Sándor. (1928). Elasticidade da técnica psicanalítica. In: Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
FERENCZI, Sándor. (1933). Confusão de línguas entre os adultos e a criança. In: Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
FREUD, Sigmund. (1914). Recordar, repetir e elaborar. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 12, p. 159-172.
FREUD, Sigmund. (1923). O Ego e o Id. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 19.
REICH, Wilhelm. Análise do caráter. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995. (Trabalho original publicado em 1933).
WINNICOTT, Donald W. (1960). Teoria do relacionamento paterno-infantil. In: O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983. p. 38-54.