O Resgate da Conexão Entre Psiquê e Soma por Meio da Massagem Biodinâmica: Um Estudo de Caso Clínico
Priscila Mendes¹ e Glória Cintra²
Resumo
Este artigo investiga os efeitos da Massagem Biodinâmica – dispositivo da Psicologia Biodinâmica -, desenvolvida por Gerda Boyesen no processo de integração psiquê-soma de uma paciente com histórico de traumas emocionais e sintomas crônicos de desconexão corporal. Fundamentado nessa abordagem neo-reichiana, o presente estudo tem como objetivo analisar como a técnica atua na regulação do sistema nervoso autônomo, na liberação de couraças corporais e no restabelecimento da biopulsação – mecanismos essenciais para a recuperação da vitalidade primária. O referencial teórico baseia-se tanto em conceitos-chave desenvolvidos por Gerda Boyesen, como nos conceitos do pediatra e psicanalista Donald W. Winnicott. Além disso, complementa-se com discussões contemporâneas sobre somatização de traumas e psicoterapias corporais. Utilizou-se o método de estudo de caso clínico, acompanhando Vera, paciente em processo terapêutico presencial há dois anos, em sessões semanais de massagem. Os dados foram coletados por meio de registros clínicos das sessões, observação sistemática de respostas fisiológicas e emocionais, e relatos subjetivos da paciente. Os resultados evidenciaram avanços significativos na redução de sintomas físicos e emocionais e maior integração entre percepções corporais e emoções. A discussão destaca o papel do vínculo terapêutico e da consistência do setting clínico como facilitadores do processo. Conclui-se que a Massagem Biodinâmica se mostrou eficaz como ferramenta para a reconexão psiquê-soma de Vera, cujo processo terapêutico permanece em andamento. Estes resultados sugerem um potencial para aplicação da massagem em contextos semelhantes de traumas acumulados e pressões da vida contemporânea que se cristalizam no corpo, gerando um estado de desconexão da vitalidade primária.
Palavras-chave: Massagem Biodinâmica; Gerda Boyesen; Psicoterapia Corporal; Trauma
¹Graduanda em Psicologia pelo Centro Universitário UDF. E-mail: oliveira.pmd@gmail.com
²Psicóloga e orientadora do artigo. CRP: 06/7660. E-mail: gloriacintra54@gmail.com
Abstract
This article investigates the effects of Biodynamic Massage – a tool within Biodynamic Psychology -, developed by Gerda Boyesen on the psyche-soma reintegration process of a patient with a history of emotional trauma and chronic symptoms of bodily disconnection. Grounded in this Neo-Reichian approach, the study aims to analyze how the technique influences autonomic nervous system regulation, the release of body armoring, and the restoration of biopulsation – essential mechanisms for recovering primary vitality. The theoretical framework is based on key concepts developed by Gerda Boyesen as well as those of the pediatrician and psychoanalyst Donald W. Winnicott. Furthermore, it is complemented by contemporary discussions on trauma somatization and body-oriented psychotherapies. A clinical case study method was employed, following Vera, a patient who had been undergoing in-person therapy – including weekly massage sessions – for two years. Data were collected through clinical session records, systematic observation of physiological and emotional responses, and the patient’s subjective reports. Results showed significant progress in reducing physical and emotional symptoms, as well as improved integration between bodily perceptions and emotions. The discussion highlights the role of the therapeutic bond and the consistency of the clinical setting in facilitating this process. It is concluded that Biodynamic Massage proved effective as a tool for reconnecting Vera’s psyche and soma – a therapeutic process that remains ongoing. These results suggest the potential for applying the massage in similar contexts involving accumulated trauma and the pressures of contemporary life that become crystallized in the body, creating a state of disconnection from primary vitality.
Keywords: Biodynamic Massage; Gerda Boyesen; Body Psychotherapy; Trauma
Introdução: Psicoterapia Biodinâmica – Um Olhar para o Encontro no Setting Terapêutico
Diante do crescente interesse pela integração corpo e psiquê, e em contraponto a visões positivistas que patologizam rapidamente os sintomas, este estudo propõe-se a investigar o encontro psicossomático entre paciente e terapeuta no contexto da Psicologia e Massagem Biodinâmica, conforme desenvolvidas por Gerda Boyesen. A partir da análise clínica de uma paciente em processo terapêutico há dois anos, em sessões semanais utilizando a Massagem Biodinâmica, a “psicanalise do corpo”, busca-se compreender como 2 os traumas acumulados e as pressões da vida contemporânea se cristalizam no corpo, gerando um estado de desconexão da vitalidade primária.
A paciente em questão, Vera, ilustra não apenas os efeitos de uma história pessoal marcada por restrições emocionais e abusos, mas também reflete as dinâmicas sociais que moldam corpos oprimidos e desconectados de sua pulsação vital. O psiquiatra e psicanalista norte-americano Thomas Szasz (1969), em seu livro “A Ideologia e a Doença Mental”, afirma que […] “a capacidade do indivíduo de fazer escolhas livres de coerções depende de suas condições internas e externas. Essas condições configuram e definem a extensão e a qualidade das opções de um indivíduo. Em geral, quanto mais controle o homem adquire sobre suas condições internas e externas, tanto mais livre se torna. Enquanto que o fracasso na aquisição de tal controle, ou a perda do mesmo, o escraviza. O desenvolvimento pessoal é, assim, um processo de libertação individual, no qual o autocontrole e a autodireção suplantam a anarquia interna e a coação externa”. Segundo a visão de Szasz, os terapeutas não devem negligenciar ou desviar a atenção do caráter essencialmente moral e político do desenvolvimento humano e da existência social em prol de um excesso de compreensão psicológica – a “psicologização” da existência humana. Assim, uma das principais funções da terapia é ajudar o paciente a caminhar em direção a um maior grau de liberdade e a tornarse sujeito de sua própria história.
Este estudo visa demonstrar como a Massagem Biodinâmica, ao atuar como ferramenta de reorganização psicofisiológica pode restabelecer a biopulsação (o fluxo natural da energia vital) e a sensibilidade corporal, enquanto a relação terapêutica se consolida como um espaço seguro para o reencontro com o self verdadeiro.
Fundamentos da Psicologia Biodinâmica: A Dinâmica da Vida em Movimento
A Psicologia Biodinâmica, desenvolvida por Gerda Boyesen, surge da intersecção entre fisioterapia, psicanálise e a visão reichiana do corpo como expressão da história psicoemocional. Influenciada por Sigmund Freud, Wilhelm Reich, Carl G. Jung e pela fisioterapeuta Aadel Bülow-Hansen, Boyesen percebeu que memórias, defesas e desejos não apenas habitam o corpo, mas são o próprio corpo. Para ela, a Massagem Biodinâmica funciona como uma mensagem amorosa e prazerosa ao organismo, capaz de reativar a dinâmica da vida, biopulsação, que quando bloqueada por recalcamentos emocionais se 3 transformam em couraças corporais. Boadella (1974) afirma que “cada pessoa tem seu curso da vida próprio e distinto. Não existem dois cursos de vida idênticos. Mas as experiências que levam aos bloqueios e distorções das energias de crescimento na vida têm muito em comum. Assim podemos distinguir padrões e estruturas em formas de energia imobilizadas. Caráter é história congelada, nos lembra Reich.” Para lidar com tais bloqueios, o método de Boyesen baseia-se na psicoperistalse – movimentos internos do sistema digestivo que, para ela, além dos alimentos, digere também emoções não processadas. Quando esses movimentos são inibidos surgem sintomas psicossomáticos, como dores crônicas, rigidez e distúrbios autonômicos.
Caso Clínico: Vera e o Processo de Integração Corporal
Vera é uma mulher, com mais de 70 anos, engenheira aposentada, sem filhos e que mora sozinha. Marcou sua primeira sessão após trocar algumas mensagens cheias de dúvidas sobre a Massagem Biodinâmica. Chegou ao consultório tímida, quase sem sustentar o olhar. Sentou-se na poltrona segurando sua grande bolsa no colo, como se o objeto funcionasse como um escudo entre nós. Ao descrever sua vida de forma panorâmica, contou sobre uma sensação crônica de desconexão que a acompanhou por toda a existência, como se apenas agora estivesse percebendo a gravidade de muitas situações que viveu. Revelou que seu objetivo terapêutico era “derreter as couraças”, demonstrando familiaridade com a perspectiva da Psicologia Biodinâmica.
O psicanalista dr. Guilherme Cliquet, em sua palestra “Normal e Patológico na Psiquiatria”, lembra-nos de que o psiquiatra e filósofo francês Henri Ey entende a normalidade como liberdade existencial. Nesse sentido, o sofrimento ou transtorno mental seria caracterizado, essencialmente, como a perda dessa liberdade: “Você não consegue transitar entre formas de existir, você só consegue existir de uma mesma forma, só consegue se relacionar de uma mesma forma, só consegue se sentir de uma mesma forma. Então a restrição dessa liberdade existencial é um critério que a gente usa bastante”.
Para Boyesen, as couraças podem definir a experiência existencial. Podemos pensar que Vera incorporou, ao longo de sua história, defesas psicocorporais tão rígidas que sua capacidade de autorregulação e circulação da libido foi severamente limitada.
Apoiando-nos nas ideias de Henri Ey, podemos pensar que a couraça em Vera atua como a própria âncora material de sua perda de liberdade existencial: sua musculatura contraída e seus sintomas somáticos a aprisionam em um funcionamento repetitivo. Ela não apenas se sente desconectada; seu corpo físico foi moldado para existir de uma única forma – protegida por um escudo invisível, mas profundamente limitante, que impede o fluxo de sua pulsação vital.
Nas sessões seguintes, Vera trouxe uma lista extensa de queixas somáticas e emocionais: dor no peito que irradia para a perna, rigidez no maxilar, rinite crônica, constipação intestinal, gases, zumbido no ouvido e dor facial. Queixou-se também de um vazio existencial, solidão, sensação de não pertencimento, medo da morte e dificuldade de entrar em contato com os próprios afetos – sentimentos indisíveis, desprovidos de representação e aos quais, portanto, falta a possibilidade de expressão. Emoções capturadas em tamanha intensidade tornam-se inexprimíveis, manifestando-se como um terror sem representação e um iminente medo de desintegração psíquica ou de não existir.
Associada a esse quadro, a paciente revelou uma crônica dificuldade em estabelecer limites, acompanhada pela sensação de ter passado a vida sem de fato vivê-la. Relatou, ainda, não chorar há vinte anos, expressando o desejo de reencontrar o choro. Mencionou, de passagem, abusos sofridos no passado, sem especificá-los ou aprofundá-los; até o presente momento, Vera evita acessar essas memórias, como se tocá-las ainda representasse um perigo iminente. Ao evocar relatos possíveis, sua fala manifestava-se de forma fragmentada e cheia de rupturas, evidenciando um pensamento que não conseguia fluir de maneira contínua.
Frente a esse cenário, a abordagem corporal apresenta-se como uma indicação potente. Na clínica biodinâmica, o manejo terapêutico visa auxiliar o paciente a conectar sensações e palavras, permitindo que a cura se inicie pela via corporal para, progressivamente, facilitar a expressão emocional por meio da linguagem, promovendo a integração entre psiquê e soma e restaurando a identidade do sujeito. No entanto, esse percurso exige um profundo respeito às resistências do paciente, compreendendo que tais defesas operam para proteger o seu verdadeiro self. Forçar o acesso a conteúdos traumáticos antes do tempo poderia, de forma iatrogênica, enrijecer ainda mais o sistema, gerando uma couraça secundária.
Por essa razão, a Massagem Biodinâmica foi indicada como recurso terapêutico central para auxiliar na regulação do sistema nervoso autônomo (simpático e parassimpático) e na liberação das tensões teciduais e emocionais, caminhando em direção à integração das partes fragmentadas do self de Vera. Nesse arranjo clínico, o toque e a massagem funcionam como um manejo e holding suficientemente bom, oferecendo um contorno seguro capaz de promover a reparação de funções maternas primitivas que possivelmente outrora falharam. A paciente apresentou-se também extremamente racional, o que nos leva a pensar numa possível distorção da mente, a qual usurpa a psiquê, afetando a integração do psicossoma. Como chegou conhecendo um pouco da abordagem, e principalmente da massagem, a paciente também conhecia o uso do estetoscópio para auscultar os movimentos psicoperistálticos. Nas primeiras sessões fez questão de acompanhar esses sons, como se eles fossem um termômetro de um progresso que esperava alcançar nas sessões.
Por vezes Vera verbalizava bastante, antes e depois das massagens, e na maior parte das vezes os conteúdos eram assuntos corriqueiros, assuntos do dia a dia. O silêncio ou a pausa não pareciam ser possíveis, manifestando um possível medo de perder contato com a terapeuta, medo de cair para sempre, de perder o colo. Em alguns momentos essa manifestação verborrágica parecia uma forma de estase da energia libidinal – que pode indicar um evento de intensidade na fase oral do desenvolvimento, talvez complicações na amamentação – em outros, era como uma possível forma de se proteger do silêncio e das emoções que poderiam surgir, evitando contato com seu corpo e suas sensações. Com o tempo isso foi mudando – alguns dias a fala concentrava-se apenas antes da massagem, indicando um estado primário de ansiedade e agitação, e em outras sessões sua fala abria-se após a massagem – como se um canal que antes fechado, se abrisse a partir do manejo do corpo e do seu relaxamento, numa diminuição da cisão.
Nas primeiras sessões a paciente deitou na maca com determinação, mas seu corpo enviava outros sinais: os olhos não relaxavam, a respiração era curta e ela insistia em inspirar pelo nariz e exalar pela boca, apesar dos meus pedidos para estabelecer uma respiração suave e exclusivamente pelas narinas. Fui aplicando a massagem de contorno, tocando seu corpo suavemente para acolhê-la e trazer centramento, realizando o manejo da resistência que provavelmente ocorre para se proteger do medo da desintegração e medo do colapso.
Ela apresentou resistência ao toque no peito e nos pés desde o primeiro dia, e seguimos por muitas sessões respeitando esses limites. Devido à intensa dificuldade inicial de aplicar a massagem na paciente, em uma sessão sugeri uma automassagem. Sentamos uma de frente para a outra, e ela reproduziu os movimentos que eu fazia. No início, disse que não sentia nada, mas depois falou sobre vergonha e a sensação de que aquilo era “inapropriado” – podemos pensar que a vergonha pode vir a ser a manifestação da negação das necessidades somáticas. Recuei e propus que deitasse novamente para a massagem como vinha acontecendo antes, na qual eu aplicaria e ela apenas receberia. Ao final, conversamos sobre como a automassagem não precisa ser erótica, e como o corpo pode ser um lugar de cuidado, de prazer, e não apenas de dor. A resistência à automassagem e a dificuldade da paciente em se conectar com o próprio corpo de forma amorosa, demonstram bloqueio da circulação libidinal e uma possível relação com sua história de abusos.
Até esse momento, Vera também não conseguia receber massagem por mais de 30 minutos – Winnicott em seus textos comenta que procura dosar sua presença segundo a necessidade de cada paciente. Aos poucos, no decorrer de um ano das sessões, apareceram espasmos e tremores, especialmente na região abdominal. A paciente dizia que parecia um “choro preso”, como se o corpo quisesse expulsar algo que ela não conseguia expressar há anos – uma descarga vegetativa incompleta e, portanto, um impedimento para o corpo liberar tensões e emoções reprimidas. Esse parecia ser o inicio lento e cuidadoso do descongelamento do trauma.
Em sessões posteriores, os espasmos ficaram mais intensos, chegando à garganta, e Vera emitiu alguns sons, como se estivesse tentando chorar. Ela mesma se questionava: “O que é isso? Por que estou sentindo isso?”, ou seja, era chegado o momento de começar a nomear as sensações, início do trabalho de psicoterapia verbal, no qual a Biodinâmica busca a ressonância entre paciente e terapeuta – uma conexão para além da transferência e contratransferência. Esses reflexos de sobressalto mostravam como o corpo da paciente estava em constante estado de alerta, esperando por ameaças a qualquer momento. Aos poucos, fui introduzindo técnicas para ajudá-la a se sentir mais segura, como pedir que fizesse respirações profundas sempre que os espasmos dessem uma trégua.
No decorrer do processo terapêutico, observou-se que Vera passava a chegar mais calma ao consultório e conseguia manter a tranquilidade durante os dias úteis, apresentando desestabilização predominantemente aos finais de semana. Segundo a paciente, estes eram os períodos mais difíceis devido à intensificação do sentimento de solidão. Apesar disso, transformações sutis e profundas começaram a se desenhar no manejo clínico. No início das 7 sessões, durante o diálogo preliminar que antecedia a massagem, um movimento simbólico marcou a evolução do vínculo terapêutico: sua bolsa pessoal, que outrora funcionava como uma barreira física constante no colo, passou a ser pendurada no cabideiro da sala a partir de um convite terapêutico. Esse deslocamento do objeto abriu espaço para um gesto inédito e espontâneo: um abraço ao chegar e ao partir.
Sob a perspectiva winnicottiana, esse avanço, embora aparentemente pequeno, demonstra que o terapeuta foi capaz de propiciar um ambiente seguro. À medida que a paciente começa a confiar na estabilidade física e afetiva do setting, a figura do terapeuta assume a função de mãe-ambiente e de um objeto relacional acolhedor e previsível, livre de ameaças. O abraço incorporado à rotina clínica evoca o próprio conceito de holding – a sustentação segura que o bebê recebe nos braços da mãe -, permitindo que Vera, gradativamente, sinta-se segura para receber e expressar afeto.
Esse afrouxamento defensivo estendeu-se também ao plano somático. Nas sessões mais recentes, a paciente tem se mostrado substancialmente mais aberta ao toque na Massagem Biodinâmica. Os espasmos musculares que antes tensionavam seu corpo cessaram, e Vera agora consegue permanecer deitada por períodos mais longos, chegando, por vezes, a adormecer. Esse relaxamento profundo sinaliza que o mundo, progressivamente, vai se tornando um lugar menos ameaçador. A diminuição das defesas e a capacidade de entrega ao sono na presença da terapeuta atestam a consolidação de uma base de confiança e a reconexão de Vera com sua pulsação vital.
Ademais, a psicoperistalse da paciente tem se mostrado visivelmente mais ativa, manifestando-se por meio de sons viscerais variados: em alguns momentos apresentam-se fluidos e tranquilos, como o correr de um riacho; em outros, exibem-se mais intensos, assemelhando-se a portas rangendo. Na perspectiva da Psicologia Biodinâmica, esses ruídos internos acontecem a partir da autorregulação vegetativa e da eliminação de resíduos hormonais e emocionais do estresse. Ao final de uma dessas sessões, Vera indagou se o atendimento já havia terminado, demonstrando surpresa com a velocidade com que o tempo havia passado. Essa distorção benigna da percepção temporal sinaliza que a paciente está alcançando um estado de profundo conforto e entrega ao processo clínico. Sob o referencial de Winnicott, esse fenômeno coaduna-se com os chamados estados de não-integração bem-sucedidos, caracterizados por uma experiência de relaxamento e repouso em que o psicossoma experimenta um profundo bem-estar, livre da necessidade de vigília defensiva. É a partir desse solo seguro da não-integração que emergem a criatividade, o brincar e a expressão autêntica do verdadeiro self.
Esse movimento de abertura frutificou para além das fronteiras do consultório. Recentemente, Vera relatou que, ao assistir a um filme em sua residência, emocionou-se e chorou espontaneamente. O congelamento afetivo que persistia há duas décadas começou a ceder, revelando uma vida emocional que se descongela de forma gradual, orgânica e de dentro para fora, sem que o manejo terapêutico precise provocar ou forçar tal catarse. Evocase assim, a ideia de Winnicott de que a vida é a terapia que cura: o setting clínico oferece a base confiável para que o sujeito recupere a segurança necessária e, a partir dela, volte a se mover e a ser curado pela própria dinâmica da existência viva.
A Presença do Terapeuta: Um Corpo que Escuta e Contém
No início do processo meu corpo de terapeuta respondia à fragmentação de Vera com rigidez – um esforço físico para acompanhar sua narrativa desconexa, que saltava entre assuntos como um rio interrompido por pedras. As tentativas iniciais (automassagem, visualizações, exercícios respiratórios) esbarravam em sua resistência, e eu me via tensionada, duvidando de minha própria capacidade de acolhê-la. Era como se meu corpo, inconscientemente, espelhasse sua couraça. Com o tempo, porém, o vínculo foi se tecendo. Percebi que minha presença precisava ser ao mesmo tempo constante e flexível. Aos poucos, encontrei um equilíbrio entre atender suas demandas racionais (explicações sobre a psicoperistalse, necessidade de perceber um “progresso” terapêutico) e abrir espaços de silêncio, nos quais ela podia experimentar a própria organização interna – Winnicott fala da capacidade de estar só, na presença da mãe, o continuar a ser sem interrupções, que é fundamental para a constituição do verdadeiro self. E nesse caminho, aprendi a ouvir mais com as mãos – percebendo, no toque, o que suas palavras ainda não traduzem.
Considerações Finais: O Corpo como Território de Cura
O processo terapêutico de Vera é lento, mas perceptível:
– Ela relata suas sensações durante as sessões, algo que antes era impossível pois “não sei” era a resposta padrão;
– Vera já compartilhou que depois das sessões dorme melhor e acorda menos à noite;
– atualmente permite ser tocada na massagem com menos resistência e apresenta abertura da psicoperistalse e da respiração diafragmática, possibilitando um derretimento gradativo das couraças;
– em geral, Vera já consegue deitar e ficar em silêncio em contato consigo mesma na maior parte das sessões desenvolvendo sua capacidade para estar só;
– o setting terapêutico torna-se um espaço seguro, e o vínculo entre paciente e terapeuta passa a ser confiável. Dessa forma, o sistema nervoso sai do estado hiperalerta, e retoma a confiança no contato.
Para mim, cada pequeno avanço é uma conquista: o abraço ao chegar (holding), as lágrimas que começam a brotar (renascimento emocional)… Vera pode viver seu ser integral, lidar com a vida emocional que traz alegrias, prazeres, dores, tristezas, desconforto – oscilações das emoções que são a vida em movimento. Parece que agora ela percebe o quanto esteve desconectada, à margem da vida. À medida em que Vera relaxa e fala sobre suas sensações e sentimentos, a diminuição dos sintomas e das defesas pode acontecer. Hoje seu discurso está menos fragmentado.
Vera é protagonista em seu próprio processo de cura e percebe que a vida não precisa ser vivida no piloto automático, que é possível estar presente e sentir prazer nas pequenas coisas – ela está refazendo o caminho de conexão com o corpo e as emoções, uma camada de cada vez, dentro de um setting seguro, confiável e amoroso. Esse espaço terapêutico permite a abertura de espaços internos e externos na paciente, tornando possível a diminuição de sintomas de stress físicos e emocionais profundos, possivelmente gerados por comunicações táteis insuficientes ou distorcidas. O objetivo com a paciente continua sendo reestabelecer essa comunicação e reconectar a confiança em si mesma e na comunicação com o outro e com o mundo. Quanto aos conteúdos dolorosos, abusos e memórias traumáticas, é preciso dar espaço para que isso possa acontecer verbalmente, a partir de um espaço de confiança, respeitando o ritmo e a possibilidade de entrega para o processo terapêutico, sem provocações ou invasões decorrentes de pressa ou narcisismo do terapeuta para se sentir competente.
O caso de Vera mostra que a Massagem Biodinâmica não é apenas uma técnica, mas um convite ao renascimento somático. Ao resgatar a biopulsação e a confiança no próprio corpo, a paciente lentamente reconquista sua capacidade de sentir, existir e pulsar em plenitude. Em psicoterapia corporal dizemos que o corpo não mente, ele é a verdade em movimento. E, no caso de Vera, esse movimento – ainda que lento – já começa a fluir. É fundamental que o terapeuta possa acreditar na força da vida, na força dos processos e que em boas condições a cura e a vida acontecem.
Fernando pessoa
Para ser grande seja inteiro, nada do que é seu exagera ou exclui
A lua em cada poça brilha porque alta vive.
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